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Mary Sears, a Rainha do Mar

O mar tem muitos segredos, que podem ser vitais em uma guerra. Mary Sears ajudou a desvendá-los

19/07/2022 às 23:14

Para desespero dos japoneses, o mar estava estranhamente calmo na praia ocidental de Okinawa, no dia 1º de Abril de 1945. Normalmente tomada por grandes ondas, o mar era um tapete nos pouco mais de 8km de praia, agora repletos de barcos de desembarque dos fuzileiros americanos.

Desembarque em Okinawa (Crédito: US Navy)

Nem sempre foi fácil assim. Em 1943, a Batalha de Tarawa foi uma terrível vitória para os Estados Unidos. Os barcos de desembarque tinham um calado mínimo de 1,2m. As previsões de maré para o dia da invasão eram de 1.5m. A realidade encontrada foi não mais que 90cm de água.

Os barcos encalhavam, alguns rasgavam seus fundos nos corais, os fuzileiros tiveram que percorrer a pé uma distância enorme, sob fogo inimigo. No final da batalha os americanos perderam 3100 homens, entre mortos e feridos. Tudo por não conhecerem o mar.

As previsões, descobriram depois, foram feitas com base em cartas de marés e informações náuticas algumas com até 100 anos, além de relatos pouco confiáveis de marinheiros que haviam passado por lá. Negligenciar a Ciência do Mar havia custado caro.

Decididos a mudar isso, os bambambams do Departamento de Defesa descobriram que já tinham os recursos pra isso, mas erram burros demais para usar. O recurso em questão se chamava Mary Sears.

Mary Sears em seu escritório. Definitivamente uma cientista. Nenhuma burocrata sobreviveria nessa zona. (Crédito: Woods Hole Oceanographic Institution)

Nascida em 1905, Mary sempre foi fascinada pelo mar, e depois do mestrado em 1929, concluiu seu Ph.D em 1933, especializando-se em zoologia, mais precisamente em planktonlogia. Seu mentor era Henry Bigelow, e ela acompanhou de perto seus esforços para criar o venerável Instituto Oceanográfico Woods Hole, que décadas depois descobriria o naufrágio do Titanic. Quer dizer, o local do naufrágio, o naufrágio saiu no jornal em 1912.

Dividindo-se entre o Instituto Woodshole e o Museu de Zoologia Comparada de Cambride, Mary foi aumentando seu networking, conhecendo cientistas proeminentes, e desenvolvendo suas pesquisas sobre plankton, mas ela era uma contradição ambulante: Uma cientista marinha proibida de ir ao mar.

Colocando de forma simples, na Década de 1930 mulheres não eram bem-vindas em navios, exceto de passageiros. O Instituto financiava expedições para vários lugares do mundo, Mary era bem-vinda para propor pesquisas, mas tinha que se contentar com cientistas homens para coletar amostras, e depois de alguns meses ela analisaria o que sobrou da viagem.

As justificativas iam de superstição de marinheiros a problemas logísticos, dizendo que não havia banheiro feminino nos navios. Mary foi ficando mais e mais frustrada, até que em 1941 ela recebeu um convite de um ornitólogo que estava com problemas envolvendo titica no Peru, e isso não é um eufemismo.

Uma das montanhas de guano no Peru. É como se o Horário Eleitoral Gratuito se manifestasse em forma física. (Crédito: Reprodução Internet)

Uma das fontes de renda do Peru era guano, nome bonito pra cocô. É um material muito rico em fosfatos, e um excelente fertilizante. Por milhares de anos pássaros comiam os cardumes de anchovas nas costas peruanas, voltavam pra terra e depois de procurar inutilmente por carros recém-lavados, faziam suas necessidades em qualquer lugar.

Aos poucos os montes de caca foram crescendo, e o Peru acabou com verdadeiras montanhas de titica de gaivota, que valia uma fortuna. Exceto que na época de nossa história os pássaros estavam morrendo em grande quantidade. William Vogt achou que pudesse ter a ver com as anchovas, e conhecendo o trabalho de Mary Sears, a chamou para ajudar. Ela prontamente voou para o Peru, onde passou seis meses no mar, estudando a região, as anchovas e tudo mais que pudesse botar as mãos. A expedição usou uma traineira, com tripulação só de homens, e ninguém morreu por causa disso.

Infelizmente um tal de Yamamoto, com um timing péssimo resolveu atacar Pearl Harbor em dezembro de 1941, e quando Sears voltou aos EUA em 42, o mundo estava pegando fogo.

Ela decidiu se alistar no Corpo Auxiliar Feminino da Marinha, mas como já tinha 37 anos e um diagnóstico de artrite, não passou no exame físico. Mary parecia condenada a trabalhar em sua mesa, longe do mar, vendo seus colegas se alistando e servindo seu país.

Até que um tal Tenente Roger Revelle, que na vida civil trabalhava no Instituto Scripps de Oceanografia apareceu no Woodhole pedindo um oceanógrafo emprestado para servir no Escritório Hidrográfico da Marinha. O diretor só podia abrir mão de Mary, que topou, e se alistou de novo, como era exigido.

Mary Sears e outros chefões do Woods Hole, em 1950. (Crédito: Woods Hole Oceanographic Institution)

Exceto que dessa vez rolou um momento Steve Rogers; o Almirante em cargo do Escritório, George Gryan, havia trabalhado com o Instituto Woodshole e conhecia Mary Sears intimamente, no bom sentido. Ele sabia o quanto ela era inteligente e dedicada. Meteu o carimbão, e a liberou dos exames de saúde. Mary agora podia fazer o treinamento básico, ganhar um posto e fazer parte da Marinha.

