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Maioria dos gamers deixou de comprar jogos a preço cheio

Pesquisa recente revela: gamers mais velhos e "hardcore" deixaram de comprar jogos a preço cheio; diferenças se acentuam entre gerações

06/05/2026 às 15:00

Fato: tudo está ficando cada vez mais caro, seja por crise econômica, IA, tarifas ou escassez, e games não são exceção. Há um temor de que a próxima geração de consoles, componentes de PC, sistemas como a Steam Machine e títulos futuros tenham seus preços elevados a ponto de nosso hobby voltar a ser o que era no início, exclusivo de gamers ricos com dinheiro sobrando.

Enquanto o Bank of America diz que Grand Theft Auto VI custar US$ 80 será bom para a indústria, e Reggie Fils-Aimé defende a política da Nintendo de nunca aplicar descontos nos games que ela desenvolve para seus sistemas, um relatório publicado recentemente revela que a maioria dos jogadores, especialmente os mais velhos, não mais gasta seu rico dinheirinho em títulos a preço cheio.

Detalhe da capa de Wario World (Crédito: Divulgação/Treasure/Nintendo)

Money, so they say... (Crédito: Divulgação/Treasure/Nintendo)

Gamers deixaram de quebrar o cofrinho

O relatório é parte de um esforço conjunto entre o Grupo Kantar de pesquisa de mercado, da Universidade da Califórnia em Berkeley e da IGN Entertainment, dona do site de mesmo nome e outros como Eurogamer, GamesIndustry.biz, VG247 e Rock Paper Shotgun. A pesquisa de opinião, conduzida nos Estados Unidos, Reino Unido e Austrália, teria ouvido "milhares" de "consumidores de conteúdo comprometidos" com seus hobbies, outra maneira de dizer "gamers hardcore".

O motivo para isso é simples: a pesquisa evitou ouvir as opiniões de jogadores casuais e, ao invés disso, concentrou-se naqueles que sabem exatamente o que querem, por uma série de motivos; por exemplo, um perfil que se aplica no estudo é do adulto com vida profissional ativa, que possui apenas algumas horas por semana para dedicar aos games e que por isso, possui parâmetros bem definidos dentro de suas preferências.

A pesquisa de opinião separou os participantes em três grupos geracionais distintos, a Geração Z (nascidos entre 1995 e 2010), os Millennials (entre 1981 e 1994), e a Geração X (entre 1965 e 1980). No geral, cerca de 62% de todos os entrevistados deixaram de comprar games a preço cheio, mas quando olhamos para os grupos etários diferentes, a coisa muda um pouquinho:

Membros da Geração Z são os mais dispostos a ainda desembolsarem mais dinheiro pelos títulos, mas mesmo entre eles, apenas 42% dos ouvidos o fazem; tal porcentagem cai para 38% entre os Millennials, e despenca para 20% entre os da Geração X.

Jason e Lucia, protagonistas de Grand Theft Auto VI (Crédito: Divulgação/Rockstar Games/Take-Two Interactive)

Bank of America acredita que GTA VI custar US$ 80 será bom para a indústria... mas não perguntou o que os gamers acham disso (Crédito: Divulgação/Rockstar Games/Take-Two Interactive)

A pesquisa levantou uma série de dados interessantes, por exemplo:

  • 71% do público ouvido não compra mais música no formato físico;
  • Membros da Geração X preferem realizar pesquisas na internet para descobrir novos games, Millennials preferem o YouTube, e a Geração Z, sem surpresa, prioriza as redes sociais;
  • Jogadores da Geração X preferem jogos single-player, a Geração Z gosta mais de multiplayers, e Millennials ficam divididos entre os dois gêneros;
  • A Geração X e os Millennials voltam com frequência a games que não terminaram ou dominaram, enquanto a Geração Z vive em busca de opções de personalização e conteúdos criados pela comunidade;
  • Sobre guias, a Geração X tem maior interesse em vídeos de dicas, os Millennials por ferramentas de mapa, e a Geração Z por guias de construção;
  • Membros da Geração X, por serem bem mais velhos (46 anos e acima), são avessos ao uso de IA para descoberta e recomendação de games, preferindo confiar no reconhecimento de marcas estabelecidas, e não acreditam que resumos e reviews feitos por algoritmos sejam melhores, ou mesmo estejam no mesmo nível, que os escritos por humanos.

