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O grande e esquecido plano de Hitler contra o fumo

Alemanha nazista foi a 1.ª nação relacionar o fumo com o câncer; EUA defenderam cigarro na base do "se Hitler é contra, então é bom"

43 semanas atrás

Ninguém gosta de nazistas, fato. A Alemanha está condenada a aguentar as piadinhas dos "dois lapsos morais" em sua história até o Fim dos Tempos, mas até mesmo Adolf Hitler teve seu momento de relógio quebrado. Só que sem ponteiros.

O bigodinho histriônico promoveu com afinco a maior campanha antitabagismo da primeira metade do século XX, e ainda uma das maiores da história, mesmo que a motivação por trás não fosse exclusivamente por preocupação com a saúde da população alemã. E nem deu resultado, na verdade.

Charge "O fumante compulsivo", da publicação anti-fumo Reine Luft ("Ar Puro") de 1941; o texto diz: "ele não o devora, é devorado" (Crédito: British Medical Journal)

Charge "O fumante compulsivo", da publicação anti-fumo Reine Luft ("Ar Puro") de 1941; o texto diz: "ele não o devora, é devorado" (Crédito: British Medical Journal)

A campanha de combate ao fumo da Alemanha nazista atingiu todas as camadas da sociedade, e mesmo que o esforço fosse devidamente pautado em pesquisas científicas revisadas e comprovadas, os Aliados, especialmente os Estados Unidos, fizeram de tudo para promover o cigarro como um hábito saudável, no estilo "Hitler está errado sobre tudo".

Hitler vs. cigarro

Antes de mais nada, vamos contextualizar. As primeiras evidências médicas de uma possível relação entre casos de câncer e o hábito de fumar datam do início do século XVIII; em 1840, a Prússia chegou a banir o fumo em locais públicos, e existiram campanhas de conscientização contra o hábito durante o Império.

Durante a República de Weimar (1919-1933), uma série de estudos começaram a surgir relacionando cigarro a doenças, com o governo financiando ativamente os esforços durante os anos 1920. O Partido Nazista, ao menos ideologicamente, também não via o tabaco com bons olhos, principalmente porque Hitler era avesso à prática.

O então líder do partido era um ex-fumante compulsivo, que chegou a consumir de 25 a 40 cigarros por dia na juventude, mas abandonou o vício ao considerá-lo "um desperdício de dinheiro". Dali por diante, Hitler passou a considerar o tabaco como "um veneno contra a sociedade"; ele mencionou certa vez que o cigarro era "a vingança dos homens vermelhos (indígenas) contra o homem branco, por terem lhes introduzido à bebida destilada".

Hitler se baseou em estudos publicados em 1935 por Fritz Lickint (1898-1960), um pesquisador e internista (clínico geral) expurgado um ano antes pelos nazistas por motivos políticos. Seu trabalho, que cruzou dados de estudo de diversos outros estudiosos e cientistas, relacionou pela primeira vez, com revisão de pares, a relação irrefutável entre o câncer e o fumo.

Em 1939, Lickint publicou Tabak und Organismus (Tabaco e o Corpo), um livro de 1.200 páginas que sumarizou 8 mil estudos relacionados, considerado até hoje a maior compilação de artigos acadêmicos sobre os males do fumo; ele argumentou que o cigarro era viciante e responsável direto por milhares de casos de câncer na Alemanha nazista.

O trabalho de Fritz Lickint foi o primeiro a sumarizar evidências da relação entre fumo e câncer (Crédito: domínio público)

O trabalho de Fritz Lickint foi o primeiro a sumarizar evidências da relação entre fumo e câncer (Crédito: domínio público)

Lickint chegou a ser considerado "o médico mais odiado" pela indústria do cigarro, mas é fato que o governo também não ia com sua cara devido desavenças políticas, e aqui cabe a velha máxima: não dá para confiar em nazistas.

Seus estudos foram devidamente cooptados para darem embasamento à cruzada anti-tabaco de Hitler, enquanto o pesquisador foi mandado para o Fronte, como médico de campo. Ele só voltaria à academia em 1945, após o fim da guerra.

A Alemanha nazista nunca estabeleceu uma campanha centralizada contra o fumo, por motivos que serão abordados mais para a frente, mas concentrou grande esforço em propaganda, ao menos até 1941. O foco se concentrava nas famílias, principalmente mulheres e jovens, para evitarem tanto o cigarro quanto o álcool, outro "inimigo do povo alemão" segundo Hitler.

Muitos poderiam argumentar que a empreitada visava o bem-estar da população, mas de novo: sinto desapontá-lo, mas Hitler tinha motivações mais amplas e bem menos altruístas.

"Mães, evitem o álcool e a nicotina!", diz propaganda de 1942 incentivando o consumo de cidra não-alcoólica durante a gravidez (Crédito: domínio público)

"Mães, evitem o álcool e a nicotina!", diz propaganda de 1942 incentivando o consumo de cidra não-alcoólica durante a gravidez (Crédito: domínio público)

Na dúvida, culpe os judeus

Embora considerado o primeiro líder político do século XX a se opor ao fumo (James VI da Escócia/James I da Inglaterra foi o pioneiro no ocidente, enquanto os imperadores chineses Chongzen e Kangxi, seus contemporâneos, adotaram medidas similares), Hitler atacou o cigarro e a bebida por vê-los como danosos à política que estimulava as mulheres alemãs a terem quantos filhos fosse possível.

Homens jovens (arianos, bem explicado) deveriam perseguir o ideal de saúde defendido pelo partido à imagem do übermensch, onde vícios não tinham vez. E para variar Hitler jogou toda a culpa nos judeus, primeiro porque as empresas locais estavam falindo durante o período de Weimar (por outros motivos, mas enfim), e até a SA era financiada por uma fabricante própria, e depois por fazerem dinheiro às custas da saúde do povo alemão.

