Carlos Cardoso 11 semanas atrás
Hoje, quando a gente vai a um churrasco na favela (recomendo), entre risos, comida e diversão, há o indefectível tonel de prástico com cervas trincando, boiando no gelo. Nem sempre foi assim.

Assim dá pra curtir o verão carioca (Crédito: Stable Diffusion)
Gelo pode ser algo mundano hoje em dia, mas por incontáveis milênios foi algo restrito pela geografia. Há relatos de imperadores chineses que mandavam soldados a cavalo para buscar gelo no alto de montanhas, mas era uma quantidade mínima. Em lugares com invernos rigorosos, a população aprendeu a construir depósitos e armazenar o gelo do inverno, mas quem morava nos trópicos não tinha esse luxo.
Nem com todo seu poder o Imperador do Brasil podia tomar uma limonada gelada.
Eis que surge Frederic Tudor (1783–1864), empreendedor, de família rica de Boston. Ele sabia que na maioria dos EUA gelo era um material acessível, era transportado por trens e carroças, mantidos em depósitos, e mal ou bem a classe média alta tinha acesso a ele.

Frederic Tudor, O Rei do Gelo - Interpretação livre (Crédito: Qwen Edit 3.5)
Essa turma mais rica (ok, na prática não existia classe média) ganhava muito dinheiro no Caribe, com plantações e comércio, mas, para isso abriram mão de muitos confortos da terrinha, como beber água gelada e não morrer de malária. Tudor começou a fazer contas, e decidiu que era possível transportar gelo dos lagos congelados da Nova Inglaterra para o Caribe, com perdas aceitáveis.
Em 1806 ele arrendou um navio, Favorite, para transportar uma carga de gelo para a Martinica. O projeto levava em conta que ele usava serragem como isolante térmico. Serragem era conseguida de graça em serrarias. O gelo também era de graça, fora o salário dos cortadores de gelo. A imprensa, claro, chamou Tudor de maluco; imagine levar GELO por 2.400 km para uma ilha tropical.
Eles estavam certos. O isolamento não funcionou, a maior parte do gelo derreteu, os emissários que deveriam arrumar contratos de venda do gelo e construir um depósito não o fizeram, e ele acabou com um prejuízo de US$ 4,5 mil, mais ou menos US$ 120 mil em 2026.
O trabalho era basicamente o mostrado em Frozen.
Ele foi aos poucos aprimorando sua logística, fechando contratos com governos locais, e por volta de 1810, já lucrava US$ 9 mil por ano transportando gelo para Martinica, Cuba e outros países do Caribe, mas seu representante local roubou mais de US$ 8 mil, Tudor não teve como pagar as contas e em 1813, foi para a cadeia por dois anos.
Frederic Tudor era extremamente teimoso, e nem dois anos na geladeira o fizeram desistir do sonho de virar o Rei do Gelo. Em 1815 conseguiu um empréstimo, construiu um depósito high-tech de gelo em Havana, e continuou a expandir os negócios.
Em 1816, ele teve a brilhante ideia de usar o gelo excedente para transportar frutas tropicais de Cuba para os Estados Unidos, pegou US$ 3 mil emprestados e encheu o barco de bananas, peras, laranjas e limões, e partiu para uma viagem de um mês até Nova Iorque.
Chegou tudo podre.
Tudor (sim, adivinhou) insistiu e pesquisou novas formas de isolantes, como raspas de madeira e palha de arroz. Estudou como posicionar os blocos de gelo, fluxo de ar, tudo. Logo ele estava importando frutas para a Costa Oeste inteira, e o dinheiro entrando sem parar.
Com depósitos em várias ilhas do Caribe, ele realizava eventos com a elite local para demonstrar esse tal gelo, suas propriedades e como bebidas ficam melhores com ele.
Pense bem, muita gente já tinha perdido o hábito, crianças americanas ou européias nascidas na região nunca tinham experimentado gelo, e a elite local não tinha qualquer conhecimento histórico dessa substância.
Isso não quer dizer que a coisa não fez sucesso, com guloseimas como sorvete aparecendo nos restaurantes caros.
Em 1825 apareceu um sujeito mais maluco que Tudor, um tal de Samuel Austin, que propôs uma parceria onde levariam gelo para... A ÍNDIA. Lembre-se, ainda era a era dos veleiros, o primeiro vapor transatlântico, o USS Great Western, só iria aparecer em 1838.
Tudor, que nunca soube diferenciar uma ideia idiota de uma grande ideia, topou, e em maio de 1833 o Tuscany partiu para Calcutá, com 180 toneladas de gelo a bordo, em uma viagem que levaria quatro longos meses.
Usando tudo que Tudor havia aprendido, o gelo foi incrivelmente preservado, quando o Tuscany subiu o Ganges, carregava ainda 100 toneladas de gelo, para alegria dos marajás e dos oficiais ingleses locais.
Eles vendiam gelo para outros lugares, e em 1834 atracava no porto do Rio de Janeiro o veleiro de três mastros Madagascar, com 180 t de gelo a bordo.

