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Resenha: The Last of Us — diferente, mas igual

The Last of Us foge da palavra com "z" como o diabo da cruz, mas não consegue (ou não quer) se livrar da linguagem dos games

16/01/2023 às 13:31

Após anos de atrasos e mudanças de projeto, a série The Last of Us, baseada nos games da desenvolvedora Naughty Dog para consoles PlayStation, finalmente saiu. Criação conjunta de Neil Druckmann, roteirista dos jogos, e de Craig Mazin, de Chernobyl, a obra busca traduzir para a TV todos os sentimentos que os gamers tiveram, e apresentá-los a um público que passa longe do controle.

The Last of Us (Crédito: Divulgação/Sony Pictures Television/PlayStation Productions/WBTV)

The Last of Us (Crédito: Divulgação/Sony Pictures Television/PlayStation Productions/WBTV)

Confira a seguir o que achamos do primeiro episódio de The Last of Us, com alguns spoilers.

Estrada Para a Perdição

O piloto da série The Last of Us se desenrola praticamente da mesma forma que o enredo das primeiras horas do primeiro game, lançado originalmente em 2013 (pois é, já se passou quase uma década) para o PS3. Quem jogou sabe o que esperar, mas a história é nova para os demais.

O prólogo se passa em 2003, onde Joel Miller (Pedro Pascal, nosso mandaloriano favorito), sua filha Sarah (Nico Parker, da versão 2019 de Dumbo), e seu irmão Tommy (Gabriel Luna, de Agentes da S.H.I.E.L.D. e O Exterminador do Futuro: Destino Sombrio) vivem em Austin, Texas, onde são testemunhas do surto local do início da pandemia global causada por um fungo, uma variante do Cordyceps, aquele que transforma formigas em zumbis; neste caso, ele infecta humanos.

Aqui, os produtores da série fizeram uma sutil adaptação, para evitar que os atores ficassem de máscara o tempo todo: a doença não se espalha pelo ar, via esporos, apenas por gavinhas do fungo, que podem ser estendidas pelas bocas dos infectados, ou por contato direto. O que não muda é o fato que, uma vez infectado, não há cura. No fim, Joel perde tudo o que tinha.

20 anos depois, os humanos restantes dos Estados Unidos vivem em Zonas de Quarentena, de onde ninguém pode entrar ou sair, e uma lei marcial permanente mantém a população na linha, sob pena de morte pelo menor deslize. Há também um grupo de resistência, os Vaga-lumes, que buscam libertar as ZQs do controle militar da FEDRA, sigla em inglês para Agência Federal de Resposta a Desastres.

Pouco se sabe sobre como está o resto do mundo. Não há internet, TV, nem rádio; o governo em si não existe mais, não há infraestrutura para absolutamente nada, e as poucas comunicações são feitas entre ZQs com ondas curtas, em transmissões controladas.

Pedro Pascal convence como Joel (Crédito: Reprodução/Sony Pictures Television/PlayStation Productions/WBTV)

Pedro Pascal convence como Joel (Crédito: Reprodução/Sony Pictures Television/PlayStation Productions/WBTV)

Joel, que vive na ZQ de Boston, é mais um dos muitos que busca apenas sobreviver, de bicos e contrabando, enquanto tenta se reconectar com Tommy, que não dá notícias há algum tempo (ele vive no Wyoming). Após indas e vindas, ele acaba com um rojão nas mãos, na forma de Ellie (Bella Ramsey, a Lyanna Mormont de Game of Thrones), uma adolescente petulante, que os Vaga-Lumes estavam desesperados para tirar da cidade.

No fim do episódio, Joel descobre o tamanho da roubada em que se meteu: Ellie é aparentemente imune ao Cordyceps, o que pode levar ao desenvolvimento de uma cura para a praga. Ele deve agora atravessar o país, e encarar uma série de inimigos, infectados ou não, para entregar a jovem em seu destino.

É um game ou uma série de TV?

Neil Druckmann é um dos roteiristas há mais tempo na Naughty Dog, tendo escrito as histórias tanto de The Last of Us quanto de sua sequência, além das de três dos cinco Uncharted, as exceções sendo o terceiro game e o spin-off The Lost Legacy. Ele foi produtor-executivo da adaptação das aventuras de Nathan Drake para o cinema, que não correspondeu às expectativas da Sony, bem como não agradou à crítica.

Originalmente, The Last of Us também deveria ter sido um filme, mas a produção sofreu uma série de revezes ao longo dos anos, e foi atrasando (Uncharted: Fora do Mapa também). A Sony, que originalmente tinha planos de manter um serviço de streaming ligado a seus consoles, também mudou de ideia com o tempo, e passou a terceirizar.

