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China censura livro antes mesmo de ser publicado

Editor online bloqueia acesso de autora a texto com mais de 1 milhão de palavras, por conter conteúdo que a China considera ilegal

19/07/2022 às 10:50

Outro dia, outro caso envolvendo a China e controle de conteúdos gerados por usuários na internet. O mais recente, no entanto, levantou novas questões sobre até onde vai o vigilantismo online do governo: uma autora teve o acesso bloqueado a um romance que escrevia em um editor de texto online, após o serviço concluir que o manuscrito continha "conteúdo ilegal".

O que chama atenção é o fato que o texto nem sequer foi compartilhado com outras pessoas, ou sido publicado; ele permanecia privado, mas de acordo com as Leis de Cibersegurança da China, todo conteúdo online deve passar por escrutínio dos mantenedores e operadoras.

Autora teve acesso bloqueado a texto que editava online, por este conter conteúdo considerado ilegal pelo governo chinês (Crédito: tashatuvango/Depositphotos)

Autora teve acesso bloqueado a texto que editava online, por este conter conteúdo considerado ilegal pelo governo chinês (Crédito: tashatuvango/Depositphotos)

O caso aconteceu em junho de 2022, com uma romancista que usa o pseudônimo de Mitu. Ela usava a versão online do WPS, um software de edição de texto similar ao Microsoft Word, lançado originalmente em 1989 no território chinês, pela desenvolvedora local Kingsoft. Diferente do original, esta versão é mais similar aos programas baseados em nuvem disponíveis no ocidente, como as aplicações do Google e o Microsoft 365.

Mitu diz que o romance que escrevia já contava com mais de 1 milhão de palavras, e estava perto de concluir o trabalho quando, no dia 25 de junho, o WPS trancou o acesso ao documento online. A autora diz que a plataforma "detectou conteúdo ilegal" no texto, que fere a Lei de Cibersegurança vigente na China desde junho de 2017. O caso estourou quando foi compartilhado por um influenciador digital, no dia 11 de julho.

O Artigo 47 é explícito, plataformas e operadoras de internet são obrigados a "fortalecerem o gerenciamento de dados publicados por usuários", outra forma de dizer que eles devem monitorar constantemente o que é publicado, ou armazenado, em serviços e redes online. Caso qualquer conteúdo ilegal seja encontrado, os mesmos devem agir da forma que acharem melhor para eliminar a postagem, bloquear o acesso a ela, e/ou impedir sua disseminação.

Mitu acusa o WPS de "espiar e trancar o manuscrito", que segundo a autora, permanecia completamente privado, embora haja um detalhe: embora fosse a única editora, ela compartilhou o documento online com um editor em 2021, o que teria disparado o procedimento de checagem por parte da Kingsoft.

A empresa afirma que documentos armazenados localmente (offline) não passam por nenhum tipo de verificação ou busca por conteúdos sensíveis, mas os que são compartilhados através do serviço online do WPS  passam por checagem, em acordo com a Lei de Cibersegurança.

De acordo com um usuário do WPS, que deixou um comentário no perfil da empresa dedicada a suporte no Weibo, site de microblogging local equivalente ao Twitter, o ato de armazenar documentos nos servidores da Kingsoft não ativa a checagem; esta entra em ação apenas quando o autor cria um link de compartilhamento do mesmo.

O caso de Mitu tomou maiores proporções quando outros autores começaram a relatar experiências semelhantes. Em julho de 2020, um artista conhecido como Jianguo Xiongdi convidou o público a colaborar com um documento online, adicionando palavras e expressões consideradas tabus na internet chinesa.

A lista inclui citações óbvias como "independência do Tibete" e "Dalai Lama", bem como o nome do ativista oposicionista Liu Xiaobo (1955 — 2017), "Tiananmen", "4 de junho" e "tank man", todas ligadas ao Massacre na Praça da Paz Celestial, e referências jocosas ao premiê Xi Jinping, como "ursinho Pooh" e "baozi", outro de seus apelidos online. O documento, compartilhado na plataforma online Shimo, ficou no ar por quase 10 horas antes de ser atomizado.

No geral, o público está bem descontente com o que interpretam como "vigilância além da conta", mesmo para os padrões chineses, no que tange ao vigilantismo online do que os cidadãos escrevem e criam, mesmo em casos onde o conteúdo permanece privado. Embora os casos tenham sido disparados pela criação de links de compartilhamento, nada impede que as versões online do WPS e Shimo chequem periodicamente documentos salvos na nuvem, mesmo com o autor sendo o único usuário com acesso.

Mitu não disse se ela tinha ou não um backup offline do seu livro, mas dada a situação, é seguro dizer que a cópia bloqueada pelo WPS era a única existente, o que significa que um livro inteiro, não publicado, não só foi censurado como deixou de existir.

Contatada pelo site MIT Technology Review, a Kingsoft não comentou o caso.

