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Martha is Dead e o horror nas entranhas da Segunda Guerra

Nos levando para a bucólica região da toscana, Martha is Dead é um jogo de terror que não tem medo de abordar diversos assuntos bastante sensíveis

48 semanas atrás

Com tantos jogos sendo lançados todas as semanas, é possível que a criação de um estúdio italiano independente passasse despercebida por boa parte dos jogadores. Porém, Martha is Dead acabou recebendo um apoio de um lugar inesperado, uma censura imposta pela fabricante do PlayStation que fez com que o bom jogo chamasse a atenção mesmo daqueles que não gostam de terror.

Martha is Dead

Crédito: Divulgação/LKA

Com sua história se passando no ano de 1944, nela seremos Giulia, uma adolescente filha de um general alemão e que vive numa fazenda na região da toscana, Itália. Embora tenha uma vida tranquila no campo, com o cargo de seu pai servindo para proteger a família e garantir toda a mordomia que a maioria das pessoas não teria em tempos de guerra, a situação da garota logo mudará completamente.

Apaixonada por fotografia, Giulia costumava espalhar câmeras pela floresta próxima de sua casa com o intuito de capturar animais que viviam por lá. Num certo dia, ao sair pela manhã para recolher os filmes ela percebe uma silhueta no lago e ao se aproximar, constata se tratar de um corpo. Para desespero da protagonista, o cadáver é de sua irmã gêmea, a garota que dá nome ao título.

Como o que acontece logo a seguir é um dos momentos mais importantes da trama, não estragarei a surpresa de quem for jogar, me limitando a dizer que a cena dará início a uma série de eventos trágicos e bizarros.

Também vale dizer que a morte daquela garota terá um enorme impacto na família e para Giulia, ele será ainda pior. Filha de um pai que está quase sempre ausente e de uma mãe abusiva, o assassinato despertará a instabilidade mental da protagonista e muito do que veremos durante o jogo será uma mistura de situações reais, pesadelos e alucinações.

As agruras da jogabilidade

A principal ferramenta de Giulia (Crédito: Divulgação/LKA)

Martha is Dead pode ser descrito como um adventure em primeira pessoa, mas também como um walking simulator mais interativo do que a maioria dos títulos desse gênero. Em boa parte do tempo apenas iremos de um lugar para o outro enquanto ouvimos Giulia tecendo os mais variados comentários.

Eventualmente teremos a oportunidade de investigar alguns objetos, atitude essa que ajuda a tornar aquele mundo muito mais rico ou termos que realizar atividades que servirão para avançarmos na história. Isso pode ser uma sequência de fuga onde precisaremos apertar algum botão na hora certa ou tirar fotos de uma determinada cena.

Geralmente tudo funciona como minigames, com o principal deles girando em torno do principal passatempo da protagonista. Isso porque as fotos que tirarmos precisarão ser reveladas e para isso precisaremos nos dirigir a um quarto localizado no porão da casa e realizar diversos procedimentos para termos as imagens no papel.

No início essa mecânica é muito interessante, nos colocando para definir o foco da imagem e esperar pelo momento certo para tirar a foto do líquido utilizado para revelação. Porém, mesmo com o processo sendo bastante simplificado em relação a o que temos mundo real, logo ele se mostra entediante e como teremos que repeti-lo diversas vezes, a ideia do pessoal da LKA não se sustenta.

O mesmo acontece com o ato de tirar fotos, pois apesar de termos uma série de dispositivos para serem utilizados, como lentes infravermelhas, um tripé ou um flash, eles poucos acrescentam a jogabilidade. Normalmente teremos apenas que definir o foco, a exposição a que o filme será submetido e depois voltar até o porão para revelar a imagem.

É possível que a desenvolvedora tenha optado por manter essa estrutura para nos mostrar as dificuldades encaradas por aqueles que viviam antes da metade do século XX. Isso pode ser visto quando precisamos decifrar e enviar mensagens usando uma máquina de telegramas ou no simples ato de telefonar para outras pessoas. Ainda assim, o que parece boas ideias num primeiro momento infelizmente podem estragar a diversão para alguns.

Some a isso um controle um tanto duro e fica a sensação de que por mais aterrorizantes que várias cenas de Martha is Dead possam ser, algumas pessoas poderão ter pesadelos é com a pouca fluidez da sua jogabilidade. Isso se torna ainda pior no Xbox One X, onde o desempenho do jogo é muito ruim, com a taxa de frames oscilando demais, chegando afetar diretamente a experiência. Ao testá-lo no PC a situação foi amenizada, embora também tenha notado algumas travadas aqui ou ali.

