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As perturbadoras repercussões de ressuscitar uma menina morta

Tudo começa com uma menina morta ressuscitada via realidade virtual, mas as consequências filosóficas disso são além da imaginação.

17 semanas atrás

A idéia de ressuscitar os mortos, ao menos de forma metafórica não é nova, na ficção ela acontece desde sempre, de Orfeus, que foi até o Submundo atrás de sua amada Eurídice, aos contos de fadas, quando um beijo de um príncipe traria uma princesa de volta dos mortos, e nas versões mais recentes temos Caprica, a série que conta a origem dos Cilônios no universo de Battlestar Galactica.

Caprica tem uma grande semelhança com o acontecido recentemente na Pior Coréia, quando uma menina morta foi ressuscitada virtualmente, e sua mãe a reencontrou.

O encontro ocorreu em um programa de TV apropriadamente chamando "Encontrando você", e se a idéia toda soa apelativa e de mau gosto, ela é mas isso não importa. A menina de 7 anos, morta, foi recriada em realidade virtual, com aparência, voz e capacidade de interação.

Jang JiSung, a mãe, usou óculos especiais, luvas com sensores interativos e por dez minutos brincou e conversou com a filha, Na yeon, que muito, muito provavelmente estava sendo interpretada por uma atriz usando um traje de captura de movimentos. A mãe sabia que era um "truque", que não era a filha de verdade, mas... e daí?

A imagem da menina morta ainda é tosca, fica bem no fundo do Vale da Estranheza, mas é só uma questão de tempo para conseguirmos gerar em tempo real imagens fotorealistas indistinguíveis do mundo real. Em alguns casos já conseguimos, vide os efeitos visuais do Mandalorian.

Essa tecnologia em nada é diferente do que vemos fazendo nos últimos 100 mil anos; manter viva a memória dos mortos. Fazemos isso com estátuas, com mumificações, criando mitos de espíritos que habitam objetos inanimados, incorporando os mortos no dia-a-dia. No México os mortos são honrados não só em seu Dia, mas todos os dias, é comum as casas terem um altarzinho, aonde imagens de santos se misturam com as de parentes falecidos.

De novo: Esse comportamento não tem nada de novo. Os romanos transformavam alguns parentes mais importantes falecidos em espíritos protetores, uma espécie de deus domiciliar. Esses deuses domésticos tinham um altar próprio, eram relembrados e adorados diariamente. Eram os ancestrais, honrados através de gerações.

O nome dos altares dessas divindades era... Lararium. Os deuses domiciliares que protegiam seus descendentes que moravam sob aquela casa se chamavam... Lares. Eram tão fundamentais na cultura romana que o termo "Lar" em português descende diretamente de Lar, divindade doméstica. Uma casa é apenas uma casa, uma casa cuidada e protegida por um parente morto devidamente amado e lembrado, é um lar.

Lembrar dos entes queridos que se foram é algo fundamental para nossa espécie. Erguemos estátuas, pintamos quadros, inventamos a Arte.

40 mil anos atrás, no que viria a se tornar Lascaux, França, um homem, um caçador Cro-Magnon morreu tentando levar comida para casa. Ele foi morto por um bisão. Um de seus amigos, talvez querendo perpetuar a curta existência do companheiro, desenhou o momento de sua morte na parede de uma caverna.

Cada um, de acordo com suas capacidades e posses, tenta perpetuar os falecidos, seja a pintura na caverna, seja uma estátua dos pais, tornados deuses pessoais, como mostrado em Gladiador (o nome dessa categoria de deuses era... Parentes) seja com o Taj Mahal.

Quando a tecnologia tornou isso possível, a fotografia se popularizou rapidamente como forma de criar um memento mori, uma lembrança da morte. Na Inglaterra Vitoriana, com a deliciosa mortalidade infantil do Século XIX, as famílias faziam fila para que suas crianças fossem fotografadas depois de mortas, mas em poses "normais". Hoje é algo que parece macabro e despropositado, mas era um esforço final para passar uma ilusão de normalidade, um último momento de vida para o falecido.

Para muitas famílias, principalmente as mais pobres, era a única foto que tinham do falecido, fotografia ainda era caro demais, e mesmo quem tinha dinheiro não contratava fotógrafos toda hora. Fotografar os mortos era um esforço monumental, mas que todos achavam valer a pena.

Por milênios as memórias dos mortos foram passadas somente por tradição oral. Com a invenção da escrita, idéias e pensamentos puderam ser eternizados. Hoje conseguimos ler mensagens do dia-a-dia de habitantes da antiga Mesopotâmia. Os mortos agora tinham suas histórias escritas em barro, depois em pedra.

Quando os gravadores portáteis foram inventados, passamos a ser capazes de preservar a voz de nossos parentes. Inúmeras pessoas deixaram fitas com mensagens para filhos e parentes, mensagens essas que são guardadas como verdadeiros tesouros.

