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IA: Meta nega ter baixado pr0n para treinar algoritmos

Meta diz que downloads via torrent foram "pessoais", não para treinar IA; produtora pr0n é conhecida "troll" de direitos autorais

33 semanas atrás

O Meta, assim como OpenAI, Antrhopic e outras companhias que oferecem soluções de Inteligência Artificial (IA), enfrenta processos nos Estados Unidos por violação de direitos autorais, movidos por autores que não deram autorização para que suas obras fossem usadas no treinamento de algoritmos.

Um desses, aberto pela Strike 3 Holdings em julho de 2025, envolve o download via torrent de conteúdo pr0n, que o Meta nega ter sido para treinamento, mas para "uso pessoal"; não obstante, a produtora de filmes adultos é uma conhecida "troll de copyrights", por aterrorizar pessoas com ameaças de processos, em busca de polpudos acordos extrajudiciais.

Processo da Strike 3 Holdings é só mais um entre os que o Meta é acusado de treinar IAs com conteúdo protegido, baixado via torrent (Crédito: Ronaldo Gogoni/Meio Bit)

Processo da Strike 3 Holdings é só mais um entre os que o Meta é acusado de treinar IAs com conteúdo protegido, baixado via torrent (Crédito: Ronaldo Gogoni/Meio Bit)

Meta, IA, pr0n, e trolls

A Strike 3 Holdings é a controladora da Vixen Media, produtora de entretenimento adulto que é dona das marcas Vixen, Tushy, Blacked e outras. No processo (cuidado, PDF), a empresa acusa o Meta de "baixar e hospedar", vida redes P2P (torrent), vídeos de suas produções entre 2018 e 2025 para, entre outras coisas, treinar algoritmos de IA como o LLama.

A cruz desse novo processo, que promete ser fontes de dores de cabeça enormes para Zuck e cia., a Strike 3 supostamente possui uma tecnologia proprietária de identificação e rastreio de endereços IP, conhecida como "VXN Scan", que poderia desmontar um dos argumentos mais fortes da defesa do Meta, de que nunca hospedou arquivos pirateados na internet.

O Meta nega veementemente que agiu como "seeder" de torrents, o que a caracterizaria como um facilitador da pirataria, algo que a DMCA, a lei global de direitos autorais, não alivia para ninguém, mesmo com o governo Trump tentando passar a mão na cabeça das big techs; a palavra final é dos tribunais, e o entendimento geral é de que materiais para treinamento devem ser adquiridos ou licenciados legalmente.

Esse era um dos pontos principais da ação movida por autores contra o Meta, que incluíam os escritores Jacqueline Woodson e Ta-Nehisi Coates, e a comediante Sarah Silverman, mas como a defesa preferiu se concentrar em argumentos mais fracos, de que IAs seriam capazes de reproduzir trechos inteiros de livros, e que sua existência minaria o mercado editorial, o processo acabou arquivado.

Ainda é bastante provável que o Meta seja obrigado a pagar pelo ato de piratear livros em si, de forma similar à Anthropic, mas a ação movida pela Strike 3 tem potencial de desmantelar a defesa da empresa, se provado que ela manteve aberto o compartilhamento de filmes pr0n via torrent por anos, mas há um detalhe a considerar:

A Strike 3, fundada pelo fotógrafo e produtor Greg Lansky, tem a péssima fama, no circuito legal dos EUA, de ser uma "troll" de direitos autorais: ela se escora na suposta tecnologia de ponta do VXN Scan, tratado como uma caixa-preta (ou seja, ninguém sabe como, ou se, funciona), para mandar ameaças de processo a torto e direito para usuários incautos da net.

Nesse sentido, o Meta seria só mais um alvo da produtora, mas com bolsos infinitamente mais fundos.

