Carlos Cardoso 51 semanas atrás
Estratégia, do grego strategos, algo muitas vezes negligenciado, mas fundamental para grandes vitórias, como a Operação Midnight Hammer, o ataque às instalações nucleares do Irã por aviões americanos, em um plano que enganou não só Teerã, mas o mundo inteiro.

Um Northrop B-2 Spirit (Crédito: USAF)
Faz tempo que o Irã vem desenvolvendo um programa nuclear, desde a Guerra Irã-Iraque nos Anos 80, eles buscam criar armas atômicas, mas a bomba em si é fácil, purificar o Urânio é bem mais complicado. Poucos países detêm essa tecnologia, que é bem controlada e monitorada pela Agência Internacional de Energia Nuclear.
O Irã construiu instalações subterrâneas para abrigar as supercentrífugas que fazem esse refino de urânio, e depois de diversos alertas, a AIEN denunciou em 2024 que o Irã já estava refinando 235U a 60%. Isso é muito além do grau de pureza usado em reatores nucleares, que utilizam urânio entre 3,5% e 4,5%. Reatores militares usados em submarinos e porta-aviões usam urânio a 20%.
Existem duas coisas que usam urânio acima de 20%: Reatores breeder, usados para criar Plutônio para armas nucleares, e acima de 90%, o urânio é também usado para armas nucleares.

A localização dos alvos (Crédito: Reprodução Internet)
Israel decidiu que é inaceitável que o Irã tenha acesso a armas nucleares, e efetuou uma série de ataques contra o país, mas a instalação com as centrífugas, em Fordow, foi construída dentro de uma montanha, e Israel não possui armas convencionais capazes de atingi-la. A única bomba com tal poderio é a GBU-57 series MOP (Massive Ordnance Penetrator), um monstro de 6m e 12 toneladas, e somente o bombardeiro B-2 Spirit é capaz de carregá-la.
No dia 22/6/2025 os Estados Unidos usaram 6 bombardeiros B-2 para atacar as instalações de enriquecimento de urânio em Fordow, as instalações nucleares em Natanz e o centro de tecnologia nuclear em Isfahan.
Foi um ataque limpo, sem baixas em nenhum dos lados, sem qualquer tipo de reação por parte do Irã, que foi pego totalmente de surpresa. Assim como o resto do mundo, incluindo quem já esperava um ataque.
Sem dúvida, foi o B-2 Spirit, um avião que se fosse feito hoje custaria US$ 4 BILHÕES.
Ele foi projetado no final dos Anos 70, quando os EUA perceberam que mísseis tinham o inconveniente de não servir para ataques de surpresa. Ao mesmo tempo uma nova tecnologia permitiu a criação de aeronaves stealth, furtivas, com baixa visibilidade no radar.
Nota: O B-2, nem nenhum outro avião é “invisível”. Se chegar perto o suficiente do radar, ele será detectado, a diferença é que enquanto um avião convencional pode ser detectado a centenas de quilômetros de distância, o B-2 pode passar a algumas dezenas da antena antes de refletir energia o suficiente para gerar uma detecção.

Esses aviões conseguem fazer o trabalho de milhares de bombardeiros da 2.ª guerra (Crédito: USAF)
A ausência de superfícies angulosas é um dos truques usados pelo B-2 para ter uma assinatura de radar pequena, e um dos resultados disso, como seus olhos de água devem ter percebido, é que o B-2 não tem cauda. E aí temos um problema. A cauda, ou estabilizador vertical, tem uma função social importante, está no nome, estabilizar.
Existe uma lenda que o povo gosta de repetir, dizendo que o B-2 é descendente do Horten Ho 229, um revolucionário jato nazista no formato de asa voadora, capturado pelos aliados no final da Guerra, mas é só uma daquelas histórias com uma moralzinha antiamericana.