Recriação histórica

Martha is Dead, um show de atenção aos detalhes (Crédito: Divulgação/LKA)

Mas se existe um aspecto de Martha is Dead que merece todos os elogios, é a sua direção artística e o cuidado do estúdio ao recriar a época em que a história se passa. Com uma qualidade visual que se aproxima do fotorrealismo, é fácil acharmos que estamos andando por aquela antiga casa, com cada cômodo estando repleto de objetos característicos do período.

Algo que também ajuda a aumentar essa impressão é a fantástica trilha sonora, com músicas típicas tocando no rádio e constantes avisos falando sobre o que está acontecendo na guerra. Outra boa escolha do pessoal da LKA foi incluir dublagem em italiano e para quem gosta de se sentir o mais imerso possível dos universos propostos pelos jogos, é altamente recomendável jogar dessa maneira.

Outro detalhe incluído pelos desenvolvedores é o jornal disponível a cada novo dia. Nele podemos ler algumas notícias sobre a situação da Europa conforme o conflito se aproxima do fim, assim como a repercussão da morte da filha de uma figura tão importante para a região. É uma espécie de missão paralela que pode ser ignorada, mas que adiciona mais realismo à história principal e como ela pode durar apenas cinco horas, toda maneira de enriquecê-la deve ser comemorada.

A polêmica causada pelo horror

Martha is Dead

Giulia e sua irmã, Martha (Crédito: Divulgação/LKA)

Poucos dias antes de ser lançado, os desenvolvedores do Martha is Dead revelaram que, a pedido da Sony, algumas cenas presentes no jogo teriam que ser alteradas. Mesmo com a produção tendo passado anteriormente pela avaliação do órgão de classificação etária dos Estados Unidos, a empresa japonesa acreditava que o conteúdo poderia ser muito forte para seus consumidores.

Aquilo deu início a um acalorado debate sobre o que deveria ou não ser utilizado em um jogo de terror, mas sem que maiores detalhes sobre as mudanças que seriam feitas, era difícil saber quem tinha razão nessa história.

Sem querer entrar muito em detalhes, até para não entregar algumas passagens marcantes do jogo, o que posso dizer é que enquanto no PC e nos consoles Xbox o jogo está disponível como seus criadores o pensaram, no PlayStation 4 e PlayStation 5 algumas cenas deixaram de ser interativas, tendo havido ainda a remoção de menções a masturbação.

Além disso, nos consoles da Sony teremos um aviso mais claro sobre o que podemos esperar antes de iniciarmos a jogatina, com as versões para esses aparelhos nos dando a opção de jogarmos com uma censura ainda mais pesada, em que as tais cenas sem interação são totalmente removidas.

Na minha opinião, como existe essa possibilidade de evitarmos as passagens em que a empresa considera muito pesadas, não acho correto eles não nos permitirem experimentar o título da maneira original. Obviamente a Sony está no seu direto —  “meu jogo, minhas regras” — então cabe ao consumidor decidir se ainda assim vale a pena investir na compra nessas plataformas.

O fato é que mesmo sem essas cenas ou com elas estando presentes de forma não interativa, Martha is Dead não é uma experiência recomendável a qualquer um. Sua história é pesada, a violência gráfica é explicita e muitas pessoas poderão ficar bastante incomodadas com diversas situações.

Eu prefiro não mencionar que tipo de conteúdo está presente nele, pois sei que alguns podem servir como gatilho. O que você precisa saber é que o pessoal da LKA não aliviou na utilização de temas delicados e se o aviso presente no início da história for ignorado, o jogador poderá se arrepender e ser exposto a cenas bastante perturbadoras. O problema é que aí terá sido tarde demais.

A minha curiosidade é em saber se o Martha is Dead será jogado por um número suficiente de pessoas a ponto de seu conteúdo ser amplamente debatido. Alguns poderão julgar que a sua abordagem a temas sensíveis passou do ponto, outros argumentar que ele até levou a mídia a um nível mais alto, mas dado seu ritmo lento e a própria natureza bastante pesada da sua história, desconfio que muitos nem terão estômago para conhecer este bom jogo de terror.

Martha is Dead — Ficha Técnica

  • Plataformas Disponíveis: PC, PlayStation 4, PlayStation 5, Xbox One, Xbox Series S|X.
  • Desenvolvedora: LKA
  • Distribuidora: Wired Productions
  • Data de lançamento: 24/2/22

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