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Quando os EUA "censuraram" o clima

Durante a 2.ª Guerra, rádios não podiam informar sobre o clima, sob risco de ajudar o inimigo; Murphy, claro, não perdoou

37 semanas atrás

Em uma guerra, informação é uma das armas mais poderosas que existe, conflito armado é apenas um aspecto. Muito do trabalho envolve coleta de dados, monitoramento, observação e espionagem, e nesse cenário, dar mole não é uma opção. Toda e qualquer tipo de informação pode e será usada como uma arma.

Qualquer nação em guerra controla ferozmente o fluxo interno de informações, mesmo as mais inócuas possíveis, sob risco de dar dicas preciosas ao inimigo, e foi assim que os Estados Unidos restringiram pesadamente a divulgação de dados sobre o clima do país durante a 2.ª Guerra Mundial, o que saiu muito caro para boa parte de seus cidadãos.

Pôster da WWII criado pelo Conselho de Produção de Guerra dos EUA (WPB) entre 1942 e 1943, alertando que dados climáticos são sensíveis (Crédito: National Archives and Records Administration/534068)

Pôster da WWII criado pelo Conselho de Produção de Guerra dos EUA (WPB) entre 1942 e 1943, alertando que dados climáticos são sensíveis (Crédito: National Archives and Records Administration/534068)

EUA restringiram informes do clima

Tão logo o Japão atacou Pearl Harbor em dezembro de 1941, forçando a entrada dos americanos na guerra, o então Departamento Climático (hoje Serviço Nacional do Clima, ou NWS), sob orientação do recém-criado Escritório de Censura, encarregado de monitorar todo o fluxo de informações dentro do país durante o conflito, restringiu a divulgação de dados climáticos, mesmo na forma de previsões publicadas em jornais, ou transmitidas por emissoras de rádio à população.

Pensando de forma pragmática, fazia sentido. Condições climáticas detalhadas dos EUA seriam dados preciosos para os inimigos, que poderiam planejar ataques ao país. Eles não foram os únicos a fazerem isso durante a Segunda Guerra, e a medida fazia parte do esforço de guerra que incentivava a população a não falar o que não devia, sob risco de informar agentes do Eixo.

Foi nessa leva que o Exército e a Warner Bros. criaram os curtas do soldado Snafu (sigla em inglês para Situation Normal: All Fucked Up), que entre outras coisas, orientava a população a não fazer besteira, especialmente não sair conversando sobre conteúdos considerados sensíveis com qualquer um.

O grande problema envolvendo a, por assim dizer, censura do clima, é que a menos que você seja São Pedro, Thor ou a Ororo, não dá para controlá-lo, não que não tenham tentado com a Operação Popeye durante a Guerra do Vietnã, mas isso é outra história.

Resumindo, tempo seco, chuvas, ventanias, e principalmente, tempestades e ciclones vão continuar ocorrendo, mas o Escritório de Censura não permitia que informes detalhados fossem divulgados aos americanos. O chamado "Código de Boas Práticas em Tempos de Guerra", embora voluntários, eram "rigidamente recomendados" e, na prática, seguidos à risca. Jornais, por exemplo, não podiam dar informes diferentes dos fornecidos pelo Departamento Climático, que eram bem vagos, e apenas em um raio de 240 km de suas sedes.

Emissoras de rádio estavam sujeitas a regras bem mais severas (cuidado, PDF), eram proibidas de anunciar qualquer tipo de informação sobre ou clima, ou previsão do tempo sem autorização, o que para a Costa Oeste, poderia demorar até 24 horas. Informes para eventos esportivos também foram barrados, com o medo de que inimigos podiam atacar eventos com grande concentração de pessoas.

Se você pensou que, dado o clima dos Estados, isso seria a receita de um desastre, acertou: Murphy não perdoou, e foi o povo quem pagou o pato.

Sargentos dos EUA anotam informes climáticos em um quadro negro; o clima era um recurso militar importante, ao ponto do governo decidir que previsões do tempo eram sensíveis (Crédito: National Archives and Records Administration/204894550)

Sargentos dos EUA anotam informes climáticos em um quadro negro; o clima era um recurso militar importante, ao ponto do governo decidir que previsões do tempo eram sensíveis (Crédito: National Archives and Records Administration/204894550)

Quem não se comunica...

