Ronaldo Gogoni 1 ano e meio atrás
O futuro não parece nada promissor para 007, o agente secreto a serviço de Sua Majestade, com licença para matar, que sempre faz questão que todos saibam que seu nome é Bond, James Bond. A franquia, que completou 60 anos em 2022, é o centro de uma briga acirrada entre a Amazon, dona da distribuidora MGM, e a Eon Productions, que produz os filmes.
Planos para o 26.º filmes estão basicamente congelados, sem roteiro ou elenco definidos, principalmente porque Barbara Broccoli, co-diretora da Eon, está no limite com os executivos da gigante do e-commerce, que querem ditar como a marca James Bond deve ser explorada daqui por diante, o que ela não permitirá de jeito nenhum.

Enquanto Amazon e os Broccolis batem cabeça, futuro da franquia 007 permanece incerto (Crédito: Reprodução/Eon Productions/MGM/Amazon)
Para entender o rolo, é preciso voltar algumas décadas. A Eon Productions, fundada em 1961 por Albert R. "Cubby" Broccoli, é a produtora dos filmes oficiais da franquia 007, que excluem o primeiro Casino Royale (1967, Columbia Pictures), e 007 - Nunca Mais Outra Vez (1983, Warner Bros.); as películas eram originalmente distribuídas pela finada United Artists, até esta ser absorvida pela MGM em 1981.
A própria Metro-Goldwyn-Mayer passou por diversas mãos, foi controlada por uma joint entre a Columbia Pictures e a Sony, até sua falência em 2010, quando a co-produção foi dividida entre a Eon e a Columbia. Os direitos de distribuição da Sony expiraram em 2015, e voltaram para a mão da MGM após o período de insolvência, resultando no mais recente filme 007 - Sem Tempo para Morrer (2021).
Independente de quem distribua, a palavra final sobre os rumos da produção, compartilhado ou não, sempre coube à cúpula da Eon, controlada pela família Broccoli, hoje representada por Barbara, a única filha legítima de Cubby Broccoli, e seu irmão adotivo Michael G. Wilson.
Os problemas começaram em 2022, quando a Amazon comprou a MGM por US$ 8,5 bilhões; a gigante do e-commerce passou a controlar um enorme acervo de franquias, que inclui O Exterminador do Futuro, Stargate, RoboCop, Rocky Balboa, e Comandos em Ação, e marcas legadas como A Pantera Cor-de-Rosa, e a Trilogia dos Dólares de Sergio Leone.
Claro, o que a companhia estava realmente de olho era o acordo de distribuição da franquia 007/James Bond, achando que passariam a ser donos do espião mais famoso do mundo, mas Amazon e Barbara Broccoli estão em pé-de-guerra desde o dia 1, sem chegar a um acordo sobre como conduzir a marca: a big tech quer dar pitaco em tudo, mas a Eon detém a palavra final, que tem sido, geralmente, "não".

Barbara Broccoli (na foto, com seu irmão e co-presidente da Eon Productions, Michael G. Wilson) estaria fula da vida com sugestões da Amazon para a franquia 007 (Crédito: Jeff Spicer)
Segundo um extenso artigo do The Wall Street Journal, a Amazon teria submetido um monte de ideias para passar a explorar 007 como uma marca inter mídia, de forma similar que a Disney fez com a Marvel e Star Wars, e a Warner Bros. com a DC, o que teria tirado Barbara Broccoli do sério; segundo amigos próximos, ela teria dito não confiar "em uma empresa gerida por um algoritmo", e chamou seus executivos de "idiotas do caralho".
Algumas das ideias da Amazon inexoravelmente podadas pela Eon, saídas do departamento de DEI (Diversidade, Equidade, e Inclusão) da empresa, que parece operar de forma similar ao da BBC, envolveriam séries spin-offs para o Prime Video, centradas em outros personagens, ou por uma agente 007 mulher (não necessariamente o Bond, mas chegaremos lá).
Alguém consegue imaginar algo protagonizado pelo M, ou por sua secretária, a srta. Monneypenny (OK, nos filmes protagonizados por Daniel Craig, ela tinha sido agente de campo)? Ou mesmo por alguns dos vilões, ou pelas Bond girls?
Tá, admito, algo centrado na Octopussy poderia ser interessante.

Maud Adams foi a primeira MILF na imaginação de muito moleque, mas ela tinha só 38 anos quando 007 Contra Octopussy estreou, em 1983 (Crédito: Divulgação/Eon Productions/MGM/Amazon)
Outro ponto de conflito é a direção dada ao personagem principal, especificamente quem seria o próximo Bond nos cinemas. A Amazon sugeriu que o personagem fosse negro, homossexual, ou mesmo uma mulher, o que Barbara Broccoli estaria disposta a considerar as duas primeiras possibilidades (lembra do frisson sobre a suposta escolha do ator Idris Elba, o homem que cancelou o Apocalipse, para o papel?), mas jamais a última, envolvendo a troca de gênero do agente.
Porém, algo que a Amazon deseja, e que a Eon Productions não aceita de jeito nenhum, é abrir o casting de James Bond para atores não-britânicos, o que NUNCA aconteceu, e isso incluiria mudar a nacionalidade do personagem. Sim, eu sei que George Lazenby é australiano, e Pierce Brosnan é irlandês, mas ambos países são membros da Commonwealth.
Sem contar a ideia de gerico de que um James Bond norte-americano (qual é, você sabe que é essa a intenção) faria dele um agente genérico, quando comparado a outros personagens similares, de Jack Ryan a Jack Reacher, coincidentemente, protagonistas de produções recentes do Prime Video.
De novo, Barbara Broccoli é inflexível e não admite tal mudança, assim, o projeto para o 26.º filme segue "sem script, sem história, e sem um novo Bond", nas palavras da produtora; não há previsão de quando, ou se, ele será posto em movimento.
Ao que parece, a Eon Productions não pode simplesmente trocar de produtora, enquanto a Amazon, ao contrário do que pensava, não conseguirá fazer nada sem a bênção dos Broccolis, o que não deve acontecer tão cedo. Em algum momento ambas as partes deverão se entender, afinal de dinheiro todos gostam, mas até lá, é melhor esperar sentado por um novo filme do 007.
Fonte: The Wall Street Journal