As coisas só mudaram em 2020, quando o projeto foi movido para uma série de TV, encomendada para o canal HBO, que aprovou a primeira temporada, com Mazin a bordo, vindo na esteira do sucesso de Chernobyl, para dividir o papel de showrunner com Druckmann.

A HBO/Warner Bros. ofereceu sua expertise em produzir séries de qualidade, e o sucesso inegável de The Last of Us como game era tentador demais para a emissora, que precisava de uma marca de peso após o fim de Game of Thrones.

O cancelamento de Westworld (para cortar custos, culpa do Zaslav) colocou ainda mais pressão na obra, que arrisca ser vista por muitos como "mais uma série de zumbis", ainda mais depois do encerramento recente de The Walking Dead. A bem da verdade, assim como a série da AMC, The Last of Us foca mais no drama humano, e menos nos infectados em si.

A linguagem da série é muito próxima da dos games, o que pode não agradar todo mundo (Crédito: Divulgação/Sony Pictures Television/PlayStation Productions/WBTV)

A linguagem da série é muito próxima da dos games, o que pode não agradar todo mundo (Crédito: Divulgação/Sony Pictures Television/PlayStation Productions/WBTV)

No piloto, as poucas cenas de ação se resumem ao início, com o caos se instalando em Austin, e confrontos mínimos entre a FEDRA e os Vaga-lumes, mas os próximos (a primeira temporada terá 9 episódios) prometem aparições dos infectados avançados, como os estaladores (clickers, no original em inglês), que captam suas presas pelo som.

Aliás, o primeiro episódio foi uma adaptação ipsis-literris das primeiras horas do game, o que acabou setorizando o capítulo de 85 minutos, basicamente um filme. Assim, como em um videogame, há as sessões de conversa (onde você podia explorar livremente), intercaladas das cenas de combate, sendo muito bem definidas.

É possível que Druckmann tenha optado por manter a narrativa, com modificações pontuais, para não desagradar o público gamer, mas a dinâmica de "complete desafio A, cumpra missão B, chegue a objetivo C" pode cansar quem não joga. É uma aposta arriscada, ainda mais porque o público médio, diferente da crítica especializada, ainda não viu a temporada completa.

Joel, Tess e Ellie em seu primeiro encontro (Crédito: Reprodução/Sony Pictures Television/PlayStation Productions/WBTV)

Joel, Tess e Ellie em seu primeiro encontro (Crédito: Reprodução/Sony Pictures Television/PlayStation Productions/WBTV)

Estes estão avaliando a 1.ª temporada de The Last of Us com notas altíssimas, tendo chegado à rara marca de 99% de aprovação pela crítica no site Rotten Tomatoes (dados de 16/01/2023); o público aprovou o piloto com 96%, mas isso pode mudar daqui a dois meses.

Tecnicamente, The Last of Us usa todo o dinheiro que a Warner/HBO tinha à disposição, com locações enormes, sujas e envelhecidas, e efeitos visuais de boa qualidade, sem contar as atuações de Pedro Pascal, Bella Ramsey e Anna Torv (a Olivia Dunham de Fringe) respectivamente como Joel, Ellie e Tess, ainda melhores que as de Troy Baker, Ashley Johnson e Annie Wersching no game original.

Conclusão

Não embarque na onda de que The Last of Us "quebrou o tabu" das adaptações de games para TV ou cinema. A totalidade dos sites caçadores de cliques disseram a mesma coisa de Castlevania (2017) e Arcane: League of Legends (2021), e é bem possível encontrarmos menções similares a obras ainda mais antigas.

A jornada de Ellie e Joel foi desde o início concebida como um roteiro cinematográfico, e adaptado para videogames, logo, a transição não é anti-natural; trata-se apenas de outra maneira de narrar uma história, e a HBO dá todo o suporte e dinheiro necessários para que a série não deva em nada aos jogos.

The Last of Us (Crédito: Divulgação/Sony Pictures Television/PlayStation Productions/WBTV)

The Last of Us (Crédito: Divulgação/Sony Pictures Television/PlayStation Productions/WBTV)

Na minha opinião, The Last of Us é uma boa série que foge da palavra com "z" o tempo todo, assim como The Walking Dead, ao focar os holofotes nos humanos, e no clima de tensão entre quem não está infectado. Raras serão as ocasiões em que Joel e Ellie poderão confiar em outras pessoas, que diferente dos infectados, são bem menos previsíveis, e igualmente perigosos.

No fim, The Last of Us é uma chance de mais pessoas terem contato com o enredo de um dos melhores games das últimas décadas, que pode preencher o vácuo deixado na TV pelos walkers de Robert Kirkman.

Nota:

5/5 estaladores.

Crédito: Divulgação/Sony Pictures Television/PlayStation Productions/WBTV

The Last of Us — onde assistir

The Last of Us está disponível no Brasil no canal HBO, e no serviço de streaming HBO Max.

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