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Roomba is no more, em parte, graças à UE

iRobot, criadora do Roomba, faliu; empresa não resistiu à concorrência chinesa, e UE barrou compra pela Amazon, que a teria salvo

24 semanas atrás

Neste domingo (14), a iRobot anunciou o que todo mundo esperava a pouco mais de dois anos: a companhia criadora do Roomba, os robôs aspiradores originais, apresentou um pedido de recuperação judicial junto à justiça do estado de Delaware, nos Estados Unidos, ou seja, declarou falência.

A iRobot transferirá o controle para companhias chinesas e passará por um período de reestruturação, e embora seus representantes tenham prometido aos consumidores que o suporte aos Roombas será mantido, não se sabe se a companhia sobreviverá ao processo.

Não tinha como acontecer outra coisa com o Roomba (Crédito: Jennifer Pattison Tuohy/The Verge)

Não tinha como acontecer outra coisa com o Roomba (Crédito: Jennifer Pattison Tuohy/The Verge)

Roomba não resiste à China e UE

A iRobot foi um bom exemplo de que ideias surgidas na Academia podem, às vezes, se converterem em cases comerciais de sucesso. A empresa (sob o nome IS Robotics) foi fundada em 1990, no Laboratório de Ciência Computacional e Inteligência Artificial (CSAIL) do MIT, pelo roboticista Rodney Brooks e dois de seus alunos, Colin Angle e Helen Greiner.

Inicialmente, a IS Robotics se dedicou ao desenvolvimento de robôs voltado a aplicações militares como o PackBot, graças a um financiamento e contrato com o DARPA; o robozinho foi usado no Iraque e Afeganistão para o desarme remoto de bombas, e eventualmente fez pontas em séries e programas de TV.

O PackBot também foi usado para prover visão computacional após o incidente na usina nuclear de Fukushima, em 2011, sendo o primeiro instrumento a adentrar o local.

Em 2002 a iRobot decidiu entrar também no mercado comercial com o Roomba, que vendeu um milhão de unidades nos primeiros dois anos; a chave para o sucesso, ainda que baseado em tecnologia de ponta e essencialmente para uso militar e estratégico, o robozinho aspirador foi oferecido a um preço ridiculamente acessível de US$ 200.

Com o passar dos anos, a linha Roomba passou a ser o carro-chefe da iRobot, ao ponto desta vender sua divisão militar em 2016, para se concentrar no mercado consumidor; até 2020, mais de 30 milhões de unidades haviam sido vendidas, enquanto mais de 5 mil PackBots haviam sido postos em operação, ainda que a companhia não mais respondesse por eles.

Com o tempo a concorrência se acirrou. Diversas companhias, especialmente da China, entraram no mercado de aspiradores-robô, oferecendo produtos com preços menores, e/ou com melhorias significativas; foram os orientais quem primeiro implementaram LiDAR em seus produtos, de modo a desviar de "presentinhos" de animais de estimação, e evitar cenários de terror fedidos que donos dos gadgets relatavam nas redes sociais; a iRobot só implementou o recurso depois de muito tempo.

Com a pressão aumentando, a participação da iRobot no mercado caiu de 64% em 2016, para 46% em 2020; sem conseguir se escorar somente no prestígio do nome, a companhia se agarrou à Amazon em 2022, como sua única boia de salvação: a gigante do e-commerce pagaria US$ 1,7 bilhão (~R$ 9,2 bilhões, cotação de 15/12/2025), absorveria o nome, tecnologias e produtos, mas tinha uma União Europeia (UE) no meio do caminho.

Em novembro de 2023, a Comissão Europeia para a Competição decidiu, em caráter preliminar, impedir a aquisição da iRobot pela Amazon, alegando que esta usaria no nome e prestígio da linha Roomba para "ameaçar a competição", em uma das declarações mais irônicas dos últimos anos, ignorando que concorrentes já estavam matando a iRobot lentamente. Os reguladores europeus temiam também que a Amazon barrasse a venda de produtos de outros fabricantes, ou reduzisse sua visibilidade, para favorecer a si.

No fim a Amazon desistiu da compra, pagou uma multa à iRobot de irrisórios US$ 94 milhões (~R$ 509,4 milhões), e foi isso. A companhia se viu obrigada a passar por uma massiva reestruturação, resultando na saída do co-fundador Colin Angle, o então CEO, e a demissão de 350 funcionários, ou 31% de sua mão-de-obra.

Em 2023, o Carlyle Group forneceu um empréstimo de US$ 200 milhões (~R$ 1,1 bilhão), mas nem isso bastou para salvar a iRobot. Em novembro de 2025 a companhia de investimentos vendeu o débito, muito provavelmente com prejuízo, já prevendo a falência da fabricante do Roomba, que continuava a ser massacrada pela concorrência vindo da China, e por uma bagunça no fornecimento de componentes, por não conseguir honrar pagamentos aos credores, de novo, chineses.

Se o Roomba sobreviver, não será da mesma forma (Crédito: Divulgação/iRobot)

Se o Roomba sobreviver, não será da mesma forma (Crédito: Divulgação/iRobot)

Agora, veio o inevitável. Com o pedido de falência, o controle da iRobot passará para as mãos da chinesa Shenzhen PICEA Robotics, seu maior fornecedor E credor, que comprou grande parte da dívida do Carlyle Group, e uma subsidiária, a Santrum Hong Kong. Estas absorverão a empresa e as ações ordinárias (com direito a voto) serão extintas.

Pelo acordado com a PICEA, a iRobot continuará existindo para garantir o suporte dos Roombas em operação, e compromissos com fornecedores e funcionários serão cumpridos, ao menos em um primeiro momento. Em um e-mail enviado ao site TechCrunch, a porta-voz da empresa, Michèle Szynal, disse que o pedido de falência "não terá impacto" nas operações comerciais da empresa ou no suporte aos consumidores, "que permanecem sendo nossa (da iRobot) prioridade".

Por outro lado, todo mundo sabe que um processo de reestruturação pós-pedido de falência é imprevisível, há a possibilidade real da iRobot colapsar por completo e deixar de existir, com sua tecnologia sendo absorvida e integrada a outros produtos, enquanto os consumidores da linha Roomba podem, sim, perder funcionalidades com um possível desligamento dos servidores, que controlam as funções de automação dos robozinhos.

Estes continuariam funcionando, mas se tornariam bem mais "burros", tendo que ser operados manualmente, além de não mais poderem ser programados via app para funcionarem em determinados horários, ou para limparem cômodos específicos; eles só seriam capazes de sair da base, limpar o que estiver na frente deles, e voltar para a base, dependendo do dono apertar o botão no aparelho; todo o apelo futurista do Roomba seria perdido.

O acordo entre a iRobot e a PICEA ainda precisa ser aprovado, mas de todo modo, este é um triste fim para uma empresa que trouxe real inovação para o setor de eletrodomésticos, mas que não resistiu à concorrência e foi impiedosamente martelada por reguladores europeus, que preferiram deixar o Roomba morrer a permitir que a Amazon o salvasse.

Fonte: iRobot, TechCrunch

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