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Early Access Games: benção ou maldição?

O Early Access surgiu como uma ótima opção para os estúdios, mas nem sempre ele foi bem utilizado e isso gerou uma onda de frustração — e fracassos

26/12/2022 às 12:36

Imagine ter acesso a um jogo antes mesmo dele ser finalizado, podendo ajudar a lapidar o projeto enquanto ele está sendo desenvolvido. Parece um ótimo cenário, certo? Pois foi para isso que o Steam lançou o programa Acesso Antecipado (ou Early Access), mas o resultado não foi exatamente o que esperávamos.

Early Access

Crédito: Reprodução/vectorjuice/Freepik

Embora a onda de financiamento coletivo já fornecesse algo parecido aos consumidores, com aqueles que contribuíssem muitas vezes tendo direito a jogar versões alfas ou betas dos jogos, foi em 2011 que uma loja decidiu apostar no Early Access. Popular pela distribuição de títulos independentes, naquele ano a Desura criou uma iniciativa chamada Alphafunding, algo que seria copiado pela loja da Valve só em março de 2013.

Funcionando como um incentivo do Steam aos estúdios independentes, uma maneira de aproximar estúdios e jogadores, a ideia era, pelo menos na teoria, garantir que o melhor jogo possível fosse lançado.

Porém, conforme os anos foram passando e cada vez mais empresas aderiam ao programa, mais confuso ele se tornava. Veja, por exemplo, o que diz a página de documentação do Steamwroks em relação a o que o Early Access não é:

“Não use o acesso antecipado apenas para financiar o desenvolvimento. Se estiver esperando a venda de uma quantidade específica de unidades para concluir o jogo, então pense bem o que ocorrerá com você ou com a sua equipe se essa meta não for alcançada. Você continuará a desenvolver o jogo, mesmo com poucas vendas? Está disposto a buscar outras formas de investimento?”

Mesmo assim, o que mais vimos foi empresas se escorando nessas vendas para garantir mais um dia de trabalho, com os projetos se estendendo por vários anos e parte daqueles que investiram nas suas criações conhecendo o amargo sabor da decepção. Em alguns casos havia a clara sensação de que estávamos sendo enganados, enquanto outros parecem que nunca sairão deste limbo conhecido como Acesso Antecipado.

Project Zomboid (Crédito: Divulgação/The Indie Stone)

Entre os mais antigos a se encontrarem nesta zona cinzenta do desenvolvimento, podemos citar o 7 Days to Die e o Project Zomboid. Curiosamente, ambos estrearam no Steam em 2013 e tratam de um apocalipse zumbi. Outro ainda mais antigo é o Paranormal, que há alguns meses completou uma década exibindo o aviso de que se trata de algo disponível de maneira incompleta.

Por falar nisso, entre as reclamações mais frequentes por parte daqueles que apostam em um título vendido antecipadamente estão a falta de atualizações e jogos vendidos com uma quantidade muito pequena de conteúdo. A segunda situação eu até acho compreensível, afinal se trata de algo em desenvolvimento. Quanto a um estúdio não atualizar o projeto, fica difícil não concordar com aqueles que sentem que o dinheiro foi malgasto.

O que dizer então dos jogos que simplesmente tiveram suas produções canceladas, desaparecendo da loja antes de saírem do Early Access? Daqueles que tive a oportunidade de jogar, um que me parecia muito interessante e teve esse destino foi o Under the Ocean. Funcionando como um jogo de sobrevivência com visão lateral, nele éramos um náufrago que precisava se virar numa ilha abandonada.

Mas se o jogo era bom, por que ele não foi terminado? Você pode estar se perguntando. Bom, segundo o seu idealizador, Paul Hart, em fevereiro de 2015 o programador Michael Reitzenstein pediu demissão e sem dinheiro para tocar o projeto, ele não teve outra opção que não fosse cancelá-lo. Lembra do conselho dado pela Valve? Pois é...

