Carlos Cardoso 28 semanas atrás
Em Isaías 2, 1-5 há a famosa citação de transformar espadas em arados, já o Gepard sofreu uma mudança de proporções bíblicas. Uma espada foi transformada em um sabre de luz.

Gepard, para os íntimos (Crédito: Wikimedia Commons)
O Flugabwehrkanonenpanzer Gepard, que chamaremos só de Gepard, tem esse nome em referência ao animal gepard, conhecido em português como Chita, ou preferencialmente Guepardo, para não ser confundido com a macaca. O Guepardo é o animal mais rápido da Terra, seguido da Galinha Etíope, mas o Gepard não é conhecido por sua velocidade, e sim letalidade.
As origens do Gepard podem ser traçadas até o Flakpanzer IV "Wirbelwind", um sistema antiaéreo criado na Alemanha Nazista que consistia em um chassis de Panzer IV e 4 canhões de 20mm de tiro rápido em uma torre giratória.

Flakpanzer IV "Wirbelwind" (Crédito: Wikimedia Commons)
Seu objetivo era proteger comboios de ataques aéreos, algo viável em um tempo onde os aviões voavam muito baixo e muito (relativamente falando) lentos, mas mesmo com essas limitações, os canhões de 20 mm do Wirbelwind deixavam a desejar, e logo surgiu o Flakpanzer IV "Ostwind", com um único canhão de 37mm, com cadência de 250 tiros por minuto.
Como só produziram 44 deles, entre 1944 e 1945, não mudaram exatamente o rumo da Guerra, mas trouxeram boas ideias, e assim que a Guerra esfriou, a preocupação da Europa eram tanques, aviões e helicópteros russos cruzando as planícies da Ucrânia, algo que felizmente nunca aconteceu.
No pós-guerra a OTAN usava o M42 Duster, um blindado antiaéreo americano, mas ele rapidamente se tornou obsoleto, como todos os sistemas anteriores a mira era feita no olhômetro, ele era pouco mais que um tanque com um canhão em cima. 40mm, sinistro, mas basicamente um canhão convencional e mais nada.

M42 Duster (Crédito: Robert L. Drieslein Collection / Wikimedia Commons)
No começo dos Anos 1960 a Alemanha começou a projetar o Gepard. Usaram um chassis de tanque Leopard. No lugar da munição do tanque, instalaram um motor auxiliar somente para gerar energia para os sistemas eletrônicos e os motores de rotação da torre.
A torre de tiro contava com dois canhões automáticos de 35mm Oerlikon GDF suíços, com uma taxa de tiro de 550 projéteis por minuto, num total de 1100, o que definitivamente estraga o dia de quem está na outra ponta.
Ao contrário dos sistemas antigos, o Gepard contava com um -na verdade, dois- radares. Um com cobertura de 360 graus e alcance de 15Km, e outro, também com 15km de alcance, usado para rastreio e direcionamento de tiro. Basicamente um identifica todos os alvos na região, o outro acompanha e direciona as armas.
O alcance máximo dos canhões é de 5,5Km.