O Madagascar, sem os bichos esquisitos (Crédito: Reprodução Internet/ Qwen Edit)
Em uma recepção a bordo, autoridades locais se maravilharam com coquetéis de frutas, drinques e champanhe gelado, muitos negócios foram fechados e o consumo de gelo disparou.
Em 1848, o Brasil importava 320 toneladas de gelo.
Em 1856 foram 1762 só para o Rio de Janeiro, em 1865 chegou a 3.319 toneladas e na década de 1870 éramos o segundo maior importador do mundo, chegando a 3.100 toneladas.
Esse gelo chegava no cais do porto, era transportado para depósitos subterrâneos isolados. De lá era vendido para grandes clientes, como hotéis e abatedouros, ou para mercearias, que vendiam gelo a granel.
Nas ruas era (no Centro do Rio se vê até hoje) comum a Carroça do Gelo, com peões suados transportando barras de gelo nas costas. Nas casas elas eram colocadas em “Caixas de Gelo”.

Uma Caixa de Gelo (Crédito: Domínio Público)
Essas caixas eram móveis de madeira (geralmente carvalho ou pinho), forradas internamente com zinco ou estanho, isoladas com serragem, cortiça ou feltro, e tinham um compartimento superior onde se colocava o bloco grande de gelo importado. O frio descia por gravidade e conservava alimentos e bebidas nos compartimentos de baixo.
Eram 100% passivas (ui!) e no verão, uma pedra de gelo de 25 kg durava até dois dias, às vezes mais, dependendo da qualidade do isolamento.
Convertendo os valores, esse bloco de gelo de 25 kg custaria em 2026 o equivalente a mais ou menos R$ 200.
Sim, gelo era um produto caríssimo, consumido apenas pela elite, que tomava sucos gelados, sorvetes, conservava alimentos e tudo mais que a gente faz hoje sem pensar.
Em 1833, uma Frozenzinha de 19 anos chamada Euphemia Fenno derreteu o coração do Rei do Gelo, e Tudor, aos 50 anos se casou com a moçoila, com a qual teve seis filhos.
Ele investiu em café e outros mercados, e levou uma vida confortável até morrer em 1864, mas antes chegou a brigar com uma perigosa indústria emergente: em 1851 foi patenteada a primeira máquina de gelo artificial.
Tudor e outros empresários do ramo acusaram o gelo artificial de ser perigoso, venenoso, antinatural, impuro. O principal problema é que o processo não era prático, mas como tudo em engenharia, ele foi se aperfeiçoando, e nas próximas décadas frigoríficos produziam gelo de qualidade a preços mais em conta, e invernos muito quentes afetavam a produção de gelo natural, muitas entregas não foram feitas por falta de rios e lagos congelados para coletar o material.
Em 1914 os EUA produziram 26 milhões de toneladas de gelo artificial, contra 24 milhões coletadas da natureza. Foi o ponto da virada. No mesmo ano surgiu a DOMELRE, uma engenhoca que foi a primeira geladeira doméstica. Era um equipamento que você colocava no alto de uma caixa de gelo, ligava na tomada e ela resfriava o bastante para manter os alimentos refrigerados, e até fazia alguns cubos de gelo.
Fábricas de gelo foram construídas no resto do mundo, e logo não havia mais sentido em pagar caro por algo que podia ser feito localmente, e as empresas de importação de gelo foram sublimadas da face da Terra.