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UE: taxa sobre carros elétricos chineses não é consenso

Alemanha e Hungria se opõem à nova taxa da UE sobre carros elétricos produzidos na China, que também afetará as montadoras locais

20/06/2024 às 9:03

Fato: protecionismo é bom para governos, e todos eles gostam. Após Estados Unidos e China levarem sua guerra comercial também ao mercado de carros elétricos, com uma nação impondo taxas nos produtos do outro, a União Europeia (UE) resolveu entrar também na confusão, anunciando impostos adicionais a EVs fabricados no País do Meio.

Só que as novas tarifas não são uma unanimidade no bloco. Montadoras e associações da Alemanha e da Suécia, e o governo da Hungria, onde a BYD deve se instalar em breve, criticam a proposta, dizendo que o novo imposto só estimula mais estranhamento entre a UE e China... entre outros motivos.

Carros chineses, como BYD King da foto, terão uma taxa adicional que pode chegar a até 38% na UE (Crédito: Divulgação/BYD)

Carros chineses, como BYD King da foto, terão uma taxa adicional que pode chegar a até 38% na UE (Crédito: Divulgação/BYD)

UE contra EVs da China

Em março de 2024, nós noticiamos que a Tesla Motors estava tendo dificuldades para vender seus veículos na China, graças a uma campanha do governo de Pequim em defesa do "consumo patriótico", ou seja, estimular a população a adquirir produtos nacionais, ao invés dos estrangeiros.

A iniciativa de Pequim tem dado resultados: a Tesla, que perdeu o direito a um subsídio de 15%, teve uma queda na saída de EVs na China de 16% em fevereiro de 2024, quando comparada ao período de 2023, no que os consumidores estão sendo direcionados a comprarem carros elétricos de montadoras como a privada BYD, que está em franco crescimento, e a estatal SAIC Motor.

A Apple, que investiu muita grana para se instalar no país, também vê seus iPhones vendendo cada vez menos, em prol de modelos Android de companhias como a Huawei, que têm costas quentes do governo do premiê Xi Jinping, inclusive com membros do Partido Comunista da China impondo o uso de seus produtos a prestadores de serviço estatais, como professores.

Não muito tempo depois, os EUA anunciaram uma taxação de 100% sobre carros elétricos chineses, tudo para desestimular a venda de tais produtos em seu território. Pequim, obviamente, ficou fula nas calças, assim como o bilionário Elon Musk, que se posicionou contra a medida, principalmente pela Tesla ser mais dependente do governo do que o executivo admite.

Pois na última semana, a UE anunciou que também pretende taxar EVs da China, mas de uma forma "um pouco" mais comportada: a proposta apresentada pela Comissão Europeia, o braço executivo do bloco, prevê a imposição de tarifas que variam entre 17,4% e 38,1%, dependendo de cada situação, sobre a já existente taxa de importação, que é de 10%.

O objetivo, segundo a Comissão, é o mesmo apresentado pelo governo de Joe Biden: encarecer os carros elétricos produzidos no País do Meio, de modo a tornar os montados em solo europeu mais atraentes ao consumidor, privilegiando assim as companhias locais, mais uma vez. O movimento é uma resposta ao que a UE chama de "subsídios excessivos" que a China concede a companhias locais, com o intuito de prejudicar a concorrência externa.

Claro que a China, de novo, não gostou nem um pouco da proposta da UE, e exige que o bloco volte atrás com seus planos, em defesa de uma "cooperação mútua" entre ambas as partes. Porém, a medida não é bem vista mesmo internamente, com partes interessadas se manifestando contra a medida.

Tesla deve aumentar preço do Model 3 na Europa, se as novas taxas forem aprovadas (Crédito: Divulgação/Tesla Motors)

Tesla deve aumentar preço do Model 3 na Europa, se as novas taxas forem aprovadas (Crédito: Divulgação/Tesla Motors)

Tesla e VW não escaparam

Em entrevista ao site CGTN, Simon Schutz, presidente da Associação da Indústria Automotiva da Alemanha (VDA), disse que novas tarifas "não são a melhor maneira" para resolver o conflito entre UE e China, e tudo o que elas fazem é "estimular uma nova guerra comercial, onde todos perdem".

O que acontece na realidade, é que embora a proposta europeia vise uma taxação ligeiramente menor do que os EUA impuseram aos EVs chineses, a abrangência é maior, afetando TODOS os veículos fabricados em território chinês, independente da montadora, seja norte-americana, como a Tesla Motors, ou locais, como as gigantes Volkswagen e BMW, ambas... alemãs. A romena Dacia, fabricante de boas notícias, também entra na roda.

Resumindo a história, se uma montadora, qualquer uma, possui uma linha de montagem na China, e importa os veículos lá manufaturados para serem vendidos nos 27 países-membros da UE, estes também serão taxados. A Tesla inclusive já anunciou que, caso a proposta seja aprovada, irá reajustar o preço do Model 3, hoje um dos carros mais vendidos na Europa, no que ele passará a recolher adicionais 21% de impostos, que o consumidor vai pagar.

Quem também não gostou da proposta foi a Hungria. O país, liderado pelo primeiro-ministro de extrema-direita Viktor Orbán, mantém fortes laços com a China, no que só em 2023, ele sozinho captou 44% (cuidado, PDF) de todo o capital direto investido por Pequim no continente europeu, mais do que Reino Unido, França e Alemanha, combinados.

O governo húngaro está investindo para que a BYD instale uma linha de montagem em seu território, o que reduziria os custos de produção e fortaleceria o país frente aos vizinhos. A iniciativa não se reverteria em taxas adicionais sobre os carros lá montados, por serem produzidos dentro da UE, mas ainda assim, Orbán considera o novo imposto "inaceitável", e "uma punição brutal" às companhias chinesas. Se as novas regras passarem, os importados da BYD pagarão a taxa mais baixa, de 17,4%, e não é desejo do premiê que sua parceira seja prejudicada.

A Hungria também está investindo US$ 1 bilhão dos cofres públicos, na construção de fábricas de baterias para EVs, das companhias chinesas CATL e Huayou Cobalt, para estabelecer uma rede ancilar completa.

Viktor Orbán e Wang Chuanfu, CEO da BYD, durante visita do 1.º ministro da Hungria à linha de montagem da empresa em Shenzen, China, em outubro de 2023 (Crédito: Zoltán Fischer/Press Office of the Prime Minister/MTI)

Viktor Orbán e Wang Chuanfu, CEO da BYD, durante visita do 1.º ministro da Hungria à linha de montagem da empresa em Shenzen, China, em outubro de 2023 (Crédito: Zoltán Fischer/Press Office of the Prime Minister/MTI)

A Comissão Europeia diz que, caso negociações com o governo chinês, de modo a reduzir os privilégios de suas empresas em seu território e fomentar a competição, não deem em nada, as novas tarifas entrarão em vigor em todo o território da UE, em 4 de julho de 2024, e os consumidores terão que gastar alguns euros a mais para comprar EVs montados na China, ou aderir aos produzidos localmente.

Fonte: The Next Web

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