Munição de 35mm do Gepard. Se isso pega no olho... (Crédito: Reprodução Internet)
Cada um leva 320 cartuchos de munição antiaérea, e 20 cartuchos perfuradores de blindagem em um compartimento separado, podendo ser selecionado pelo operador. É usado para autodefesa contra tanques e blindados, mas assim como o exército alemão da 2ª Guerra, os operadores do Gepard descobriram que o bicho é ótimo contra infantaria e veículos leves.
Infelizmente, apesar de ser um excelente veículo de combate para seu tempo, os tempos mudam, e a tecnologia evoluiu. Aviões voavam mais alto, helicópteros passaram a levar mísseis, e logo o Gepard se descobriu em uma posição insustentável: os mísseis russos tinham um alcance maior que as armas do Gepard. Os Hinds Mi-24 podiam pairar em segurança, identificar os radares do Gepard, disparar seus mísseis e destruir os veículos, sem que os tiros de resposta chegassem a eles.
Como paliativo, as unidades de Gepards passaram a ser acompanhadas de tropas com mísseis Stinger, e até foi proposta uma variação do Gepard levando mísseis, mas faltou grana e a Alemanha desistiu.
Os sistemas foram sendo descomissionados, e somente dois países continuavam com Gepards na ativa: Romênia e... Brasil, que adquiriu 34 veículos, com oito deles sendo enviados em caráter emergencial em 2013, para proteger o país de ameaças imaginárias durante a Copa das Confederações.
O tempo passa, e fora o Brasil, ninguém mais liga para o Gepard. Todos estão em armazéns, pois é mais caro destruir e reciclar do que armazenar, o que é uma sorte para a Ucrânia. Depois da invasão da Crimeia em 2014 e Donetsk em 2022, a Ucrânia se tornou alvo de ataques constantes de drones e mísseis de cruzeiro. Com o Irã fornecendo e licenciando a produção de drones Shaed, a Ucrânia se viu diante da cruel matemática da Guerra: Um míssil de US$ 500 mil usado para destruir um drone de US$ 20 não fecha a conta.
A Ucrânia usou tudo que tinha, inclusive caminhões com canhões antiaéreos ZPU-2, uma variação chinesa de um canhão soviético do pós-guerra, mas o que eles queriam mesmo -e imploraram- era o Gepard. Os estrategistas (do grego strategos, em inglês, strategy) ucranianos perceberam que o Gepard era simplesmente perfeito para abater drones e mísseis de cruzeiro subsônicos.

ZPU-2 "portátil" usado pelas forças da Ucrânia (Crédito: Reprodução Internet)
Ambos voam em trajetórias retas e previsíveis, são totalmente passivos (ui!) diante de sinais externos, o radar do Gepard consegue detectá-los com razoável antecedência.
Zelensky chorou e bateu pé até que a Alemanha começou a enviar lotes de Gepards para a Ucrânia. Mais tarde, os EUA compraram ou negociaram Gepards de países aliados, que ficaram felizes de esvaziar seus estoques.
Uma coisa feia foi a Suíça, que em nome da neutralidade por vários meses impediu que países vendessem munição para os Gepards ucranianos. Uma cláusula das Leis de Neutralidade da Suíça impede a venda de armamentos para países em guerra. Sim, eles pagam de isentões na paz, vendem arma até não poder mais, mas se o cliente entra numa guerra, aí são da paz, “se ferra aí”.
Isso foi no começo de 2022. A Alemanha acelerou a produção local de munição de 35mm para o Gepard nas fábricas da Rheinmetall, e no final de 2023 o problema já estava resolvido, hoje a Ucrânia tem munição de sobra para seus Gepards, e mais, agora eles contam com projéteis AHEAD, esse brinquedo aqui:

Foto detalhada em alllta resolução de um projétil AHEAD (Crédito: Swadim / Wikimedia Commons)
O conceito é muito interessante: Ao invés de uma ogiva explosiva única, o projétil carrega 162 sub munições de tungstênio e uma carga explosiva que transforma tudo em um cone expansivo de projéteis, estraçalhando tudo em seu caminho. Só que esse nem é a cereja do bolo.
Os projéteis não carregam sensores de proximidade, algo que ficaria caro e não funcionariam com alvos pequenos como drones. No caso, os radares passam as informações de localização e distância do alvo para um computador, que calcula o tempo que o projétil levará para chegar até ele. Esse tempo é então enviado para um transmissor na ponta do cano do canhão. Durante os mili-pentelhonésimos de segundo que o projétil leva para passar pelo transmissor, um sinal é enviado e o projétil é programado para explodir assim que o tempo determinado tiver passado.
Cada projétil é único, programado levando em conta a direção e velocidade do alvo.
Os ucranianos se tornaram tão bons que eles conseguem derrubar drones com rajadas de 5 projéteis, algo totalmente impensável na Segunda Guerra Mundial. Uma bateria antiaérea alemã de 37mm disparava em média 12000 tiros por avião abatido.
O Gepard se mostrou um caso raro de um equipamento obsoleto, ressuscitado por uma demanda criada por equipamentos bem mais modernos e sofisticados. Fica a lição: Só porque algo é velho, não quer dizer que não tenha utilidade. O Gepard saiu da aposentadoria para fazer aquilo que esperou uma vida para fazer: abater hardware russo.