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Conheça contrato de US$ 275 bilhões entre Tim Cook e China

Acordo bilionário entre Tim Cook e autoridades chinesas deu à Apple diversas vantagens, que lhe permitiram liderar o mercado mobile local

35 semanas atrás

Em 2016, o CEO da Apple Tim Cook assinou um contrato com as autoridades da China, no valor de US$ 275 bilhões, de modo a aplacar os ânimos dos reguladores locais e permitir que a companhia crescesse no país, em troca de uma série de medidas que foram implementadas, de investimentos a tratamento de dados dos seus usuários.

A denúncia, publicada pelo site The Information, se baseia em entrevistas e documentos internos da companhia, que recentemente assumiu a liderança do mercado chinês de smartphones, pela primeira vez em 6 anos.

Acordo bilionário com Pequim se reverteu em uma série de vantagens e concessões à Apple, que nenhuma outra empresa estrangeira instalada na China tem (Crédito: Reuters/Nikkei Asia)

Acordo bilionário com Pequim se reverteu em uma série de vantagens e concessões à Apple, que nenhuma outra empresa estrangeira instalada na China tem (Crédito: Reuters/Nikkei Asia)

Segundo a matéria, Cook teria formulado o acordo para encerrar uma série de ações regulatórias contra a Apple, visto que na época, o governo chinês estava apertando o cerco contra big techs instaladas no país, em prol de proteger as suas próprias. O fato de que hoje o premiê Xi Jinping esteja batendo na prata da casa é um mero detalhe.

A empresa havia sido forçada a fechar o iBooks e o iTunes Movies, e o Apple Pay nunca pegou tração por lá por concorrer diretamente com o AliPay, este ligado ao sistema de crédito social da China. A Apple também havia perdido processos movidos contra empresas chinesas que usavam os nomes de seus produtos.

Como se não bastasse, a receita local havia despencado 26% naquele ano, se refletindo em uma depreciação do valor de mercado da Apple em 10%. A coisa estava tão feia que Doug Kass, chefe do Hedge Fund, e outros acionistas, investidores e especialistas, pediram a cabeça de Tim Cook.

A Apple detém a ambição de ser a maior companhia de tecnologia do planeta, e isso não é possível sem contar com o mercado consumidor da China, que só perde para o dos Estados Unidos. Assim, Cook realizou ainda em 2016 uma visita ao país e se reuniu com diversos membros de alto escalão do governo, bem como oficiais do setor de propaganda estatal e figurões do Partido Comunista da China, de modo a "dar uma aliviada" na pressão imposta à maçã.

Cook não é bobo, e sabe que se há uma coisa que comunistas gostam mais do que tomar os meios de produção, é dinheiro, Fidel que o diga. Como a Apple já tinha muita grana em caixa (em 2016, o valor da empresa foi de US$ 539 bilhões em janeiro a US$ 600 bilhões em dezembro) e projetava se tornar a primeira companhia trilionária da história, marca que alcançou em 2018, o executivo-chefe propôs um acordo de mão dupla, que concederia vantagens a todos os envolvidos.

2019: Tim Cook se encontra com Sun Chunlan, 2ª vice premiê da China (Crédito: Xinhua News Agency)

2019: Tim Cook se encontra com Sun Chunlan, 2ª vice premiê da China (Crédito: Xinhua News Agency)

Documentos conseguidos pelo The Information mostram que Cook redigiu uma carta de 1.250 palavras, endereçada à Comissão de Desenvolvimento Nacional e Reforma da República Popular da China, o órgão econômico central do país, em que a Apple concordou em fazer uma série de concessões, de modo a se alinhar com os interesses das autoridades chinesas.

Entre elas, Cook garantiu que a Apple passaria a usar mais componentes locais em seus produtos, fechar acordos com empresas de software chinesas, investir diretamente em companhias de tecnologia, abrir novas Apple Stores, fazer parcerias com universidades para a construção de centros de P&D e financiar projetos de energia renovável, treinar os "técnicos mais talentosos" da China (como isso seria determinado, não se sabe), e trabalhar em conjunto com o governo em assuntos específicos, provavelmente envolvendo coleta e armazenamento de dados.

A Apple também se mostrou disposta a injetar ainda mais dinheiro na China, se comprometendo a investir US$ 275 bilhões dentro de um período de 5 ou 10 anos (as fontes divergem). Em troca, o governo chinês concederia certos benefícios e facilidades à maçã, que lhe permitiriam crescer no país e consequentemente, assegurar a liderança no mercado local de tecnologia.

A parceria com o governo da China deu à Apple uma liberdade que nenhuma outra companhia estrangeira instalada no país possui, o que caracteriza um cenário de concorrência desleal sancionada. Por exemplo, Pequim permite que a empresa mantenha o controle das chaves do iCloud dos usuários chineses, garantindo a inviolabilidade dos dados de seus consumidores. Para todas as outras companhias, chinesas ou não, o Partido impõe a regra de que deve ter acesso a tudo.

Ainda que a Apple tenha conseguido o que queria gastando muito dinheiro, dadas as atuais tensões do Partido Comunista com as gigantes tech locais, onde a quantidade de grana que reverteram ao país não evitou uma imposição forçada de realinhamento ao pensamento coletivo, é fato que Tim Cook se revelou um negociador assustador, com excelentes capacidades de persuasão.

De fato, especialistas apontam que caso Cook deixe a Apple um dia, a companhia terá sérios problemas para fechar acordos com potências internacionais no futuro. Outro do tipo com a China, então, seria quase impossível de se repetir.

Apple Store em Changsha, na província de Hunan, inaugurada em setembro de 2021 (Crédito: Divulgação/Apple)

Apple Store em Changsha, na província de Hunan, inaugurada em setembro de 2021 (Crédito: Divulgação/Apple)

Procurada pela agência Reuters, a Apple não comentou o assunto.

Fonte: The Information, Reuters, Ars Technica

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