Uma busca por "Strike 3 Holdings" no Google retorna uma penca de resultados relacionados à atuação legal da companhia, inclusos vários sites, geralmente ligados a escritórios de advocacia, que ensinam usuários a "como responder a uma intimação" da empresa. O MO dela é bem simples:

  • A Strike 3 intima operadoras a cederem os dados pessoais de um usuário, acusado de baixar torrents de seus filmes (o que supostamente foi detectado pelo VXN Scan);
  • O usuário recebe uma cópia da intimação, com um prazo para contestá-la (geralmente um mês);
  • Caso o usuário não conteste, os dados serão cedidos à Strike 3, que poderá arquivar o caso (mas pode reabri-lo a hora que quiser), ou seguir com uma ação judicial por infração de copyright.
Greg Lansky, o autointitulado "Spielberg do Pr0n", faz mais dinheiro com acordos extrajudiciais do que com os filmes de suas produtoras (Crédito: Ethan Miller/Getty Images)

Greg Lansky, o autointitulado "Spielberg do Pr0n", faz mais dinheiro com acordos extrajudiciais do que com os filmes de suas produtoras (Crédito: Ethan Miller/Getty Images)

Entre 2017 e 2023, a Strike 3 abriu mais de 12 mil processos por violação de direitos autorais, geralmente com valores baixos, por volta de US$ 5 mil (~R$ 26,9 mil, cotação de 30/10/2025), em uma estratégia que visa não ir as vias de fato, mas envergonhar os alvos e forçá-los a fechar acordos extrajudiciais, para não serem expostos como consumidores de pr0n.

Só que como ninguém tem acesso ao VXN Scan, não é possível verificar se as acusações procedem, e há quem tenha sido notificado mesmo alegando nunca ter baixado pr0n na vida. O Meta sabe disso, e nesta segunda-feira (27) entrou com uma petição (cuidado, PDF) na Corte Distrital do Norte da Califórnia para que o processo seja arquivado; um porta-voz classificou as acusações como "falsas", dizendo que "não há como provar" que seus algoritmos de IA foram treinados com material pr0n.

A companhia de Mark Zuckerberg diz, com certa razão, que os downloads começaram quatro anos antes da empresa começar os trabalhos com IA, e que seus próprios termos proíbem a criação de conteúdo adulto com seus algoritmos, o que desmonta a necessidade de alimentá-los com tal material.

Ao invés disso o Meta, que não nega os downloads, disse que eles foram feitos "para uso pessoal e privado" dos funcionários envolvidos, algo que bate com a quantidade bastante pequena de material pirateado (por volta de 22 downloads por ano), nada nem perto dos 80 TB de livros baixados via torrent pelos quais responde no outro processo. Ou seja, o conteúdo é muito pequeno para ser efetivamente útil em treinamento de larga escala.

O provável de ter acontecido, a companhia de Greg Lansky cresceu os olhos para a possibilidade de arrancar muito dinheiro do Meta, na faixa de bilhões de dólares, da mesma forma que o faz normalmente, aterrorizando usuários com ameaças de processos públicos. Outras empresas do entretenimento adulto, como a rival canadense Aylo (Brazzers, PornHub, YouPorn, RealityKings) não agem dessa forma, e preferem combater a pirataria com outros métodos.

Além disso, o Meta alega que possui "milhares de funcionários" e que não tem como monitorar todos eles o tempo todo (algo que a Strike 3 diz ser possível), e até mesmo visitantes ou terceirizados poderiam ter usado um IP da empresa enquanto em suas dependências para baixar pr0n. E continua, dizendo que a acusação de que a companhia possui uma "rede de IPs secretos" é absurda, pois não faz sentido usá-la para baixar livros, mas não para filmes adultos.

Resta saber se a petição do Meta vai colar ou não, mas seria interessante se a Strike 3 fosse forçada judicialmente a provar as acusações de acesso, tendo que abrir a caixa-preta do VXN Scan e mostrando se ele funciona de verdade, ou não.

Fonte: Ars Technica

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