O Horten Ho-229. Mal chegou a voar (Crédito: Warthunder)
Jack Northrop era interessado no conceito de asas voadores desde os Anos 20. Em 1929 ele voou seu primeiro protótipo, o X-216 H, que ainda tinha uma cauda, mas estava chegando lá.
Em 1940 ele construiu o N-1M, que demonstrou a viabilidade do conceito, junto com problemas de estabilidade.

Northrop N1-M (Crédito: Sanjay Acharya - Creative Commons)
Em 22 de novembro de 1941, antes mesmo dos Estados Unidos entrarem na Guerra, a Northrop recebeu uma encomenda para projetar o B-35, um superbombardeiro com autonomia de 16 mil quilômetros e uma carga de 4,5 toneladas de bombas.
Os engenheiros começaram a trabalhar, e no final de 1942 já tinham um protótipo em escala voando, o Northrop N-9M, usado para demonstrar vários conceitos.
O tal avião nazista? Só iria voar planando em 1944, e com motores no começo de 1945.
Em 1946 voava o Northrop YB-35, e um ano depois, o YB-49, a versão da asa voadora de Northrop, com motores a jato.
Entre outros benefícios não-planejados, descobriram que a assinatura de radar do avião era bem reduzida. Meio sem-querer, o conceito de stealth foi descoberto.
O YB-49 não cumpria as exigências de autonomia e performance, e era muito propenso a perda de controle, sendo bem difícil de pilotar. Essa insatisfação, e mais pressões políticas do Secretário de Defesa acabaram cancelando abruptamente o programa.
Somente nos Anos 70 a idéia voltou à tona, experimentos com tecnologia stealth mostraram que era possível construir um avião bem furtivo, mas uma das características necessárias seria a ausência de cauda, o que caiu na área de expertise da Northrop, que usou todos os truques que tinha na gaveta, de materiais compostos a tinta absorvedora de radar.
O resultado foi um avião com um RCS desprezível.
Radar Cross Section (Seção Transversal de Radar, em português), uma medida que quantifica o quão detectável um objeto é por um radar. É o equivalente a um objeto metálico refletindo os sinais de radar. Imagine uma pessoa com uma lanterna apontando aleatoriamente, e outra segurando um espelho.
Um bombardeiro B-52 tem um RCS de 100 m2. O RCS de um B-2 é de 0,1 m2.
Claro, ninguém é 100% invisível, se você chegar perto o suficiente, VAI ser detectado, mas com essa diferença brutal o radar inimigo perde muito de sua performance.

RCS relativo de vários aviões (Crédito: Reprodução Internet)
Essa tecnologia toda tem um custo. Em valores de 2025, o custo de produção, pesquisa, desenvolvimento, peças sobressalentes, testes, etc do programa B-2 é de aproximadamente US$90 bilhões, e como dos 132 aviões planejados só construíram 21, o custo por aparelho chega a US$4,29 bilhões.
Valeu cada centavo.
Alguns dias antes do ataque ao Irã, especialistas de OSINT (Open Source Intelligence) detectaram dezenas de aviões-tanque decolando dos EUA rumo à Europa, sinalizando que algo estava para acontecer.
Aviões de reabastecimento são essenciais na guerra moderna. Estimativas de autonomia são muito otimistas no papel, na prática um B-2 precisa ter sempre combustível suficiente para voar até um aeroporto aliado, ou neutro. Carregar toneladas de bombas também consome combustível, sem falar no microondas e no USB pra recarregar os tablets dos pilotos.

Moeda comemorativa com o lema dos tankeiros (Crédito: Reprodução Internet)
Existe um lema entre os pilotos de reabastecimento: “Nobody kicks ass without tanker gas”, que pode ser livremente adaptado para “Ninguém chuta bundas de tanque vazio.
O relatório oficial fala que os B-2 foram acompanhados de escoltas, sem especificar tipo ou quantidade. Presume-se caças stealth F-22, que teriam decolado da Jordânia ou do Catar, mas isso é só parte da história.
Foram utilizados caças para ataque ao solo e supressão de radares e lançadores de mísseis, presumivelmente caças F-35 e F-16 com mísseis HARM anti-radiação (eletromagnética, emitida por radares) que abriram caminho entre as defesas iranianas.