Os "negros degenerados" foram igualmente associados, e lideranças nazi anti-fumo acreditavam que o tabaco era uma forma de "degradação racial"; mulheres fumantes eram alvos em potencial, tratadas como inadequadas para o plano da "raça superior". O câncer era visto como uma doença política que deveria ser combatido pelos meios políticos, aqueles que todo mundo já sabe, aliados a uma campanha para convencer o povo "correto" (de novo, arianos) a parar de beber e fumar, e ter hábitos mais saudáveis.

Resumindo, a campanha de saúde pública era mais uma fachada usada para defender a política de pureza do povo alemão, através do controle da população e da eliminação de indesejáveis, fossem eles judeus ou viciados, que os nazistas acreditavam serem capazes de "danificar o potencial genético" da dita raça pura.

Tanto Himmler (esq.) quanto Martin Bormann (dir.), secretário pessoal de Hitler, fumavam, para desgosto do Führer (Crédito: AFP/Getty Images)

Tanto Himmler (esq.) quanto Martin Bormann (dir.), secretário pessoal de Hitler, fumavam, para desgosto do Führer (Crédito: AFP/Getty Images)

A resistência interna

Hitler, fato conhecido, era especialmente passional quanto ao combate ao fumo mesmo dentro do alto escalão nazista. Ele aceitou, contrariado, a inclusão de cigarros no kit de ração de combate, e disse que após a guerra (caso vencessem, claro), ele iria removê-los do pacote; há um episódio particularmente curioso, em que o Führer se enfureceu com a comissão de uma estátua de Hermann Göring... fumando.

O comandante da Luftwaffe, assim como Heinrich Himmler, chefe da SS, eram frequentemente vistos dando suas baforadas em público, algo que Hitler não tolerava; ele chegou a presentear pessoas próximas com relógios de ouro, caso abandonassem o vício, e igualmente tentou rechaçar o consumo de álcool entre as tropas, especialmente após a capitulação da França.

A maior paulada, entretanto, veio de outro membro do alto escalão, Joseph Goebbels: em 1941, o ministro da Propaganda nazista ordenou a suspensão de todas as campanhas anti-fumo no Reich, salvo poucas exceções, principalmente porque elas estavam prejudicando os negócios de industriais alemães fieis ao regime.

Falando do impacto real, embora a campanha nazista tenha sido a maior que a Alemanha já executou, o resultado foi um fracasso completo. Entre 1933 e 1937 o consumo de tabaco aumentou, em uma taxa ainda maior do que a da França, em que uma campanha menor e menos influente fora implementada. Os números só caíram a partir de 1942, quando o governo racionou toda a produção e a direcionou para as tropas.

O consumo nas Forças Armadas, da qual Hitler queria extirpar o hábito, era comum: 87% da Wehrmacht era composta por fumantes, segundo dados de uma pesquisa de 1944.

Caixa de charutos e enfeite natalino, ambos com a cara de Hermann Göring; Hitler também tentou nazificar o Natal, mas isso é outra história... (Crédito: Wolfmann/Lofoten War Memorial Museum)

Caixa de charutos e enfeite natalino, ambos com a cara de Hermann Göring; Hitler também tentou nazificar o Natal, mas isso é outra história... (Crédito: Wolfmann/Lofoten War Memorial Museum)

Um cigarro por dia... ou era maçã?

Com o fim da guerra, os Aliados fizeram questão de rapidamente enterrar os dados das pesquisas de Fritz Lickint e cia., mesmo sendo todas revisadas, para não afetarem os negócios das companhias americanas e britânicas; os EUA, por exemplo, encheram as burras de grana com o Plano Marshall, primeiro enviando 93 mil toneladas de tabaco à Alemanha entre 1948 e 1949 de graça, para estabelecer um novo mercado.

Já a campanha de Hitler foi contra-atacada, na base do "se o bigodinho diz que é ruim, então só pode ser bom", uma estratégia básica para desacreditar adversários políticos, e usada até hoje. Fabricantes promoviam há décadas o fumo como um hábito saudável, com endosso inclusive de médicos, e continuaram a fazê-lo no pós-guerra, agora com uma motivação a mais.

Quando ficou evidente a relação entre o fumo e câncer, a narrativa foi novamente alterada, para atribuir aos EUA e o Reino Unido como os primeiros países a comprovarem a conexão; só muito tempo depois a pesquisa de Lickint e de outros cientistas pré-Segunda Guerra foi redescoberta, e por tabela, a campanha anti-fumo da Alemanha nazista voltou à tona.

Anúncio da Camel de 1946, com médicos endossando o hábito de fumar (Crédito: RJR)

Anúncio da Camel de 1946, com médicos endossando o hábito de fumar (Crédito: RJR)

No fim das contas, o plano de Hitler não só não deu em nada, como não é correto classificá-lo como uma medida altruísta em prol da saúde pública; ainda que ele fosse pessoalmente contra o cigarro, o regime nazista usou o movimento como desculpa para atacar, em outra frente, judeus e outros indesejáveis em defesa da raça ariana "pura e perfeita", e de um Reich que duraria mil anos, só que não.

Por outro lado, a indústria tabagista se aproveitou do fato e gastou muito dinheiro para promover o cigarro como saudável, um ato que custou inúmeras vidas ao longo dos anos, na base de desacreditar o inimigo por propor um hábito divergente (mal intencionado, mas ainda assim).

A História é cheia de nuances e detalhes, e pouca gente para e presta atenção nas entrelinhas, o que deveria ser o básico.

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