Para piorar, o Steam adotou uma política de não reembolsar títulos que tenham sido cancelado, inclusive mantendo uma página em que tenta esclarecer o que estamos levando ao adquirir um jogo nesse estado. Obviamente nada disso ameniza a frustração ao sabermos que o desenvolvimento de algo que nos agradava foi descontinuado.

Mas não pense que esse é um problema exclusivo de pequenos estúdios. A Square Enix foi uma que recorreu ao Early Access para moldar um novo capítulo da franquia Legacy of Kain e falhou miseravelmente. Após apenas um ano no ar, Nosgoth não conseguiu atrair a atenção de um público que a editora considerasse suficiente e a saída foi interromper o projeto que vinha sendo desenvolvido pela Psyonix.

Situação talvez até pior foi a que envolveu o ARK: Survival Evolved. Mesmo com o jogo ainda se encontrando como em Acesso Antecipado, em 2016 o Studio Wildcard teve a ousadia de anunciar uma expansão para o título, com o detalhe de que ela seria paga. Oras, se a ideia de um jogo disponibilizado de maneira inacabada é justamente adicionar conteúdo com atualizações, qual o sentido de vender um DLC que faria justamente isso?

ARK: Survival Evolved (Crédito: Divulgação/Studio Wildcard)

Esses casos — e acredite, são apenas uma fração do cenário total — ajudaram a jogar uma enorme sombra na ideia do Early Access. Contudo, foi graças a ele que muitos ótimos jogos puderam surgir e até estúdios ganharem uma visibilidade que de outra forma talvez nunca fosse alcançada.

Títulos como Dead Cells, Valheim, Darkest Dungeon, Satisfactory, Kerbal Space Program e Subnautica estão entre aqueles que passaram pelo programa e souberam se beneficiar da visibilidade oferecida. Isso fez com que mais pessoas aderissem a eles, o que levou mais dinheiros aos respectivos desenvolvedores e um círculo virtuoso se formasse.

Conseguir apontar qual estúdio mais se beneficiou da venda antecipada seria muito difícil, mas o caso da Larian Studios é um que certamente merece ser olhado com carinho. Fundada em 1996, essa desenvolvedora belga por muitos anos se dedicou a produzir RPGs que alcançavam apenas um certo nicho, o que só mudaria em 2014 com o lançamento do Divinity: Original Sin.

Após passar por uma extremamente bem-sucedida campanha no Kickstarter, o jogo chegou ao Steam como em Acesso Antecipado e boa parte do seu sucesso pode ser creditado a isso, com a comunidade tendo participado ativamente do seu desenvolvimento. Com o título tendo caído nas graças do público, uma continuação seguiria pelo mesmo caminho e a competência do estúdio ainda seria premiada com uma oferta para produzirem o tão aguardado Baldur's Gate 3. E sim, no momento ele se encontra disponível como um Early Access.

Early Access

Crédito: Reprodução/storyset/Freepik

Portanto, um jogo estar disponível antecipadamente não pode ser o suficiente para cravar que ele terá sucesso ou não. Essa é uma forma das empresas testarem suas criações com um público maior e por mais que a Valve não recomende, até garantir uns trocados a mais para o desenvolvimento. No fim das contas, tirando uma possível mancha na imagem, elas têm muito mais a ganhar do que a perder aderindo ao programa.

Já do lado de cá deste balcão, o ideal é termos o maior cuidado possível e tentar saber o máximo sobre o estúdio por trás de um jogo que queremos adquirir antes de ter sido acabado. Mesmo parecendo tentador poder jogar algo muito antes de um lançamento final que ainda pode estar a alguns anos de acontecer, é imprescindível termos a noção de que muitos problemas poderão ser encontrados e que o jogo poderá mudar bastante nos próximos meses ou anos.

Particularmente, evito ao máximo comprar jogos que ainda estão em Early Access, justamente para evitar decepções ou ter que lidar com bugs que poderão ser corrigidos com o tempo. Porém, numa época em que boa parte dos arrasa-quarteirões chegam às lojas repletos de problemas e até o hardware que utilizamos precisa ser constantemente melhorado, será que, no fundo, não estamos vivendo num permanente estado de acesso antecipado?

Fonte: PCGamer

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