Dori Prata 1 ano e meio atrás
De acordo com o dicionário Michaellis, cult “diz-se de pessoa, objeto, movimento, obra de arte, etc. cultuado ou venerado nos meios artísticos ou intelectuais.” Sendo assim, qualquer autor que visse sua obra sendo classificada desta maneira deveria se orgulhar, certo? Pois no caso de Tim Cain, a verdade é que as contas precisam ser pagas e por isso algumas de suas criações, como o Vampire: The Masquerade - Bloodlines, não tiveram continuações.
Dono de um currículo impressionante, recheado de sucessos, em 1998 Cain fundou, ao lado de Jason Anderson e Leonard Boyarsky, a Troika Games. A iniciativa nasceu após divergências do trio com a Interplay, empresa em que desenvolveram o primeiro Fallout e haviam entregue a proposta de design para sua continuação.
Curiosamente, o estúdio sempre esteve ligado ao número três. Da quantidade de fundadores ao próprio nome, cuja palavra em russo significa tríade, eles produziram e lançaram apenas três jogos: Arcanum: of Steamworks and Magick Obscura, The Temple of Elemental Evil e Vampire: The Masquerade – Bloodlines, todos para computadores e até que fechassem as portas, em fevereiro de 2005.
Com os três jogos tendo recebido boas avaliações tanto da mídia quanto do público, era de se imaginar que poderiam receber continuações, talvez até com a Troika Games permanecendo na ativa até hoje, mas não foi o que aconteceu. E segundo Tim Cain, a explicação para isso é simples: as pessoas precisam comprar os jogos que dizem gostar.
“As pessoas sempre me dizem: ‘por que você não faz outro jogo como o Bloodlines,’ ou ‘por que você não faz uma continuação para o Arcanum?’” declarou. “Elas falam: ‘você fez um clássico cult.’ E eu digo: ‘o problema está na parte cult.’ Eles não vendem bem o suficiente para uma editora dizer: ‘Ah, sim, nós definitivamente temos que pular em uma continuação para isso.’ Então, é estranho ouvir as pessoas me dizerem, em alguns casos, décadas depois: ‘você deveria ter deito outro.’ É como: ‘você deveria ter comprado aquilo’,” concluiu.
O desabafo de Cain se torna ainda mais marcante quando olhamos para o desempenho dos títulos que ajudou a criar naquele estúdio. Dos três, o Vampire: The Masquerade - Bloodlines costuma ser o mais lembrado e ainda assim, foi o jogo do trio com o pior número de vendas na época de seu lançamento, com menos de 100 mil cópias. E sem conseguirem fechar um acordo com uma nova editora (cada jogo foi publicado por uma diferente), eles não tiveram outra opção que não fosse encerrar as atividades da Troika Games.
“Eu odeio colocar as coisas de forma tão mecânica, mas às vezes os jogadores precisam suportar financeiramente suas declarações e opiniões,” justificou o game designer. “Se eles não gostam de um jogo, eles não deveriam comprá-lo. Se eles o adoram, deveriam comprá-lo e então teriam mais do que querem.”
Ainda na opinião de Tim Cain, “a única maneira de ter mais do que você quer, é comprar coisas que queira e não comprar o que não quer.” Ele disse acreditar nisso, porque “se um jogo sai e vende um milhão de cópias, ele provavelmente terá uma continuação. Se um jogo sai e vende 50 mil cópias, ele não terá uma continuação.”
Essa linha de raciocínio pode parecer um tanto óbvia e costuma ser utilizada por muita gente nos comentários de sites ou em redes sociais. No entanto, não é sempre que a vemos ser defendida por pessoas da indústria, que muitas vezes temem tocar no assunto de por que um jogo tão adorado foi deixado para trás.
Hoje o mercado está muito diferente de quando o Vampire: The Masquerade - Bloodlines surgiu, com a distribuição digital tendo se tornado o padrão e as desenvolvedoras contando com alternativas às editoras, como o financiamento coletivo. Por isso, talvez aquele estúdio teria mais sorte, mas concordo com o game designer quando ele joga para o nosso lado uma parcela da responsabilidade por não termos continuações de títulos legais.
Com a indústria apostando cada vez mais na segurança financeira, uma das reclamações de parte do público recai justamente na falta de propriedades intelectuais novas e inovadoras. Sendo assim, por que uma editora não bancaria um novo capítulo para uma franquia bem sucedida? Por que eles optariam por fechar os olhos para algo que vendeu muito?
Por mais que alguns títulos tenham conquistado admiração das pessoas com o passar dos anos e quem os experimentou adore defender o quanto são bons, a verdade é que se as vendas não acompanham essa empolgação, nenhuma companhia investirá pesado para agradar um nicho.
Para um autor como Tim Cain e tantos outros que viram suas obras serem reverenciadas como clássicos cult, não tenho dúvida de que exista uma satisfação. No entanto, jogos, livros, álbuns ou filmes assim normalmente só ganham essa classificação muito tempo após seus lançamentos, o que consequentemente significa que as vendas não foram boas.
Felizmente, quando se trata da Troika Games, ainda temos a oportunidade de garantir nossas cópias dos títulos que o estúdio produziu. Hoje, o Arcanum: of Steamworks and Magick Obscura e o Vampire: The Masquerade - Bloodlines podem ser adquiridos tanto no Steam quanto no GOG — onde fazem parte do projeto de preservação do serviço. Já o The Temple of Elemental Evil só está disponível na loja da CD Projekt Red.
PS: em 2019 a Paradox Interactive anunciou o Vampire: The Masquerade – Bloodlines 2, projeto que estava sob os cuidados da Hardsuit Labs, mas que em 2021 foi substituída pela The Chinese Room. Se tudo der certo, o jogo deverá ser lançado ainda na primeira metade de 2025.