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Ghostwire: Tokyo e as deliciosas excentricidades dos jogos japoneses

Com o lançamento do Ghostwire: Tokyo se aproximando, está na hora de tentar entender como a Tango Gameworks chegou a um jogo tão... diferente

26 semanas atrás

Quando o Japão ainda respondia como o centro da indústria de games, nos habituamos a experimentar algumas inusitadas ideias propostas pelos criadores locais. De encanadores que dobravam de tamanho após comer cogumelos a um emulador de LSD, as “viagens” propostas pelos japoneses eram comuns. Mas se essa aceitação ao diferente se perdeu um pouco com o tempo, em breve o Ghostwire: Tokyo deverá nos puxar com toda força para um universo que só poderia ser criado por desenvolvedores daquele lado do planeta.

Ghostwire: Tokyo

Crédito: Divulgação/Tango Gameworks

De Raccoon City ao mal interior

Mas antes de falar sobre a estranha proposta que o novo jogo da Tango Gameworks deverá nos entregar, é preciso voltar às origens do estúdio, ou ainda melhor, da pessoa que fundou a desenvolvedora, Shinji Mikami.

Quando criança Mikami tinha como sonho se tornar um piloto de Fórmula 1 e além desse desejo, ele alimentava uma paixão por filmes de terror. Então, após se formar na faculdade e em 1990 ser contratado pela Capcom, o jovem passou alguns anos trabalhando em jogos baseados em franquias da Disney, como Goof Troop e Aladdin. A grande guinada na sua carreira só aconteceria em 1996, quando ele garantiria seu lugar na história ao lançar o primeiro Resident Evil.

O sucesso daquele jogo abriu muitas portas para o game designer, com vários grandes projetos passando pelas suas mãos nos anos seguintes. Entre eles estava um dos jogos mais fascinantemente estranhos da sexta geração de consoles, o Killer7. Embora o título tenha sido dirigido por Goichi Suda, Mikami assinaria o projeto como produtor executivo e roteirista, o que serve para demonstrar um pouco da sua mente fora do comum.

Aquele título parece ter servido para despertar toda a criatividade do artista, levando-o a dirigir um projeto que dividiria opiniões, mas que com o tempo se tornaria um clássico cult, o God Hand. Contando com personagens e situações bastante exageradas, aquele beat 'em up conquistou alguns admiradores justamente por não esconder suas origens, lembrando ao mundo como eram os antigos jogos criados no Japão.

Crédito: Divulgação/Clover Studio

Contudo, devido ao fechamento do Clover Studio pela Capcom, em 2006 o game designer decidiu fundar a PlatinumGames e graças a uma parceria com a Sega, diversos jogos seriam produzidos pela empresa. Entre as criações surgidas daquele estúdio — e que carregavam consigo muito da cultura (e esquisitices) japonesa — tivemos, por exemplo, o MadWorld, Bayonetta, Anarchy Reigns, The Wonderful 101, Nier: Automata e Vanquish, apesar de Shinji Mikami só ter participado diretamente deste último.

Ele ainda aproveitaria sua amizade com Goichi Suda para dar vida a outro título repleto de ideias pouco usuais. Lançado pela Electronic Arts, Shadows of the Damned nos colocava na pele de Garcia Hotspur, um mexicano caçador de demônios que está tentando salvar sua amada. Embora tivesse suas falhas, o jogo agradava justamente por fugir do lugar-comum, misturando brilhantemente os distintos estilos de duas lendas do game design.

Mas apesar de vir colecionando jogos elogiados por vários anos, parte dos fãs clamavam por um retorno de Mikami às origens e em 2014 aconteceu justamente isso. Com The Evil Within ele voltava a nos oferecer um título focado no terror e mesmo com o título apresentando um estilo muito mais “ocidental” do que os trabalhos mais recentes do game designer, a atmosfera pesada e as criaturas que encontramos pelo caminho não escondiam a influência da cultura japonesa. Aquele título ainda receberia uma continuação alguns depois, mas ao que tudo indica, será apenas agora que a Tango Gameworks conseguirá expor todo o talento do estúdio.

