Ronaldo Gogoni 1 ano e meio atrás
O fim de 2024 veio apinhado de games free-to-play (F2P), para todos os gostos, onde Marvel Rivals é um dos que chama mais a atenção do público. O hero shooter PvP da NetEase Games (Diablo Immortal) chegou para concorrer com os já estabelecidos Apex Legends, Valorant, e principalmente Overwatch 2, ainda que todos bebam da fonte de Team Fortress 2.
O novo game tem a vantagem óbvia de contar com um enorme plantel de personagens da Marvel, entre heróis, anti-heróis e vilões, e traz uma série de mecânicas novas, mas Marvel Rivals não só é um pouco mais complicado do que precisava ser, como repete algumas falhas presentes nos games adversários. E claro, ele foca tanto em ser um "novo Overwatch" que ficou parecido demais com o título da Blizzard, mais do que o aceitável.
Marvel Rivals é um hero shooter direto ao ponto, com vários elementos familiares. O plantel de personagens disponíveis se dividem em três categorias, sendo os Vanguardas, com maior HP e feitos para aguentarem a maior carga de dano e defender os aliados, os Duelistas, os causadores de dano pesado, e os Especialistas, que conferem bônus de status e cura ao time, e podem causar efeitos negativos nos adversários. Resumindo, os bons e velhos Tanques, DPS, e Suportes, respectivamente.
A estrutura dos combates é similar aos dos demais hero shooters, os times possuem 6 combatentes com escolha livre, mas o game sugere que certos papéis sejam escolhidos para aumentar a efetividade. Um ponto estratégico adicional, alguns heróis possuem habilidades que podem ser ativadas quando pareados com outros específicos, os chamados Team Ups.

Dois times de 6 contra 6, e poderes para todo lado (Crédito: Divulgação/NetEase Games/Marvel Games/Disney)
Por exemplo, Rocket Racoon fornece munição infinita para Soldado Invernal e Justiceiro, Thor amplia as habilidades de Tempestade e Capitão América, o Hulk fortalece técnicas específicas do Homem de Ferro e do Doutor Estranho (é bem estranho ver o gigante esmeralda bancando o Godzilla, mas enfim...), além de ter um Team Up exclusivo com Wolverine, o clássico Arremesso Especial, já que o Colossus não está presente (por enquanto).
Falando em heróis, a NetEase reuniu uma seleção bem recheada de personagens, entre os que não poderiam ficar de fora graças à popularidade de suas versões do MCU e outras obras populares, como a Trilogia do Aranhaverso, e adições curiosas, como Manto e Adaga, que funcionam como uma única unidade (você reveza entre os dois durante o combate); há também o adorável (e mortal, quando bem usado) Jeff, o Tubarão Terrestre, a Garota Esquilo, e o atual Punho de Ferro das HQs, já que Marvel e Disney enterraram a trope do Mighty Whitey (e Danny Rand, por tabela), que não é bem vista hoje em dia.
A personagem mais nova do elenco é a estrategista Luna Snow, criada em 2018 para o game F2P Marvel Future Fight, e posteriormente integrada às HQs; ela é uma estrela do K-Pop com poderes de manipulação de gelo, que pode curar e causar dano.
Vale mencionar outro ponto curioso do game, os heróis possuem bem mais habilidades do que os personagens de outros games. Se olharmos para Overwatch 2, por exemplo, cada personagem possui um papel fixo e um conjunto de técnicas que reforçam sua função principal. Reinhardt é o rompe-defesas, Mei congela inimigos, Tracer corre para todo lado, Sombra bloqueia habilidades, D.Va explode todo mundo, e por aí vai.
Em Marvel Rivals, um herói pode ter um set de técnicas complementares, que funcionam bem para ele, ou para o time. O Homem-Aranha, por exemplo, possui uma técnica que reduz os status de inimigos, que passam a levar mais dano de uma habilidade específica do amigão da vizinhança, logo, o jogador deve sempre ficar de olho no tempo de recuperação de suas habilidades, para conectar seus combos.
