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FromSoftware e os autores de livros como forma de marketing

Após ter George R.R. Martin no Elden Ring, a FromSoftware gostaria de trabalhar com Brandon Sanderson. Porém, qual o real benefício dessas parcerias?

18 semanas atrás

Conseguir “recrutar” alguém como George R.R. Martin foi uma das maiores façanhas da FromSoftware durante o desenvolvimento do Elden Ring e ao que tudo indica, o estúdio japonês gostou da ideia de ter autores famosos colaborando em seus projetos.

Elden Ring- FromSoftware

Crédito: Divulgação/FromSoftware

Ao menos é isso o que garante Brandon Sanderson, que ao realizar uma transmissão ao vivo recentemente, revelou que a Bandai Namco o chamou para criar um título no futuro. O convite feito pela editora do Elden Ring veio com diversos produtos de divulgação para o jogo e sobre a possibilidade desta parceria, o autor afirmou:

Eles estão interessados em talvez fazermos algo juntos [...]. Eu também estou, na verdade. É assim que funciono: na verdade, tenho um argumento para eles no fundo da minha mente, então poderei lhes mandar o argumento e ver o que pensam.

Eu sempre tenho um argumento para tudo. Tipo, ‘se for fazer um jogo no estilo Souslborne, o que eu poderia fazer?’ Vocês sabem o que aconteceu quando pensei ‘o que eu faria se fosse escrever uma história para o Magic: The Gathering?’ Eu passei quatro anos desenvolvendo uma história para o Magic: The Gathering, então, quando a Magic entrasse em contato comigo e dissesse ‘ei, quer escrever uma história?’ Eu poderia dizer ‘sim, eu já escrevi uma e irei escrevê-la! E eu o fiz.

Da mesma forma, eu estive pensando ‘o que eu poderia fazer se criasse um jogo Souslborne?’ Obviamente eu não decidirei isso, certo? Mas tenho no fundo da minha mente, então talvez vocês ouçam algo de mim. Eu tenho algumas ideias, eu sempre tenho ideias.

Dedicado a histórias de fantasia e ficção científica, entre os trabalhos mais famosos de Sanderson estão as séries de livros Mistborn e The Stormlight Archive. Ele também ficou conhecido por substituir Robert Jordan ao finalizar a série A Roda do Tempo, após este falecer em 2007.

Crédito: Divulgação/FromSoftware

O detalhe é que o convite a Brandon Sanderson pode não ter sido tão aleatório quanto parece, já que em janeiro o autor foi duro ao criticar a escolha de George R.R. Martin para participar da criação do Elden Ring. Durante uma sessão de perguntas e respostas com fãs, ele deu a seguinte declaração:

Deixe-me demonstrar minha frustração! A FromSoftware decide fazer um jogo de fantasia, faz parceria com um romancista de fantasia e escolhe alguém que passa o dia blogando sobre a NFL, em vez da pessoa que jogou seus jogos desde o King’s Field e listou seus jogos como os favoritos no top 10 consistentemente ao longo do tempo.

O que vocês estão pensando, gente!? Se vocês não sabem, eles foram até o George R.R. Martin e fizeram um jogo com ele. Eu fiquei tipo, ‘O George não joga videogame! O George não tem ideia.’

Tanto o convite para participar de um futuro jogo quanto os presentinhos enviados a Sanderson podem ter sido apenas maneira da assessoria de imprensa da Bandai Namco fazer um agrado ao autor, mas não duvido que tal abordagem tenha interesses reais. Com o Elden Ring a FromSoftware descobriu o impacto que um nome famoso pode ter na divulgação e se não for o criador de Mistborn, acho provável que outro seja atrelado em um próximo projeto.

Esta é uma estratégia que considero muito interessante, principalmente pelo seu potencial para melhorar bastante o enredo dos jogos. O problema é que no caso da FromSoftware, tenho minhas dúvidas sobre como essa parceria poderia ser efetivamente aproveitada no conteúdo do jogo e é a última criação do estúdio me faz pensar assim.

Quando foi anunciado que George R.R. Martin participaria do projeto, pressupus que ele teria liberdade para desenvolver suas ideias, mas não é exatamente isso o que vimos no jogo. Com a sua narrativa um tanto obscura funcionando de maneira muito parecida com outros títulos da linha Souls, em Elden Ring temos que nos esforçar bastante para tentar entender o que está acontecendo em seu mundo, sendo que muitas vezes aprendemos mais lendo a descrição de um item do que através de diálogos ou cenas não interativas.

Elden Ring- fromSoftware

Crédito: Divulgação/FromSoftware

Em entrevista concedida ao The New Yorker, o diretor Hidetaka Miyazaki admitiu ter imposto algumas barreiras à liberdade criativa de Martin, cabendo-lhe criar a apenas a história de fundo e não o roteiro como um todo. Desta forma, restou ao americano que ficou conhecido por As Crônicas de Gelo e Fogo criar os personagens, a ambientação e a mitologia daquele universo, para assim o game designer desenvolver a história e sua jogabilidade.

Nos nossos jogos, a história precisa sempre servir à experiência do jogador,” declarou Miyazaki. “Se [o Martin] tivesse escrito a história, eu ficaria preocupado que poderíamos nos distanciar dela. Eu queria que ele pudesse escrever livremente e não se sentisse restringido por alguma mecânica obscura que poderia ter que mudar durante o desenvolvimento.

Essa é uma boa justificativa, mas após passar algumas horas no Elden Ring e constatar que o jogo poderia muito bem se chamar Dark Souls 4 ou até “Dark Souls: Breath of the Wild”, ainda me pergunto qual foi a verdadeira contribuição de George R.R. Martin. Ao celebrar o seu lançamento e a maneira como o título estava sendo aclamado, o autor chegou a admitir que sua participação foi pequena e que quase todo o crédito deveria ser dado a Miyazaki e sua equipe.

Portanto, mesmo com o game designer tendo comparado a ajuda de R.R. Martin a seguir um dungeon master em um RPG de mesa, creio que, no fundo, tudo não passou de uma grande jogada de marketing, uma maneira de mostrar ao mundo que a FromSoftware era capaz de trazer para os games um nome tão pesado quanto o do criador do Game of Thrones.

Com isso não quero dizer que o jogo seja ruim, pelo contrário, tem sido fantástico conhecer seu vasto mundo e ver como existem segredos espalhados por quase todo lugar. Porém, devido à participação de Martin, eu realmente esperava encontrar no Elden Ring uma história cheia de reviravoltas, com uma trama intrincada e personagens muito mais complexos do que aqueles com diálogos tão vagos.

Crédito: Divulgação/FromSoftware

Talvez o erro aqui tenha sido meu, ao não perceber previamente que o estilo de narrativa de Miyazaki nunca combinaria com o de George R.R. Martin e por ter sido inocente ao ponto de pensar que o game designer renunciaria a algo que se tornou sua marca registrada.

Mas tenha sido por convicção ou por puro ego, como diretor do jogo ele está no seu direito de cria-lo como bem entender e desde que as partes aprovem isso antecipadamente, não acho que seja errado recorrer a esta estratégia de marketing. Eu apenas não criarei expectativa em relação a uma mudança no estilo de narrativa nos jogos da FromSoftware quando futuras parcerias surgirem.

Fonte: PlayStation LifeStyle

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