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Os jogos no Brasil não são (tão) caros

Pagar mais de 30% de um salário em um jogo no Brasil é caro, certo? Sim, mas a verdade é que a situação já foi pior e com paciência podemos contornar isso

22/12/2022 às 10:29

Nos últimos dias vi surgir no Twitter uma discussão que sempre é renovada: o preço alcançado pelos jogos no Brasil se tornou absurdamente alto! Mas será que isso é mesmo verdade? Pois por mais tentador que seja tacarmos todas as pedras na indústria ao falarmos do assunto, a resposta para esta pergunta não é tão simples quanto pode parecer.

Jogos no Brasil

Crédito: Reprodução/Freepik

De antemão, quero deixar claro que ninguém em sã consciência dirá que pagar R$ 300, R$ 350 por um lançamento é um valor baixo, muito menos quero passar a impressão de que estou nadando em dinheiro. Contudo, após conseguir adquirir a edição especial do Horizon Forbidden West por um valor que considero aceitável, me peguei pensando no quanto de culpa temos por pagarmos tão caro em jogos no Brasil. Eu explico.

Lançado em fevereiro deste ano, se passaram apenas dez meses desde que eu pudesse achar a criação da Guerrilla Games por R$ 150, valor que pode não ser tão baixo quanto muitos gostariam, mas que deverá se tornar ainda menor. Isso porque a loja em que o comprei ainda promete um cashback de R$ 40, logo, quando o valor for creditado na minha conta, o jogo terá saído por R$ 110.

Além disso, essa é uma edição que traz uma roupa e uma lança exclusiva para ser usada no jogo, assim como acesso digital à trilha sonora, uma caixa metálica muito bonita e um minilivro com a arte conceitual. Considerando o valor pago por tudo isso, acredito que tenha sido uma pechincha, mesmo se tratando da versão para PS4. Porém, como ela dá direito ao upgrade gratuito para o PlayStation 5, poderei aproveitar o jogo em todo o seu esplendor.

Crédito: Divulgação/Guerrilla Games

Alguém poderá argumentar que mesmo essa quantia é inacessível para boa parte dos brasileiros e isso eu não questiono. Porém, a verdade é que videogame nunca foi barato por aqui e provavelmente nunca será. Olhar para um lançamento atualmente e perceber que ele pode custar cerca de 30% de uma salário-mínimo pode passar a impressão de que nunca foi tão caro comprar jogos no Brasil, mas não é bem assim.

Ao vasculharmos revistas de 1996 podemos ver anúncios de títulos para o primeiro PlayStation sendo vendidos por R$ 79,90. Hoje pode parecer pouco, mas temos que considerar que na época o salário-mínimo era de R$ 112. Mas tudo bem, era o início de uma nova geração, isso podia explicar o alto valor cobrado, mas na mesma loja um lançamento para Mega Drive ou Super Nintendo saia por R$ 104,90!

Já outro anúncio, este de 1999, trazia uma promoção para diversos títulos de Nintendo 64 por apenas R$ 49. Naquele ano o salário-mínimo tinha aumentado um pouco, indo para R$ 136, mas ainda assim os cartuchos davam uma boa mordida na carteira do trabalhador.

Um PS5 ou um Xbox Series X custam caro? Sem dúvida, mas o que dizer então do console que a Nintendo lançava em 1996 e podia ser adquirido pela bagatela de R$ 680 (quase sete vezes um salário!). Ou seja, mesmo se considerarmos que a tal DirectShopping pegava pesado nos valores praticados, é fácil perceber que aumentar a nossa coleção há duas décadas e meia era uma tarefa bem cara. E isso nos leva a outra vantagem que temos atualmente, que é a maior quantidade de lugares para comprar jogos e consoles.

Jogos no Brasil

Parece barato, né? Mas não era (Crédito: Reprodução/O Bom do Videogame)

Com muito mais lojas oferecendo esses produtos, a concorrência permitiu que preços mais acessíveis passassem a ser praticados e de lá para cá ainda tivemos a implementação de um detalhe que ajudou muito a puxar para baixo os valores cobrados mais rapidamente: a distribuição digital.