Mary se graduou em abril de 1943, começando imediatamente a trabalhar no Escritório Hidrográfico, e nem teve tempo de achar os melhores banheiros e fazer amizade com a tia do café, uma batata quente de proporções oceânicas caiu no seu colo.

A Marinha percebeu que estava perdendo muitos pilotos no mar; os aviadores sobreviviam aos Zeros japoneses, mas ninguém conseguia achar, quando os aviões de resgate apareciam. Mary foi incumbida de criar um mapa de correntes e ventos, com fórmulas para identificar a localização de objetos à deriva, levando em conta dezenas de variáveis.

Ela usou muito telefone e muita canela, visitando bibliotecas em vários institutos, consultando experts e desencavando informações enterradas no fundo de relatórios esquecidos no fundo de estantes, mesmo assim em um mês ela apresentou um paper, “A Deriva de Objetos sob a Ação Combinada do Vento e da Corrente”.

Rapidamente a pesquisa foi colocada em prática, e o trabalho de Mary salvou a vida de centenas de pilotos que teriam morrido perdidos no mar, mas se Mary ganhou status de superstar, o Escritório Hidrográfico em si não era visto com muita importância.

Batalha de Tarawa. Tecnicamente, uma vitória para os EUA, yay! (Crédito: US Navy)

Mary Sears e sua equipe também criavam dossiês sobre alvos, analisando marés, ventos, ondas, condições socioeconômicas da região, montando um mapa completo da área, cobrindo 33 tópicos. Infelizmente os bambambams da Marinha não achavam isso tão importante, até a Batalha de Tarawa, em novembro de 1943, que deixou Mary frustrada. Sua equipe estava ocupada preparando relatórios sobre a... Bulgária.

A mudança foi imediata. Agora Mary Sears tinha total prioridade, eles eram consultados em grandes planejamentos, e em questões isoladas, às vezes surgidas no meio de conversas entre Roosevelt e Churchill. Era tudo pra ontem, e Mary foi mais de uma vez acordada no meio da noite para fazer contas e calcular marés e ventos.

Isso, claro, eram os casos top-ultra-secretos, em que só ela podia ter acesso às informações do alvo. Normalmente ela dividia o trabalho entre sua equipe. Mary chegou a liderar, por volta de 1944, 400 pessoas, entre cientistas, oficiais e marinheiros.

Um feito e tanto para uma tenente baixinha, meio coroa e totalmente fora do padrão militar.

Não que isso a impedisse de continuar inovando. Mary queria desvendar os segredos do mar, e uma de suas pesquisas foi fundamental para dar uma vantagem estratégica aos submarinos aliados: O Escritório Hidrográfico da Marinha desenvolveu um batitermógrafo, que já vinha sendo pesquisado no Woodshole.

Em essência, assim como cebolas e ogros, o mar tem camadas. No caso são camadas com temperaturas diferentes, e isso afeta as ondas sonoras, que têm dificuldade de passar pela interface entre elas. Um velho truque dos submarinos é se esconder em uma camada térmica.

Na época não havia um mapa mundial de camadas térmicas do oceano, a alternativa foi desenvolver um instrumento capaz de sondar o mar no local e criar na hora um gráfico de temperaturas. Isso deixou os submarinistas muito felizes, e vários comandantes mandaram agradecimentos para o Escritório, em nome de Mary Sears.

Em 1945 a Marinha criou uma Divisão Oceanográfica no Instituto Hidrográfico, e colocou Mary como chefe. Ela seguiu no cargo, até ir para a Reserva em 1947, quando voltou pro Instituto Woodshole, como Cientista Senior.

Ela deu baixa da Reserva da Marinha em 1963, aos 58 anos, com o posto de Comandante. Em 1970 ela se aposentou do Instituto Woodshole, mas continuou dando consultoria e trabalhando esporadicamente para eles.

"Tinha que ver o que escapou!" (Crédito: Mary Sears - Arquivo Pessoal)

Mary nunca abandonou o mar. Ela amava velejar, nadar e pescar. Também amava oceanografia, tendo organizado o primeiro Congresso Internacionalde Oceanografia, em 1959. Ela recebeu medalhas e honrarias, e hoje há dois prêmios com seu nome, mas a Marinha nunca soube como reconhecê-la.

Sua irmã mais nova, Leila, também era da Marinha. Ela conta que um dia estava entregando umas mensagens pro Almirante Nimitz, que olhou o nome no uniforme e perguntou se ela era parente da Tenente Mary Sears.

Leila disse que sim. Nimitz se levantou, pegou nas mãos da jovem e disse:

“Um dia o país vai saber o quanto deve para sua irmã Mary”

Aos poucos as contribuições de Mary Sears foram aparecendo, e em 2000 ela foi devidamente homenageada, com o USNS Mary Sears, que apropriadamente, não é um navio de guerra, mas um navio de pesquisa oceanográfica da Marinha dos Estados Unidos. Ela foi fundamental para o estabelecimento da moderna oceanografia, e é um nome venerado em seu meio.

Mary morreu em 1997, aos 92 anos, mas sua irmã estava lá, firme e forte, para batizar o navio construído para fazer o que sua irmã mais amava: Estudar o mar.

Navio de pesquisa oceanográfica USNS Mary Sears (T-AGS 65) (Crédito: US Navy)

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