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Mestre dos Mares, Mestre dos Ares

Mestre dos Mares é um excelente filme, com lições de estratégia ainda válidas, 217 anos depois, no mundo dos caças

27/07/2022 às 18:39

Mestre dos Mares é um filme de 2003 que merecia muito mais do que os dois Oscars que levou. É uma história de estratégia e combate naval, no começo do Século XIX, onde uma fragata inglesa enfrenta um navio de corsários franceses bem melhor armado.

Anacronismo? Nah... (Crédito: Editoria de Arte)

Os ingleses levam a melhor graças à inventividade de seu capitão, e os truques que ele usa em 1805 são surpreendentemente atuais, mesmo para 2022.

Tom Clancy diz que guerra é o ambiente mais darwinista que existe, e é verdade. Temos uma corrida armamentista sem-fim, com novas armas levando ao desenvolvimento de novas contra-estratégias, que por sua vez geram armais mais aperfeiçoadas.

E não é de hoje. Paredes de tijolo tornaram flechas incendiárias obsoletas, catapultas tornaram tijolos obsoletos, paredes de pedra anularam as catapultas, e por aí vai.

No combate aéreo inicialmente aviões se enfrentavam na base do revólver, literalmente pilotos atiravam em outros pilotos enquanto pilotavam com uma só mão. Com o advento das metralhadoras embarcadas, novas técnicas surgiram, a maioria criada por Ernst Udet, ás alemão da 1ª Guerra Mundial, com 62 vitórias, que basicamente escreveu o Livro do combate aéreo.

Na 1a Guerra Mundial as primeiras bombas eram lançadas na base do olhômetro. (Crédito: Domínio Público)

Udet, claro, não previu o desenvolvimento de mísseis, que mudaram toda a estratégia do moderno combate aéreo. Algumas vezes, cedo demais. Quando os americanos começaram a usar mísseis, abriram mão dos canhões. O venerável Phantom F4 virava presa fácil quando esgotava seus mísseis, que eram primitivos, falhavam constantemente e os inimigos aprendiam rapidamente como desviar deles.

Inicialmente uma boa estratégia era voar em direção ao Sol, os primeiros mísseis guiados por infravermelho tendiam a travar no Sol, esquecendo alvos mais frios, como motores de MiGs.

Quando isso foi resolvido, os mísseis mais avançados passaram a ser ludibriados com flares, aqueles chamarizes de magnésio e outros materiais, que queimam com extremo calor. Mísseis guiados por radar eram confundidos com chaff, aquelas tiras de papel-alumínio criadas na Segunda Guerra Mundial por Joan Curran para enganar radares nazistas.

Mísseis mais espertos ainda aprenderam a ignorar esses chamarizes, e usar outras técnicas, como por exemplo, Doppler. Se o retorno de radar do chamariz não está acelerando, ele é descartado.

EA-6B Prowler, um avião inteiro voltado para guerra eletrônica. (Crédito: US Navy)

Aviões levam equipamentos de contramedidas eletrônicas, capazes de embaralhar sinais de radar. Os engenheiros em resposta criaram mísseis que quando detectam que estão sendo embaralhados, usam os sinais emitidos pelo caça como guia.

O objetivo é fazer com que o inimigo atire onde ele acha que você está, e não onde você realmente se encontra, e aí uma das mais atuais defesas de caças modernos se encontra com a estratégia do Mestre dos Mares.

No filme o navio inglês está sendo perseguido pela fragata francesa, os dois mantendo a mesma velocidade, mas os canhões franceses têm maior alcance, e estão atingindo perigosamente perto dos ingleses.

O capitão manda construir uma balsa, com uma armação que lembra a lanterna de popa do navio inglês. A lanterna verdadeira é apagada, ao mesmo tempo que a falsa é acesa. É noite fechada, sem lua. A balsa é arrastada por uma corda, algumas dezenas de metros atrás do navio. Os franceses focam seus tiros nela, poupando, sem saber, o navio inimigo.

Essa é EXATAMENTE a mesma estratégia de sistemas de chamarizes rebocados, como o AN/ALE-50 da Raytheon, ou o X-Guard da Rafale.

O conceito é extremamente simples: Se meu equipamento de contramedidas eletrônicas corre o risco de ser usado para guiar um míssil até a mim, que tal se eu movesse o equipamento para longe?

Esses chamarizes são transceptores de rádio extremamente versáteis, mantidos em um casulo sob a asa. Em caso de necessidade os receptores no avião detectam os sinais do radar inimigo, calculam a melhor resposta e comandam o casulo para soltar o transceptor, na ponta de um cabo de fibra óptica. O equipamento estão fica posicionado algumas dezenas de metros atrás do caça, e agüenta manobras de até 9g.

Sistema de chamariz AN/ALE-55 da BAE Systems (Crédito: BAE Systems)

Aí, das duas uma: Se o míssil inimigo for suscetível à interferência, game over, não vai acertar ninguém. Já se ele for esperto e usar a interferência como guia, irá se direcionar para o chamariz, não para o avião.

Os chamarizes mais modernos são reutilizáveis, caso nem o chamariz, nem o caça tenham sido explodidos, o piloto aciona a carretilha e o dispositivo volta pro casulo. A vida média é de 10 anos.

Esse tipo de chamariz é algo que nunca vemos em filmes, mostrando o quanto os roteiristas de Hollywood são fracos em suas pesquisas, já na vida real são usados desde a década de 1990, e já salvaram um monte de vidas, e salvarão mais ainda no futuro, pois o caça F-35 já foi identificado como portador desse tipo de brinquedinho.

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