Eliminando atravessadores, custo de envio e facilitando a procura pelos preços mais baixos, poder comprar um jogo digitalmente fez com os jogos se tornassem muito mais acessíveis no Brasil. Com as lojas virtuais realizando promoções semanalmente em todas as plataformas, é apenas uma questão de tempo até encontrarmos aquele título que tanto queríamos com valores abaixo do praticado no lançamento.

Pois é aí que reside a minha discordância em relação à afirmação de que os valores praticados hoje em dia estão muito altos. Quer dizer, eles de fato estão, mas desde que não tenhamos pressa para adquirir um jogo, é possível nos mantermos abastecidos gastando relativamente pouco, chegando a poder pagar um terço ou até menos num título lançado há alguns meses.

Obviamente, ao optarmos por esperar estaremos participando de uma grande loteria, sem nunca sabermos ao certo quando será possível ter acesso a um desejado jogo por um preço que caiba no nosso orçamento. No entanto, a ansiedade para colocarmos as mãos em tudo o que tem chegado ao mercado é um hábito de consumo que deveríamos corrigir e que pode nos levar a economizar um belo dinheiro.

Crédito: reprodução/stockgiu/Freepik

No caso do Horizon Forbidden West, admito que só não o comprei antes porque ainda queria terminar o seu antecessor e por mais que a promoção que aproveitei possa ser parecer um caso isolado, tenho me deparado cada vez mais com esse tipo de situação. Peguemos como exemplo outro dos grandes lançamentos de 2022, o Elden Ring.  Nos consoles o seu preço normal é de R$ 299,99, mas hoje ele se encontra em promoção por R$ 209,93 na PS Store ou na Xbox Live. Ainda é um valor alto, mas 30% menos que o cobrado originalmente e que certamente ficará menor no futuro.

Com o mesmo desconto também já é possível encontrar a versão digital do Sonic Frontiers para PlayStation 4/5, sendo que o jogo foi lançado no início de novembro. Portanto, bastou esperar pouco mais de um mês para economizarmos quase R$ 100 no novo título do ouriço.

Outro exemplo que aconteceu comigo, foi quando aproveitei para comprar a edição com steelbook do Halo Infinite, pois achei que R$ 79 era um bom valor para tê-lo na minha coleção. Imagine então a minha surpresa (e raiva) ao encontrá-lo recentemente por um preço bem inferior, meros R$ 29!

É claro que esse tipo de situação não acontece com qualquer jogo, dependendo muito da demanda por eles, do sucesso alcançado e da editora responsável. Ainda assim, eventualmente todo jogo poderá ser encontrado por valores bem inferiores aos iniciais, mesmo aqui no Brasil.

Com isso não quero dizer que concorde com os valores praticados pelas empresas nos lançamentos, também ficando frustrado ao me dar conta de que não estou disposto a pagar R$ 350 para jogar algo que esperava há bastante tempo. Porém, sei que com um pouco de paciência poderei pegar tais jogos por preços que não considero tão altos e até lá aproveitarei o enorme backlog que teima em não diminuir.

Crédito: Reprodução/Freepik

Obviamente, é natural sentirmos saudade de quando os jogos custavam muito menos no Brasil, como quando pagávamos cerca de R$ 170 por um lançamento de Xbox 360. O Gear of War 3, por exemplo, chegou por aqui custando R$ 130, mas novamente usando o salário-mínimo como parâmetro, é importante dizer que em 2011 ele era de R$ 545.

O fato é que hoje a nossa moeda está muito desvalorizada em relação há alguns anos, com o dólar tendo escalado valores altíssimos e o nosso poder de compra tendo caído absurdamente. Isso dito, gastar cerca de 30% de um salário em um jogo é absurdo, algo que poucos podem fazer sem sentir o peso em suas contas, mas este é um cenário que infelizmente nunca foi muito melhor — e talvez nunca venha a ser.

Por isso sigo com a opinião de que o melhor é esperar, aproveitar o que já tivermos comprado e ficar de olho nas promoções. Eventualmente nos depararemos com valores que consideremos mais adequados às nossas carteiras e em certos casos, ainda tendo acesso a jogos mais bem acabados.

O problema nessa linha de raciocínio é a Nintendo. Para quem gosta dos jogos produzidos pela empresa japonesa, aí não restam muitas opções que não seja pagar valores muito mais alto do que costumamos ver em outras plataformas, infelizmente.

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