Hoje temos mensagens em vídeo, copiadas e guardadas com carinho, e em pelo menos um caso especial um usuário do Slashdot (acho) conta que tirou o XBox do armário, foi jogar um jogo de corrida e reparou que havia um carro-fantasma, era o pai, há muito falecido. Ele estava jogando contra o pai (nada sobrenatural, não-gamers, é uma feature de jogos de corrida) e nunca superou o escore, para sempre que sentisse saudade, poder correr com o pai.

Usar tecnologia de realidade virtual para simular um ente querido falecido é algo inevitável. Inicialmente teremos os filmes não-interativos, prevejo que em breve a mesma tecnologia usada para criar deep fakes será usada para gerar simulações tridimensionais, com o usuário podendo passear virtualmente dentro de uma cena. Isso já foi usado em vários filmes (Minority Report ou Eu, Robô, qual tinha a filha morta?).

O próximo passo é a criação de personagens virtuais, usando gravações e vídeos do falecido, para que ele interaja de forma simples, uma versão em realidade virtual dos quadros de Hogwarts, mas o passo mais assustador virá quando o que foi feito com atores e de forma limitada na Coréia atinja seu potencial.

Em Caprica Zoe Graystone morre em um atentado terrorista, mas antes disso ela estava trabalhando em um avatar especial, usado em um mundo virtual acessado através de Holobands. Imagina uma mistura de Matrix com Ready Player One.

Normalmente as pessoas acessavam com avatares normais, mas Zoe criou uma simulação de si mesma, um bot que pensa que é a própria Zoe. Ela é uma construção baseada nas memórias, vídeos, gravações, lembranças da verdadeira Zoe, e aí começa a discussão filosófica. Quando uma simulação deixa de ser uma simulação?

Hoje temos tecnologia de inteligência artificial, redes neurais, deep learning capaz de feitos assustadores. O funcionamento é "simples".  Você não pode criar informação do nada, mas você pode chutar. Uma rede neural faz um monte de chutes, escolhendo os que se encaixam melhor. Por exemplo: Se você vê metade de um rosto escondida por um poste, há boa chance de haver outra metade do rosto ali. Claro, o sujeito pode ser caolho, mas o bom-senso diz que se duplicar e inverter a metade existente, tem uma aproximação do rosto.

Aqui um uso dessa tecnologia: É um filme de Lumiere, Arrival of a Train at La Ciotat, feito em 1896.

Aqui o mesmo filme, depois de ser processado por uma rede neural que através de bilhões de operações transformou o original em um filme com 4K de resolução, 60 frames por segundo:

Existe um trabalho em redes neurais aonde você entra um texto de um autor, ele é processado e reescrito no estilo de outro autor. Sinistro o bastante? Eu acho.

Do mesmo jeito que sistemas especialistas recebem toneladas de dados e passam a analisar e resolver problemas da mesma forma que humanos, uma rede neural alimentada com tudo que uma pessoa produziu, todos os filmes fotos e áudios que ela publicou, todos os comentários que fez, todos os materiais de terceiros falando dela, seu histórico acadêmico e profissional, essa rede neural pode chegar a uma boa aproximação do modo de pensar dessa pessoa.

Será uma forma de inteligência artificial? Tecnicamente não, uma rede neural não "pensa". Talvez nem mesmo seja possível um dia um computador pensar, autores como Miguel Nicolelis e Roger Penrose entendem a mente humana como um problema não-computável, outros acham que é um problema que pode ser resolvido por outros meios.

Se a mente não for computável, ainda assim teremos simulações em realidade virtual no estilo de um Holodeck em Star Trek, com os entes falecidos em uma situação determinada, trabalhando dentro de parâmetros e reagindo da forma com que esperamos que eles reajam.

Faz realmente diferença pra uma filha, sozinha e deprimida, se é IA Real ou não se de qualquer jeito ela consegue conversar com a mãe morta, numa sexta-feira chuvosa, desabafando seus problemas, pedindo conselhos e ouvindo uma boa aproximação do que a mãe realmente diria naquele momento?

Redes Neurais funcionam por força bruta, mas como Dr Banner e Ben Grimm nos ensinaram, às vezes força bruta é uma boa solução. Descrever para um computador como criar um rosto humano é uma tarefa impossível, são centenas de milhares de pequenas regras. Já com redes neurais você consegue que ele deduza os resultados dessas regras. É tipo o João Grilo, "Não sei, só sei que foi assim".

Com isso fazemos o impossível, como criar rostos de pessoas que não existem. O site "This person does not exist" faz exatamente isso. A cada reload, cria um rosto novo, que nunca existiu nem existirá de novo.

Com essas redes poderemos além dos parentes falecidos, criar pessoas virtuais completas e com elas viver novas situações. A patroa deu férias e você quer realizar o sonho de levar sua mãe na Disney? Possível. Aquela viagem dos sonhos que o acidente envolvendo sua noiva e uma motoniveladora não deixou acontecer? Pode ser realizado.

O Risco

Como toda tecnologia, há o risco de abuso, mas no caso o abuso é psicológico. A idéia de usar Realidade Virtual para reviver memórias, reencontrar parentes falecidos é muito boa, mas deve funcionar como parte do trabalho de aceitação da morte do falecido. Infelizmente o mais provável é que essa tecnologia se torne uma muleta.

Não duvido que muita gente vá viver dentro das simulações, preferindo o convívio com uma cópia imperfeita, a aceitar a perda e seguir adiante. Toda uma série de problemas psicológicos surgirão por causa das simulações de parentes mortos, e isso se estenderá para outros cenários.

Um dos vídeos mais tristes que já vi foi sobre sujeitos que "casam" com bonecas Real Doll. Não digo os pervertidos, que compram bonecas de japinhas ou loiras pneumáticas, falo dos sujeitos que não conseguem desenvolver relacionamentos com pessoas, e para combater a solidão compram as bonecas e as tratam como namoradas e esposas, fazendo jantar para elas, levando para passear, conversando com elas por horas.

Se você acha isso triste, imagine quando esse pessoal puder criar uma persona virtual, se alienarão completamente da raça humana. E sim as bonecas são laváveis.

O Problema Mais Ético Ainda

Aqui já partimos pra ficção científica.

Durante o episódio Second Chances, da 6a Temporada de Star Trek: A Nova Geração, um acidente de teletransporte duplicou o Comandante Riker. Ele foi transportado para a Enterprise mas uma cópia foi refletida para a superfície do planeta. Os dois eram virtualmente idênticos ao nível molecular, então qual era o verdadeiro Riker? Os dois eram, mas um ser humano é mais do que seu cérebro. Além da estrutura física, somos moldados por nossas experiências, nossa vivência e nossas memórias.

Do momento em que a cópia foi criada, eles começaram a divergir, e a cópia mais tarde se uniu aos terroristas Maquis, algo que o Riker normal não faria, ou faria se tivesse as mesmas experiências.

Is good to be Number One.

Se a mente humana for um problema computável, e puder ser simulada adequadamente em computadores, teremos um snapshot da mente de uma pessoa armazenada em um emulador, não mais um simulador. Se não houver complexidade quântica envolvida na mente, como propõe Penrose, não faz diferença se um neurônio dispara uma sinapse real ou se é um neurônio virtual copiando a complexidade de um cérebro duplicado célula a célula.

Aí temos a grande questão, que foi discutida n'O Homem Bicentenário: Quando um Homem deixa de ser um Homem? Quantos órgãos podemos perder sem perder nossa Humanidade? Implantes para curar Parkinson e Alzheimer estão já na esquina. Se tudo der certo, teremos primeiro as próteses, depois tecnologia que melhorará nosso cérebro. As lembranças de sua infância existindo em um chip de grafeno (eu falei que era ficção científica, grafeno saiu do laboratório) são menos válidas do que existindo em um grupo de células interligadas?

Se seu cerebelo for danificado e substituído por um cerebelo artificial, você é menos humano?

A progressão é que se for possível, chegaremos a um cérebro 100% artificial, com todas as memórias e caminhos neurais do cérebro real. Não há dúvidas que o "de verdade" é o real, mas e se você se comunicar com aquele cérebro artificial através de um telefone, uma mensagem de texto ou por carta? Se não for capaz de determinar que está falando com um cérebro artificial, ele não é uma pessoa de verdade?

Parabéns, você acaba de entender o Teste de Turing.

Se uma pessoa morre e deixa uma versão de seu cérebro rodando em um computador, com todas as suas memórias, pensamentos, personalidade, essa pessoa morreu realmente? Como ficam as questões legais, as propriedades, patentes, responsabilidades, relacionamentos?

Agora imagine que em um futuro distante (tipo uns 20 anos) alguém perde um ente querido, e inconformado, gasta uma fortuna recolhendo dados, escaneando o cérebro do falecido, criando uma versão em software do cérebro daquela pessoa, que agora existe em um ambiente virtual, mas com seus pensamentos e memórias.

Qual a condição legal de uma pessoa virtual que é indistinguível de uma mente real, em determinado momento de sua vida? Quais os efeitos psicológicos dessa pessoa descobrir sua condição? Como você reagiria se descobrisse que alguém que gosta muito te recriou num computador e agora você está vivendo uma nova vida?

Eu, pessoalmente, ficaria decepcionado. Ao menos poderia saber kung fu.

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