Entre os dias 16 e 17 de março de 1942, uma série de tornados atingiram a região centro-sul dos Estados Unidos, com estragos mais significativos nos estados de Illinois e Indiana, e no sul do Mississippi. Pelo menos 30 foram identificados, causando 149 mortes e danos de US$ 5.265.000, ou US$ 106,6 milhões em valores de hoje (~R$ 570,4 milhões, cotação de 26/09/2025).

O problema: o Escritório de Censura não autorizou o Departamento Climático a informar a população em tempo real, de que tornados perigosos poderiam se formar naquele dia. A rádio WREC de Menphis, Tennessee, por exemplo, só pode noticiar às 18:57 que médicos e enfermeiras eram necessários nas comunidades ao leste e sul da cidade.

Três horas antes, o primeiro tornado já havia se formado no Mississippi. No momento da transmissão, outros 8 já estavam devastando o interior do Menphis. Por volta das 21:30, a tempestade já havia alcançado o Alabama, e arrefecido.

Às 22:55 o Escritório de Censura, sediado em Washington, deu autorização à WREC dar o informe completo de alerta para tornados, apenas porque havia a possibilidade de outra tempestade no dia seguinte, o que de fato ocorreu; no entanto, é bem provável que vidas poderiam ter sido salvas, não fosse a paranoia em tempos de guerra.

Os tornados de 1942 não foram um caso único. Fazendeiros do Michigan foram surpreendidos com climas muito mais frios do que o reportado oficialmente, o que prejudicou plantações; o turismo na Flórida caiu consideravelmente, considerando a instabilidade climática da região; médicos que dependiam da pressão atmosférica para testes tiveram que pôr a mão no bolso, e bancar barômetros por conta própria.

Anunciantes de jogos de beisebol (um esporte basicamente movido por estatísticas, em que o clima é um fator importante) sofreram para explicar atrasos nas partidas, e até a primeira-dama, Eleanor Roosevelt, for repreendida por uma "carta ríspida" do Escritório de Censura, por falar sobre o clima em uma coluna.

Resultado do tornado que atingiu Goshen, Indiana, em 16 de março de 1942 (Crédito: Bonnie LeCount/Elkhart County Emergency Management/US National Weather Serevice)

Resultado do tornado que atingiu Goshen, Indiana, em 16 de março de 1942 (Crédito: Bonnie LeCount/Elkhart County Emergency Management/US National Weather Serevice)

Como o público deixou de confiar no Departamento Climático, e muitos dependiam do clima para trabalhar, cultivar e afins, charlatães proliferaram com soluções ineficazes; até a revista Popular Science publicou artigos sobre essas traquitanas.

A literal gota d'água veio no dia 25 de julho de 1943, na forma de um "furacão surpresa" que atingiu o Golfo do México (ou da América, sei lá) e varreu cidades por dois dias com ventos de até 165 km/h, matando 19 pessoas e causando danos de US$ 17 milhões, ou R$ 316,5 milhões em valores de hoje (~R$ 1,7 bilhão).

Desta vez, até o Departamento Climático foi pego de guarda baixa, mas de novo, a culpada era a guerra: U-boats nazistas fizeram a festa na região entre 1942 e 1943, afundando 56 navios aliados e danificando outros 14; Washington não poderia repassar nenhuma informação relevante sob risco de dá-las de bandeja ao inimigo, e mais uma vez, Murphy não perdoou.

Ao perceber que estava fazendo mais mal do que bem à população, o Escritório de Censura anunciou, pouco após o furacão, que informes climáticos na região do Golfo do México/América "seriam publicados imediatamente", mas pouco tempo depois, em 12 de outubro de 1943, o departamento removeu todas as restrições sobre informes climáticos, permitindo a jornais e emissoras de rádios publicarem previsões completas, mesmo com a guerra longe de acabar.

Fonte: Popular Science

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