Diagrama da operação (Crédito: USAF)
Eles foram acompanhados por diversos aviões EA-18G Growler, da Marinha Americana, lançados pelos porta-aviões Carl Vinson e Nimitz. O Growler é um F-18 adaptado. Eles encheram o bicho de equipamento eletrônico, enfiaram um segundo tripulante e se tornou uma plataforma de guerra eletrônica, identificando, classificando e organizando sinais de radar, rádios, celulares, o que for. Ele é capaz de gerar todo tipo de interferência, por isso durante o ataque vários relatos falavam de sinais de GPS saltando loucamente, e até celulares dando hora errada.
Também foram usados vários caças de 4ª geração, provavelmente F-15s, para lançar chamarizes, pequenos drones que simulam a assinatura de radar de um avião bem maior.
No total foram empregados 125 aeronaves, que tiveram que coordenar com dezenas de tanques para reabastecimento, sincronizando para que ninguém saísse muito na frente ou atrasado.
Ao mesmo tempo, a 1500km de Fordow, um submarino nuclear classe Ohio, provavelmente o USS Georgia, lançava 30 mísseis de cruzeiro Tomahawk, mirando as instalações em Natanz e Isfahan. Todo o resto do ataque estava sincronizado com esse lançamento.
Pelo menos duas baterias de mísseis foram destruídas pelos aviões americanos, antes que os B-2 chegassem.
Seis se dirigiram a Fordow, onde lançaram 12 bombas GBU-57. O sétimo atacou Isfahan.
Cada uma das bombas GBU-57 pesa quase 14 toneladas, e só conseguem ser carregadas pelo B-2, nenhum outro bombardeiro tem capacidade de carga e/ou espaço para comportar uma. Que dirá duas.
Durante a 2ª Guerra do Golfo, os americanos descobriram que suas bombas anti-bunker eram inadequadas. Saddam Hussein estava construindo estruturas muito reforçadas, imunes às bombas convencionais, e a única alternativa no arsenal americano era nuclear. Criada para ser uma alternativa convencional, a GBU-57 é um monstro. São 6,2 metros de comprimento, quase 14 toneladas de peso (2 toneladas só de explosivos), um sistema de guiagem usando navegação inercial e GPS, ela é lançada de grande altitude e atinge velocidade supersônica (thanks, Newton) atingindo o alvo com extrema energia e violência. Isso antes de explodir.

Especialistas posam diante de um modelo da GBU-57 (Crédito: Boeing)
Ela é projetada para penetrar até 60 metros de concreto. Seu detonador pode ser programado pra profundidades variáveis, então podem mirar em andares específicos de estruturas subterrâneas.
Detonando em um compartimento fechado, a simples pressão exercida é suficiente para matar todos no complexo, e destruir a integridade estrutural, forçando as paredes a se expandir, depois deixando que o peso da montanha faça sua parte e soterre tudo e todos.

