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Meta: óculos inteligentes coletam intimidade de usuários

Óculos inteligentes do Meta coletam vídeos durante momentos MUITO íntimos de seus usuários, que são catalogados por terceirizadas

13 semanas atrás

O Meta está mais uma vez enrolado por conta de suas políticas para coleta de dados: a companhia está sendo processada na Califórnia por mentir a respeito dos óculos inteligentes fabricados em parceria com as grifes Ray-Ban e Oakley, que segundo relatório recente, coletam vídeos de usuários inclusive nos momentos mais íntimos, que são revisados e catalogados por funcionários de empresas terceirizadas.

Do outro lado do Atlântico, o Escritório do Comissário de Informação do Reino Unido (ICO na sigla em inglês), órgão regulador independente de proteção de dados, expressou preocupação com os planos da companhia de Mark Zuckerberg de adicionar reconhecimento facial a seus acessórios vestíveis.

Mark Zuckerberg apresenta o Ray-Ban Meta durante evento realizado em setembro de 2025 em Menlo Park, Califórnia (Crédito: Nic Coury/AP)

Mark Zuckerberg apresenta o Ray-Ban Meta durante evento realizado em setembro de 2025 em Menlo Park, Califórnia (Crédito: Nic Coury/AP)

Meta e os óculos indiscretos

O relatório publicado em fevereiro de 2026 é fruto de uma colaboração entre os jornais suecos Svenska Dagbladet e Göteborgs-Posten, e da jornalista freelancer baseada no Quênia Naipanoi Lepapa. Ele se baseia em entrevistas realizadas com 30 funcionários de diversos níveis hierárquicos de uma companhia queniana chamada Sama, que fornece análise dos dados coletados pelos óculos inteligentes Ray-Ban Meta.

Vários desses funcionários analisam vídeos, fotos e áudio captados pelo acessório, que vale lembrar, é pareável com o smartphone e permite atender ligações, ouvir música e gravar conteúdo, através das duas câmeras e microfone embutidos. Como tudo o que envolve o Meta e dado o histórico, todo mundo se atentou à possibilidade nada inevitável do acessório fotografar e gravar o tempo todo, de modo a usar os dados para treinar algoritmos de Inteligência Artificial, afinal, hoje tudo gira em torno da IA.

Os jornalistas não tiveram acesso a nenhum material que os funcionários da Sama alegam ter visto, vindo de "um fluxo de dados" direto dos óculos inteligentes para os servidores do Meta, que então são repassados para companhias terceirizadas como a Sama, para notação e categorização. Os relatos, no entanto, são no mínimo perturbadores e os funcionários afirmam ter "ficado desconfortáveis" ao analisar tais conteúdos.

Mas o que eles viram, afinal? Um dos funcionários da Sama, que obviamente não foi identificado, relatou um vídeo onde "um homem coloca os óculos sobre o criado-mudo ao lado da cama e sai do quarto", para em seguida "sua esposa entrar e trocar de roupa". Outros relatam streams de pessoas usando o banheiro, de uma mulher saindo do lavabo nua, e até vídeos de sexo, aparentemente gravados de forma não intencional ou mesmo consciente pelo usuário, foram coletados.

Um dos funcionários terceirizados descreveu o trabalho da seguinte forma:

"Você sabe que está vendo a vida privada de alguém, mas ao mesmo tempo, você tem que fazer o seu trabalho (analisar e catalogar conteúdos para uso em treinamento de IAs)."

À rede BBC, o Meta confirmou que "eventualmente" solicita os serviços de empresas terceirizadas para a notação de dados coletados pelo chatbot Meta AI com o intuito de melhorar a experiência do usuário, enquanto lembrou que "todas as companhias de tecnologia fazem isso", o que é verdade, mas não serve de desculpa.

Em tese, os conteúdos captados pelos óculos inteligentes entram nesse balaio (Ray-Ban Meta e Oakley Meta têm acesso ao Meta AI), mas lembrou que "os dados são filtrados" para proteger a privacidade dos usuários, por exemplo, os rostos são sempre borrados, como se isso aliviasse o fato de que terceirizados estão essencialmente catalogando pr0n não solicitado para o treinamento de algoritmos, algo mais baixo do que usar a Locadora.

Mark Zuckerbeg posa com os óculos inteligentes Oakley Meta (Crédito: Mark Zuckerberg/Instagram)

Zuck muito provavelmente desliga seus Oakley Meta (e os guarda no estojo) na intimidade do lar (Crédito: Mark Zuckerberg/Instagram)

 

De fato, a política de privacidade do Meta lembra que fotos e vídeos captados pelos óculos inteligentes são enviados aos servidores da empresa quando os recursos de processamento por IA estão ativos, já que o acessório não é capaz de fazê-lo in loco, quando você usa o Meta AI, ou quando hospeda conteúdo em serviços da gigante como Facebook e Instagram. Todos os streams de vídeos e gravações de áudio são igualmente mandados para os servidores, e em alguns casos, eles serão "analisados por humanos", no caso, funcionários de empresas terceirizadas como a Sama, do Quênia.

O grande problema, que está novamente incomodando reguladores de ambos os lados do oceano, é o fato de que a maioria dos usuários não lê os Termos de Serviço, e mesmo os que fazem isso nem sempre são versados em juridiquês e simplesmente não compreendem o que está escrito, mas como querem usar os gadgets, concordam com tudo mesmo assim.

Isso é o que legisladores chamam de "padrões sombrios" (dark patterns em inglês), criados para confundir e direcionar ações do usuário, enquanto ocultam intenções e procedimentos para o uso e coleta de dados. Por exemplo, a integração da câmera com IA é ligada por padrão, e poucos sabem que precisam "pedir para sair", ou optar para impedir o uso (opt-out), uma prática que governos querem inverter, forçando empresas a adotarem o opt-in (optar pelo uso) como norma.

Esse não conhecimento das capacidades plenas do Ray-Ban Meta e do Oakley Meta é corroborado por relatos de funcionários da Sama, que disseram ter analisado vídeos onde usuários gravaram, aparentemente sem conhecimento, números e códigos de segurança de cartões de crédito ao olharem para eles, e atividades íntimas como assistir pr0n.

Quando contatado pelo site Ars Technica, um representante da Sama disse que a companhia "não comenta sobre relações com clientes ou projetos" ligados a eles, que segue a GDPR e a CCPA (Lei de Privacidade de Consumidores da Califórnia, onde o Meta é sediado), sendo obrigado a manter "procedimentos rigorosamente auditados" para cumprir com exigências de privacidade dos dados, e que o trabalho de notação de conteúdos é conduzido "em um ambiente controlado, onde dispositivos pessoais (dos funcionários) não são permitidos".

O relatório despertou reações no Reino Unido, onde o ICO cobrou explicações do Meta, ao lembrar que a lei britânica determina que "usuários devem ser colocados no controle", o que é geralmente entendido como "nada de opt-out, nem de padrões sombrios", além de prover transparência máxima sobre o que é coletado e como esses dados sãso usados.

Enquanto isso, a Corte Distrital do Norte da Califórnia abriu um processo (cuidado, PDF) contra o Meta e a Luxottica of America, subsidiária norte-americana da EssilorLuxottica, dona da marca Ray-Ban, dizendo que a gigante tech e a parceira mentiram ao estabelecer o slogan para o Ray-Ban Meta "desenvolvido para privacidade, controlado por você", enquanto coleta conteúdos da intimidade dos usuários, enquanto criam dificuldades para que estes impeçam que os óculos inteligentes façam o que não deveriam fazer.

Fonte: BBC, Ars Technica

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