Censura a temas sensíveis não mais se restringe às fronteiras da China (Crédito: U.S. Department of State)

Censura a temas sensíveis não mais se restringe às fronteiras da China (Crédito: U.S. Department of State)

China e a internacionalização da censura

Não é novidade que o governo da China vem apertando cada vez mais o cerco em torno do compartilhamento de informações e conteúdos online no país, mas nos últimos tempos, o país tem intensificado medidas para coibir, censurar e limitar a discussão de temas sensíveis fora de suas fronteiras, mesmo por quem não é chinês.

É fácil entender como isso é feito: a China é hoje uma das maiores potências econômicas do planeta, e detém contratos com inúmeras companhias do ocidente, que dependem de sua cadeia de suprimentos ou ecossistema de manufatura, extremamente barata e eficiente. Se alguém ligado a essas empresas faz publicamente uma declaração que desagrade Pequim, a retaliação virá na forma de ameaças a quebra de contratos, restrições de circulação de produtos no País do Meio, etc.

A Disney, por exemplo, é cheia de dedos ao abordar temas controversos em suas produções, embora recentemente a casa do Mickey tenha decidido bater o pau na mesa e comprar briga com o governo chinês, devido a uma cena de beijo LGBTQ+ em Lightyear, que o censor mandou remover. Por se recusar, o filme ainda não estreou na China, embora já tenha sido banido em 14 outros países pelo mesmo motivo.

Sobre a Disney, este é um caso recente, pois é bom lembrar que não só alguns assuntos foram podados em produções anteriores, como pôsteres com personagens negros foram alterados para divulgação no país, de modo a diminuir ou apagar sua presença, como Star Wars e Pantera Negra, embora este tenha sido criado para Hong Kong, antes da onda de protestos e conseguinte realinhamento da região semiautônoma à norma continental.

Poucos gostam de admitir isso, mas a China é bem xenófoba, basta observar as reclamações de parte do público de jogadores de Genshin Impact, devido à relutância da desenvolvedora Hoyoverse em adicionar personagens de cor, mesmo na próxima região de Sumeru, análoga à Índia e outros países do sudeste asiático. E quando inclui, o faz com decisões de design questionáveis.

Questões referentes à representação de conteúdos étnicos e LGBTQ+ não são os únicos assuntos espinhosos na China. Em 2019, a Blizzard suspendeu Blitzchung, jogador profissional de Hearthstone: Heroes of Warcraft, por comentários apoiando os protestos pró-Hong Kong. Na época, 5% da desenvolvedora pertencia à gigante Tencent.

O episódio atraiu muita repercussão negativa, mas no fim a Blizzard apenas reduziu a punição, não a suspendeu, para não desagradar à China, um de seus maiores mercados.

Ainda em 2019, o gerente do Houston Rockets Daryl Morey colocou a NBA em maus lençóis, pelo mesmo motivo de Blitzchung. Não só a Tencent, também patrocinadora, tirou o suporte ao time, no que ele teria sido obrigado pela liga a se desculpar publicamente.

Já em 2021, outro rolo com a NBA envolveu o jogador suíço-americano de origem turca Enes Kanter Freedom, notório crítico de governos autoritários, principalmente China e Turquia. Após chamar Xi Jinping de "ditador brutal", levando à total censura de jogos do Boston Celtics em que estava escalado, ele também teria sido "aconselhado" pela liga a pedir desculpas por suas declarações, o que se recusou a fazer.

Freedom hoje é persona non grata na NBA; sua presença em tela significa prejuízo, visto que ele foi banido de aparecer na mídia da China, logo, nenhum time o quer.

Enes Kanter Freedom se recusou a pedir desculpas por críticas à China; como resultado, acabou fora da NBA (Crédito: Reprodução/ESPN/Disney)

Enes Kanter Freedom se recusou a pedir desculpas por críticas à China; como resultado, acabou fora da NBA (Crédito: Reprodução/ESPN/Disney)

Como a China não pode impor censura a temas espinhosos diretamente, ela o faz por parceiros comerciais de companhias ocidentais, sob a alegação de que cidadãos de outros países fazem comentários "que ameaçam a segurança nacional" e as diretrizes do Partido Comunista, que devem ser defendidas (e divulgadas) além das fronteiras. Vide o TikTok, cujas postagens podem ser lidas por funcionários chineses, e o WeChat, que baniu usuários no ocidente por comentários anti-China em conversas.

Membros do Congresso dos Estados Unidos criticaram duramente empresas e ligas que censuraram conteúdos e usuários no país, de modo a não desagradar à China, e não prejudicarem seus negócios. A recente "rebelião" da Disney tende a ser um caso isolado, visto as consequências impostas pela NBA a Freedom, afinal no fim do dia, é tudo sobre dinheiro.

A China tem grana de sobra para quem segue sua cartilha, mas quem cometer um deslize será cortado fora, como já vimos várias vezes. E não importa quem você seja, ou em que lugar do mundo esteja.

Fonte: MIT Technology Review

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