A pesquisa originalmente servia como um banco de dados para refinar relatórios e rastrear gostos do público. Isso posto, sua publicação no aberto é relevante por trazer detalhes dos gostos dos gamers e como eles diferem conforme a geração e faixa etária. Karl Stewart, vice-presidente sênior de marketing global da IGN Entertainment, diz que a Geração X prioriza "aproveitar ao máximo tudo o que for possível", enquanto a Geração Z "vive em um mundo de plataformas onde os games não acabam, e deseja fazer parte de uma comunidade onde possa dizer 'eu sou o mais bem-informado, eu sei tudo sobre esse game'".

Membros da Geração X, que é o meu caso, viram a transição do mundo analógico para o digital e a evolução da indústria dos videogames, de um mercado de nicho a um behemoth que lucra mais que Hollywood. Eles têm maior apego a títulos, desenvolvedoras, franquias e fabricantes de sistemas que os mais jovens, que têm maior interesse pelo que está "na crista da onda", parte do reflexo de uma faixa etária imediatista onde só o que é popular importa.

No entanto, o mais importante aqui é notar que a maior parte do público não mais deseja gastar valores altos por seus games, preferindo ou abraçar títulos AA ou independentes mais baratos, ou aguardar por promoções dos AAA ao invés de quebrar o cofrinho no primeiro dia; dessa forma, discursos recentes em prol do aumento dos preços dos games, como o Bank of America dizer que GTA VI ser precificado em US$ 80 permitirá ao resto da indústria fazer o mesmo, soam ainda pior após ler o relatório.

Mario Kart World (Crédito: Divulgação/Nintendo) / gamers

Reggie Fils-Aimé recentemente defendeu a política da Nintendo anti-descontos de títulos 1st party como Mario Kart World, que chegou custando US$ 80 (Crédito: Divulgação/Nintendo)

A Nintendo também não é muito diferente, principalmente ao abrir a porteira dos games a US$ 80 em 2025 com Mario Kart World, e sua bem conhecida política de nunca conceder descontos aos títulos desenvolvidos internamente. O ex-presidente e COO da Nintendo of America, Reggie Fils-Aimé, explicou que isso provavelmente se deve ao que ele chamou de "padrão de qualidade dos artesãos de Quioto":

"A mentalidade da Nintendo é a seguinte: 'Nós estamos lançando um game completo (...). Pronto para jogar. Não há patch de Dia 1 que vai levar três horas para baixar'.

A companhia é sediada em Quioto. Para aqueles que sabem um pouco sobre a história do Japão, é uma cidade conhecida por seu artesanato: linho, porcelana, cerâmica. Isso é Quioto.

Estou convencido de que a Nintendo como companhia tem a mesma mentalidade: 'Nós vamos desenvolver os melhores games, distribuí-los completos e, como resultado — e é aqui que os consumidores reclamam —, não daremos descontos.'"

Basicamente, a Nintendo acredita que vender seus games com descontos deprecia o valor de suas IPs; a prioridade da companhia é "respeitar o valor das marcas" e, dessa forma, que o jogador pague o preço cheio de um Mario, Zelda, Metroid, Donkey Kong, Pokémon e etc., não importa quantos anos se passem após o lançamento, e quem não concorda que compre usado (piratear não, nem emular).

O grande problema, claro, será convencer os gamers, especialmente os mais velhos, a abrirem a caixa-forte, já que eles estão dando mais valor ao seu dinheiro.

Fonte: GamesIndustry.biz

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