Caçando fantasmas numa Tóquio moderna

Crédito: Divulgação/Tango Gameworks

Dirigido por Kenji Kimura e tendo Shinji Mikami como produtor executivo, tenho que admitir que ver um pouco do Ghostwire: Tokyo em uma apresentação fechada para imprensa me causou uma mistura de sentimentos. Por um lado, fiquei imediatamente fascinado pela maneira como o jogo traz muito do folclore japonês para os dias atuais, com a moderna capital japonesa parecendo o lugar perfeito para encararmos uma experiência paranormal. Por outro, como não levar um baque ao constatar o quão diferente dos títulos ocidentais aquele jogo se parece?

Ghostwire: Tokyo nos colocará na pele de Akito, um rapaz que precisará utilizar superpoderes adquiridos após um evento misterioso que aniquilou quase toda a população da cidade. Tendo que lidar com monstros que passaram a rondar o lugar, essa já seria uma abordagem bem diferente do que poderíamos esperar para a maioria dos jogos, mas a coisa ganha outra proporção ao olharmos para a sua jogabilidade.

Com toda a ação se passando em primeira pessoa, de acordo com o diretor de combates do Ghostwire: Tokyo, Shinichiro Hara, a ideia era fazer com que as lutas funcionassem como uma mistura de karatê com magia, o que foi batizado como “as artes místicas da Tecelagem Etérea” e para isso eles recorreram ao Kuji-kiri. Utilizados em algumas vertentes do budismo e no ninjutsu, esses movimentos feitos com as mãos possuem diversos significados e no jogo serão utilizados para desferirmos golpes nos espíritos e monstros.

Com os confrontos lembrando um bizarro balé, observar o protagonista lutando é como estarmos diante de um Doutor Estranho que usa a arma de prótons dos Caça-Fantasmas, com as “cordas de energia” lançadas pelas suas mãos servindo para capturar os inimigos. É inusitado, é surreal, mas inegavelmente é uma mecânica que chama nossa atenção justamente pela criatividade e por funcionar muito bem.

Ghostwire: Tokyo

Crédito: Divulgação/Tango Gameworks

Mas enquanto as lutas e história pareceram os pontos altos do Ghostwire: Tokyo, ao menos por enquanto não posso dizer o mesmo da exploração. Vendo a demonstração feita pela Tango Gameworks, tive a impressão de que o jogo poderá se tornar repetitivo com o passar do tempo, com o ato de irmos até os portais Torii para purificar uma região não parecendo o suficiente para nos manter motivados a continuar jogando.

Que pese a favor da desenvolvedora a belíssima recriação de Tóquio e a promessa de que teremos muitos segredos para descobrir, além de diversos personagens com histórias interessantes para nos contar. Isso poderá fazer com que o progresso da aventura seja mais que apenas um passeio pela cidade e que ocasionalmente acabará sendo interrompido por algum combate. Também, por se tratar de um jogo de mundo aberto, Ghostwire: Tokyo deverá nos permitir avançar pela história no nosso próprio ritmo, algo que é obviamente impossível de saber apenas assistindo uma demonstração guiada.

Por tudo isso, não chega a surpreender o showcase apresentado pelo pessoal da Tango Gameworks ao público ter parecido muito mais dinâmico (e até mais divertido) do que o evento fechado à imprensa. A minha torcida é para que a impressão não muito positiva deixada inicialmente não se concretize e que o jogo se mostre tão empolgante quanto o que pode ser visto no vídeo abaixo.

Com seu lançamento estando previsto para 25 de março, Ghostwire: Tokyo terá versões para PC e PlayStation 5. Ainda é um pouco cedo para termos certeza, mas considerando o histórico das pessoas envolvidas em seu desenvolvimento, talvez estejamos perto de experimentar não só um dos melhores jogos de 2022, mas também um dos mais diferentes, criativos e (por que não?) bizarros dos últimos anos.

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