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Donald Trump vs. Indústria de games

Após dois ataques com armas nos Estados Unidos, o presidente Donald Trump voltou a colocar a culpa nos games e membros da indústria trataram de se defender.

07/08/2019 às 10:15

No final de semana passado os Estados Unidos foi novamente alvo de dois atiradores, um na cidade de El Paso, Texas; outro em Dayton, Ohio. As tragédias resultaram em 31 mortos e mais de 50 feridos, mais uma vez trazendo à tona o debate sobre o que faz com que tantos ataques assim aconteçam no país. Pois Donald Trump aproveitou para eleger os seus culpados.

Donald Trump

Além de mirar nas mídias sociais e nos problemas mentais, o presidente mais uma vez colocou os jogos eletrônicos como um dos principais responsáveis pelas atrocidades que tem sido cometidas no seu país. Ele disse:

Nós precisamos interromper a glorificação da violência na nossa sociedade. Isso inclui os macabros e medonhos videogames que agora se tornaram comuns. É muito fácil hoje em dia para uma problemática mente jovem se cercar com uma cultura que celebra a violência. Nós precisamos parar ou reduzir substancialmente isso e precisa começar imediatamente.

Além da sua conhecida repulsa contra os videogames, algo que pode ter incentivado Donald Trump a citá-los abertamente foi uma mensagem deixada no fórum 4chan por Patrick Crusius, o atirador de El Paso. Em um tópico onde pessoas criticavam os hispânicos que moram no Texas, o sujeito deixou um conselho antes de cometer o crime em uma loja do Walmart. Na mensagem ele dizia: “Não ataquem áreas fortemente protegidas para satisfazer suas fantasias de super-soldados do CoD. Ataque alvos com pouca segurança.

A referência ao Call of Duty, uma das séries de jogos de tiro em primeira pessoa mais famosas do planeta, obviamente caiu como um presente para parte da mídia (e de políticos) que adora usar bodes expiatórios para qualquer tragédia que aconteça, especialmente num país onde é tão fácil adquirir armas de grosso calibre. Como os defensores das vendas dessas armas sabiam que seriam questionados, nada melhor do que tentar desviar o foco dos debates.

World Warriors 3: Nuclear Conflict

Chegava então a hora dos envolvidos com a criação de games se defenderem e um dos primeiros comentários partiu da Electronic Software Association (ESA), organização que representa várias editoras e desenvolvedoras. Um trecho do comunicado emitido por eles ficou do lado dos jogos e colocou em dúvida a sociedade americana.

Conforme compartilhamos no encontro na Casa Branca em março de 2018, vários estudos científicos estabeleceram que não existe uma conexão causal entre os videogames e a violência. Mais de 165 milhões de americanos jogam videogame e bilhões de pessoas jogam videogame em todo o mundo. Ainda assim, outras sociedades onde os videogames são jogados tão avidamente não contam com o trágico nível de violência que ocorre nos Estados Unidos.

Este por sinal tem sido um argumento muito utilizado por aqueles que não concordam com a ideia de culpar os jogos eletrônicos. Para essas pessoas, se os videogames estão servindo para distorcer a mente dos jovens e espalhar o conceito de culto à violência, então porque não vemos esse tipo de ataque acontecer frequentemente em outros países?

Essa defesa ganha força com os números relacionados aos ataques em massa ocorrido nos Estados Unidos este ano. De acordo com um levantamento feito pelo Gun Violence Archive, ao todo esses atentados resultaram em 273 mortes, com 1.067 feridos. A estimativa é de que por lá existam 393 milhões de armas, com algo entre 32% e 42% dos americanos vivendo numa casa em que haja ao menos uma delas.

Mas seja lá quem estiver certo neste embate, quem usou de argumento parecido para criticar a fala de Donald Trump foi Strauss Zelnick, CEO da Take-Two Interactive, mesma empresa responsável por uma das franquias mais controversas da indústria, a Grand Theft Auto.

Estamos simplesmente enojados e tristes por estas tragédias sem sentido. Isso dito, culpar o entretenimento é irresponsável. Mais do que isso, é altamente desrespeitoso com as vítimas e com as suas famílias. O fato é que o entretenimento é consumido mundialmente, mas a violência com armas é exclusivamente americana. Então nós precisamos resolver os problemas reais.

Vale citar no entanto que essa caça aos games não é exclusividade do atual presidente americano. Desde o início dos anos 90 a mídia vem sendo perseguida por políticos do país, mas raras foram as vezes que vimos essas pessoas dedicadas a encontrar uma solução que não fosse proibir a criação de jogos violentos ou tentar desmerecer a indústria como um todo.

Mas no fim das contas, o pior de tudo é sabermos que por mais que os lados tentam encontrar as motivações, as vítimas continuarão aparecendo — principalmente — nos Estados Unidos, com esse tipo de ataque indiscriminado acontecendo constantemente e obviamente, com ou sem a existência dos videogames.

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