Uma GBU-57 sendo lançada de um B-2 (Crédito: USAF)
É uma arma brutal como poucas. Seis delas atingiram Fordow, que seria a inexpugnável fortaleza onde o Irã enriqueceria seu Urânio.
As fotos de antes ou depois mostram os seis pontos de entrada, e uma extensa área coberta de pó de concreto, resultado do jato de chamas e destroços sob extrema pressão, saindo pelo túnel de entrada criado pelas GBU-57s.
Detalhe: Toda essa operação foi feita durante a noite.
Antigamente era possível planejar grandes operações sem que o inimigo descobrisse. Os aliados controlavam TODOS os espiões alemães em solo britânico, então sabiam que algo estava sendo planejado, mas não tinham uma data para o Dia D. Antes da invenção dos aviões, o reconhecimento era feito através de balões (O Brasil foi pioneiro na Guerra do Paraguai, trouxemos uma equipe dos EUA para operar balões de reconhecimento) e antes disso, unidades de terra.
Hoje, é impossível manter segredo total. Há curiosos em toda parte, trocando mensagens via twitter, monitorando sinais de rádio e fotos de satélites comerciais. Esse monte de informação é compilada e acaba dando boas indicações do que os militares estão planejando, e foi isso que todos vimos: Aviões-tanque decolando rumo ao Oeste. Testemunhas chegaram a filmar um ou dois bombardeiros B-2. Desvendamos o plano, vão voar para Guam, depois Diego Garcia, base no Oceano Índico usada por bombardeiros americanos, e de lá eventualmente atacar o Irã.
Um monte de gente, inclusive em Teerã acompanhou com atenção os aviões-tanques no Flightradar, apenas para sermos surpreendidos por um post do Presidente dos EUA no Truth Social e no Xwitter (que tempos, meus amigos, que tempos), avisando que as instalações iranianas haviam disso bombardeadas e os aviões estavam a caminho de casa. Nem soubemos que um dos B-2 que rumou para o Pacífico fez um pouso de emergência no Hawaii.
Ficou todo mundo com total cara de bunda.
Durante os dias que antecederam o ataque Donald Trump repetiu diversas vezes que o Irã teria duas semanas para tomar uma atitude e acabar com a guerra. Israel por sua vez repetia que não havia tempo, que o Irã precisava ter suas instalações atacadas mais cedo.
Chegou a rolar um climão diplomático com Israel criticando abertamente a indecisão de Trump, avisando que se fosse preciso atacariam por conta própria. Muitos analistas temeram uma cisão entre os dois países, com Trump deixando Israel na mão.
Mal sabíamos que era tudo mentira. Nas palavras de um sujeito controverso,
"Teatralidade e subterfúgio são armas poderosas contra os não iniciados."
O ataque vinha sendo planejado há semanas. Israel sabia, foi tudo coordenado. As instalações não foram atacadas propositalmente, para o Irã não reforçar as defesas, achando que Israel as considerava além dos limites, e não escalaria o conflito.
Todos foram pegos de surpresa, em uma era de informação ampla e generalizada, algo que basicamente todo mundo jurava impossível.
Se o plano não foi perfeito, a única falha foi um sujeito que twittou que havia visto vários B-2 sobre a casa dele, voando rumo ao Leste, mas como quase não tinha seguidores, não viralizou.
Israel acredita que o programa nuclear iraniano tenha sido atrasado em vários anos. O Irã declarou vitória, depois que aceitou o cessar-fogo e o fim do conflito, disse que destruir Israel e repeliu o ataque americano.
As fotos de satélite mostram grandes áreas da montanha cobertas de detritos, e dois buracos de túneis de ventilação, por onde DOZE GBU-57s entraram. Ninguém sério acha que o Irã é capaz de construir algo que resista a isso, aquelas centrífugas já eram.

Tudo destruído (Crédito: Maxar / Pentágono)

Crédito: Maxar / Pentágono
Várias verdades inconvenientes ficaram evidentes com essa mini-guerra. De um lado, os americanos mostraram que em tempos de drones de longo alcance, nada supera uma boa e velha força aérea moderna, com logística, estratégia e meios para efetuar ataques coordenados. Sistemas antiaéreos que não sejam SOTA (Sigla em inglês para Estado da Arte, está na moda) são inúteis e são sistematicamente eliminados. Ninguém está imune. Em três dias Israel voava livremente escolhendo alvos em Teerã.
Do outro lado, ficou também evidente que os sistemas antimísseis atuais são inadequados. Mesmo trabalhando em camadas, o Iron Dome, o Funda de David, o Arrow 3 e o THAAD não conseguiram conter todos os mísseis iranianos.
Claro, a destruição foi mínima e os ataques israelenses destruíram 2/3 dos lançadores iranianos, eventualmente eles ficariam sem meios, nos últimos dias lançavam 5, 6 mísseis de uma vez, o que facilitava a interceptação, mas quando lidarmos com um adversário com armas nucleares, UM míssil deixar de ser interceptado já será suficiente para uma catástrofe.