De certa forma, a NetEase importou o modo de jogo de habilidades de MMOs e MOBAs para um hero shooter, que deixou o game um pouco mais complexo do que deveria ser.

Usar habilidades no momento certo demanda estratégia (Crédito: Divulgação/NetEase Games/Marvel Games/Disney)
Nestas primeiras semanas, Marvel Rivals pode ser definido pela mesma palavra cabível a todos os hero shooters quando recém-lançados: caos. As batalhas são frenéticas, jogadores descobrem meios de usar técnicas e combos que avassalam times inteiros, e prejudicam o equilíbrio das partidas, o que leva os desenvolvedores ao ciclo constante de atualizações e ajustes, que em todo bom jogo do tipo, são constantes e permanentes.
Os desenvolvedores da NetEase Games claramente criaram Marvel Rivals sob demanda dos executivos da companhia E da Marvel/Disney, com objetivos a serem cumpridos e aspectos de Overwatch 2 e outros hero shooters a serem replicados.
Sabe a cena da reunião de marketing de Matrix Resurrections? Como dissemos na resenha, é assim que filmes e games voltados a atingir um grande público são feitos: com tabelas e gráficos, mapas e pesquisas de opinião, executivos determinando o que querem, e o que acham que os espectadores e gamers querem.
Ao jogar um pouco de Marvel Rivals, fica clara a intenção do estúdio de criar um novo hero shooter, usando os famosos personagens da Casa das Ideias, para bater de frente com o suposto domínio de Overwatch 2 no gênero. O problema, a NetEase se preocupou mais em assinalar todas as caixinhas da planilha, ao invés de focar em trazer novidades à fórmula.
Sem dourar a pílula, o game é derivativo até demais. Ele não possui diferenças em mecânicas suficientes para causar aquela sensação de estranhamento quando pegamos um novo título, por exemplo, quando Apex Legends saiu. O estúdio se preocupou tanto em superar Overwatch 2, que acabou fazendo de Marvel Rivals um game quase igual, nas qualidades e defeitos, mas que usa uma skin da Marvel.
Não que isso preocupe os jogadores: o game em si é divertido a beça, ainda que bastante desequilibrado, como todos os hero shooters são no lançamento; o jogo tem um visual marcante e único, graças à Unreal Engine 5, e todos os personagens são suficientemente originais quando comparados às versões das HQs, animações, e filmes.
Ao mesmo tempo, há as clássicas interações de games F2P, como o Passe de Batalha (a diferença, você tem todo o tempo do mundo para completar o tier pago), a lojinha para a venda de skins (muitas delas do MCU, claro), as moedas premium que podem ser compradas com dinheiro real... outro ponto em que Marvel Rivals é muito similar a Overwatch 2, aliás.
Marvel Rivals pode ser mais um derivado do que um concorrente, mas isso não vai tirar o sono da NetEase, nem da Marvel/Disney: o game atingiu a marca de 450 mil jogadores simultâneos apenas no Steam tão logo foi lançado oficialmente, e alcançou um pico de 480 mil no último domingo (8). É bem provável que os números no PS5 e Xbox Series X|S sejam similares, se não maiores.
Mesmo assim, a desenvolvera deve agora focar nas forças originais do game, para torná-lo suficientemente diferente e interessante, de modo a andar com as próprias pernas; uma boa opção seria polir melhor as habilidades dos heróis, para deixar o game menos complexo, até para se tornar verdadeiramente competitivo; sim, ele já nasceu com a intenção de ser mais um eSport, como era de se esperar.
O tempo dirá se Marvel Rivals vai manter os jogadores que conquistou em suas primeiras semanas, ou se o gás da novidade vai se esvair com o tempo; no momento, ele é uma boa opção para quem está procurando uma bagunça generalizada de personagens superpoderosos se digladiando, e relaxar neste fim de ano.
Pontos fortes:
Pontos fracos: