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Resenha: Superman: Red Son - Acabaram com o sonho do comunismo

Superman Red Son é uma animação com o raro e estranho atributo de ser muito boa para quem não conhece a história e decepcionante para quem leu o original.

26/02/2020 às 20:52

Red Son, que no Brasil ganhou o pitoresco título "Superman entre a foice e o martelo" é uma excelente mini-série em quadrinhos que virou uma animação da Warner, que como todos sabemos ou erram muito ou acertam muito, em geral caindo para a segunda opção. Desta vez o resultado vai depender do observador.

Quem conhece a história original, resenhada aqui, vai sair decepcionado. Quem nunca leu o quadrinho, terminará gostando bastante da animação. Curioso, né? Continue lendo e entendera.

Ah sim:

<BLINK>SPOILERS ADIANTE</BLINK>

SINOPSE:

(leia o artigo anterior mesmo)

O conceito do Superman crescer na Ucrânia, sob o comunismo soviético, se tornando um fiel servo do Estado por si só é excelente, e abre altas discussões filosóficas, sobre como o poder absoluto corrompe mesmo uma criatura essencialmente moral como o Superman, e Lex Luthor cria uma utopia não por gostar do povo, mas para derrotar o comunismo soviético viabilizado pela existência de Kal-El.

O filme faz um bom trabalho em apontar que o ocidente capitalista não foi competente em cuidar dos menos favorecidos, mas o comunismo aonde dissidência era crime capital e não havia liberdade também não era a resposta. Infelizmente isso tudo fica meio superficial, por falta de vontade dos autores em cortar uma ou outra cena de ação em prol do diálogo.

O grande problema dessa adaptação é esse, a simplificação. Vários personagens foram cortados, e como veremos mais tarde, o final não existe, embora termine de forma satisfatória para quem não leu o original de Mark Millar, quem leu vai ficar com cara de bunda "como assim acabou?"

Vejamos algumas dessas modificações:

O Batman

No quadrinho Bruce Wayne (ou melhor, seu equivalente soviético) é filho de dissidentes políticos que protestam contra Stalin, e obviamente são perseguidos por Pyotr Roslov, chefe do NKVD, a agência antecessora da KGB, responsável por assassinatos políticos, gulags, censura, espionagem interna e todo tipo de maldade que Tio Joseph adorava. Roslov mata os pais de Bruce, que o olha com ódio, sendo nascida aí a fagulha que geraria o Batman.

No filme o Superman descobre as atrocidades de Stalin e investiga um gulag subterrâneo, entre os prisioneiros um garoto, com os dois pais mortos. O garoto cheio de ódio diz para Superman "Dizem que você pode ouvir uma folha caindo a 1000Km, mas não ouvia nossos gritos?" com direito a morceguinhos ao fundo. Uma origem muito fraca para o Batman.

Stalin

Aqui, outra simplificação. No original Superman só descobre as atrocidades de Stalin depois que ele morre envenenado, Kal-El é praticamente empurrado para a presidência, ele não quer o poder. Na versão animada, talvez para manter a imagem de bom-moço do personagem, Lois Lane dá a Kal-El um dossiê com a verdade sobre Stalin. Os dois se confrontam, Stalin diz que Superman precisa entender que para o sistema funcionar, algumas pessoas precisam morrer.

"Sábias palavras", diz Kal-El antes de matar Stalin.

Sim, Superman mata Stalin. Parece ser mais palatável do que ele ter ignorado décadas de atrocidades, mas isso apenas enfraquece o personagem, que também de forma bem pouco característica, imediatamente assume o poder. Em uma cena digna do General Zod, quando os guardas e o principal general de Stalin entram e percebem o que aconteceu, todos se ajoelham diante de Kal-El.

Superman vs She-Ra?

A Rainha Hypolita foi cortada, a única amazona da história é Diana, que é, como no original capturada por Batman e usada em um plano para tentar aprisionar Superman, plano que termina com a morte de Batman e Diana se ferindo gravemente, ficando com cabelos brancos. Mais tarde ela aparece em uma batalha aonde no original deveria enfrentar Kal-El, aliada a Luthor, mas apenas declara neutralidade.

Presidente Luthor

No quadrinho Superman Red Son Lex se elege Presidente em meio a uma imensa crise econômica, as últimas duas democracias do mundo são os EUA e o Chile. Luthor bola um plano de recuperação econômica brilhante, fecha a economia, tornando o país autossuficiente. Em um mês  a qualidade de vida dobra e o mundo passa a ver os EUA como uma alternativa, sem o totalitarismo soviético, que não admite opiniões contrárias e teve os Gulags de Stalin substituídos por uma cirurgia cerebral que reprogramava os dissidentes em cidadãos leais ao Estado.

Luthor é bem menos genial no filme, não fica claro que tudo fazia parte de um plano de mais de quarenta anos para derrotar o Superman.

Presidente Luthor passando o cargo para o Vice-Presidente James Olsen. Sim, isso é pura ficção. Os EUA nunca elegeriam um presidente careca.

Kandor e Brainiac

Nas duas versões Brainiac encolhe Stalingrado, que Luthor usa para chantagear Superman, que acaba invadindo os EUA junto com Brainiac, devidamente lobotomizado, apenas para se voltar contra Superman. A diferença é que na versão animada Brainiac destrói Stalingrado, Superman e Luthor se aliam e Kal-El acaba se sacrificando para salvar a Terra.

No quadrinho Red Son Luthor está aprisionado por Brainiac, Superman prestes a invadir a Casa Branca, quando Lois Lane, a Primeira-Dama sai com uma carta de Luthor para Superman. É o grande momento, quando ele percebe que apesar das boas intenções não era em nada diferente dos inimigos que tanto odiava.

Na animação Brainiac admite que estava manipulando Kal-El todos esses anos, e explica didaticamente tudo. Ao invés de uma percepção pessoal, Superman apenas ouve que estava errado. De novo, ficou... fraco.

Final? Que Final?

Superman e Luthor atacam Brainiac, que é destruído mas aciona sua autodestruição, Superman leva a nave de Brainiac para o espaço profundo, ela explode e nunca mais se escuta falar de Superman. O Presidente Luthor renuncia, após anunciar que os Estados Unidos irão abraçar o povo soviético e ajudá-lo a sair de sua crise econômica. Lois olha para a platéia e por um momento parece ter visto um sujeito de sobretudo muito parecido com Superman. THE END.

COOOOOMO ASSIM?

Exato, crianças. A animação acaba ali.

No quadrinho Luthor estuda as idéias de Superman e Brainiac, aproveita várias, cura doenças, estende a expectativa de vida da humanidade, elimina pobreza, fome, miséria, cria um modelo econômico que não é capitalismo nem comunismo, mas Lutherismo, e morre com mais de 800 anos de idade. Seus descendentes são igualmente geniais, a Terra conquista o Sistema Solar, o planeta é uma utopia, até que milhões de anos no futuro, um descendente de Alexander L. Luthor, Jor-L, também cientista tenta alertar que o Sol, agora uma gigante vermelha, corre risco de virar uma nova.

Ninguém acredita, a sociedade perfeita é acomodada e não acredita em mudanças. Como forma de salvar seu filho e mudar o futuro da Terra, Jor-L manda seu único filho em uma nave temporal para a Terra do passado, e o pequeno Kal-L pousa em 1938, na Ucrânia.

NADA DISSO ACONTECE NA ANIMAÇÃO.

Eles basicamente refilmaram O Império Contra-Ataca e tiraram a parte em que Luke descobre ser filho do Vader. Eles sumiram com a cereja do bolo.

Sim, a proposta de Red Son era "O que aconteceria se o Superman fosse comunista?" e eles entregaram, mas abriram mão do epílogo que transformou uma boa história em um épico. É uma decisão sem-sentido, quase do nível da imensamente questionável inclusão de um romance basicamente incestuoso entre a Batgirl e o Batman, na versão animada do Dark Knight, de Frank Miller. DESNECESSAURO.

Calma, há coisas boas

O prólogo, com o jovem Kal-El na Ucrânia não existe nos quadrinhos. Vemos sua amizade com Svetlana, uma óbvia mas não usada nos quadrinhos variação do nome de LANA Lang, e quando mais tarde Superman a encontra no Gulag, seu crime conhecer quem Superman era antes da fama, torna seu reencontro muito mais forte, e logo em seguida ela morre, talvez o momento em que o limite foi ultrapassado.

Lois Lane tem muito mais agência, participando ativamente de vários momentos, inclusive a denúncia dos crimes de Stalin, algo que também ficou melhor. Superman é essencialmente BOM, ele não seria cúmplice do Holodomor e tantos outros genocídios. Ele ser ativamente mantido no escuro não funcionaria por muito tempo, e o dossiê (preparado por Lex) adiantou o inevitável.

Em um momento de deliciosa ironia, em Berlim, 1961 o Ocidente constrói um muro para tentar impedir o avanço do comunismo, e Superman destrói o Muro, com direito a "TEAR DOWN THIS WALL!" e tudo.

Conclusão

Essa enorme e desnecessária resenha foi feita alternando entre dois pontos de vista, e é realmente confuso. Me colocando no lugar de quem não leu Superman Red Son, eu vejo uma boa e instigante peça dramática, com momentos bem fortes, excelente diálogo e animação bem melhor que o irregular traço da mini-série original, e recomendo, bastante.

Por outro lado, conhecendo o original confesso que fiquei decepcionado. Faltou o principal, em minha opinião. Faltou a surpresa, faltou o ciclo se fechando.

Cotação:

2/5 Super-comunistas pra quem leu o quadrinho

4/5 Super-comunistas pra quem não leu o quadrinho

 

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