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Vichnaya Pamyat, Chernobyl, Episódio 5 – Resenha (com spoilers)

O último episódio da série Chernobyl nos leva até os momentos antes do acidente, ao julgamento dos responsáveis e acima de tudo, a busca pela verdade.

15 semanas atrás

No quinto e último episódio de Chernobyl temos uma visão do que motivou o acidente nuclear em si, e também o julgamento de alguns dos responsáveis pela explosão. Assim como as minhas primeiro quatro resenhas, esse post está cheio de spoilers então prossiga com cautela se não tiver visto o episódio.

O episódio começa mostrando a vida normal em Pripyat na véspera do acidente, com filhos felizes com seus pais, a cidade toda repleta de flores, a piscina pública, todos os habitantes tocando suas vidas. É perturbador ver esses momentos lúdicos de Pripyat e pensar nas imagens reais da cidade abandonada que ela se tornou.

Dois personagens da série aparecem em destaque, Lyudmilla, a esposa do bombeiro Vasily Ignatenko e Dyatlov, que está indo para uma reunião com Fomin e Bryukhanov, que já conhecemos pelas suas canalhices mostradas nos dois primeiros episódios. Antes da reunião, Fomin conta a Dyatlov que se tudo der certo, seu cargo ficará vago, ele demonstra interesse na posição.

Na cena do encontro vemos um dos ingredientes do desastre, a política e as ambições dos envolvidos por promoções e uma vida melhor. Bryukhanov quer que o teste seja bem sucedido para conseguir uma promoção e quem sabe, ir para Moscou, o que vai liberar seu cargo para Fomin, e o dele para Dyatlov.

Como Craig Mazin conta no podcast da série (que pra mim é parte da experiência de Chernobyl), Dyatlov estava cansado de trabalhar na usina e queria assumir uma posição de gestão, ou seja, se tornar o chefe atrás de uma mesa de escritório e não mais da mesa de controle, e assim trabalhar menos e ganhar mais.

Por causa de um pedido do controlador de energia de Kiev, o teste previsto para tarde é transferido para a noite, e Bryukhanov pergunta a Dyatlov se a meia potência o reator não teria problemas de estabilidade, o que nos mostra que ele tinha uma vaga noção de que poderia acontecer algum problema, mas o cientista responde que não tem, e que irá supervisionar pessoalmente o teste, que ele será terminado de qualquer forma.

Nós espectadores já sabemos que o reator RBMK tem um erro de projeto, que dependendo das condições da usina, pode transformar o botão de cancelamento do procedimento em um gatilho para uma explosão, mas Dyatlov e seus dois chefes patetas não sabiam disso. Depois da reunião, Fomin continua na sala, imaginando que já é o seu novo dono, e ele se sente confortável o suficiente para ficar parado na frente do mural pintado na parede, mas não para efetivamente se sentar na cadeira de Bryukhanov. A atuação do ator Adrian Rawlins é digna de aplausos, você sente a mediocridade do seu personagem em cada segundo que ele passa na tela.

A série então nos leva a Moscou em março de 1987, quase um ano depois do acidente. Legasov é levado para um encontro com Charcov, o chefe da KGB, no qual recebe o agradecimento e a promessa de que irá ganhar um cargo e o título de “herói da União Soviética” por ter feito o jogo de cena pedido por eles na conferência de Viena, e não ter falado nada sobre a falha de projeto dos reatores RBMK.

Ao ser questionado por Legasov sobre a necessidade de tomarem as medidas necessárias para tornarem os reatores seguros, algo que não foi feito até aquele momento, Charcov responde com uma das frases mais emblemáticas do episódio: “primeiro o julgamento. Depois de concluído teremos nossos vilões, nosso herói e nossa verdade.”

A próxima cena mostra Legasov em seu apartamento, que já conhecemos do primeiro episódio, A decisão do roteirista Mazin foi não mostrar esse lado, mas o cientista na verdade tinha uma família e uma filha. Vemos que Legasov já está lidando com queda de cabelo, um dos sintomas da doença que iria matá-lo, caso ele não fizesse isso antes. Ele recebe a visita de Ulana personagem fictícia que como sabemos, foi criada para representar todos os outros cientistas envolvidos com a resolução dos efeitos do acidente.

Ela está ali para cobrar Legasov de uma posição firme com relação ao erro de projeto dos reatores, principal causa do acidente, apesar dos inúmeros erros humanos na noite do dia 26 de abril. Ulana conta a Legasov que o julgamento terá um júri formado por cientistas, e pede a ele que ele se manifeste, mostrando a lista de mortos por causa do acidente.

A próxima cena acontece dois meses depois, e se passa em Chernobyl, onde aconteceu o julgamento, por mais surreal que isso pareça hoje em dia. O motivo é que na União Soviética, cada crime precisava ser julgado na comarca na qual tinha acontecido, então lá se foram eles tomar mais algumas doses de radiação.

Na história real, o primeiro sarcófago ao redor do reator tinha sido concluído no final de 1986, mas isso não é mostrado nesse episódio, que é um pouco frustrante, mas entendo os motivos do roteirista, que quis se dedicar mais aos personagens do drama. Vou falar mais sobre isso adiante nesse post, mas por enquanto, vamos falar sobre as cenas no tribunal.

O julgamento durou meses e Shcherbina não estava presente, mas foi adaptado para se tornar mais efetivo na série. Apesar dessa licença poética do roteiro, todas as descrições do acidente são reais, assim como as intervenções e defesas de Dyatlov.

Já no começo da cena, vemos que Ulana segue olhando para Legasov, para que ele se manifeste sobre o problema dos reatores. Ele dá uma olhada para o júri formado por cientistas. O promotor do caso é Andrei Stepashin, vivido pelo ator Michael McElhatton (nosso velho conhecido como Lorde Bolton de Game of Thrones), que pede a Shcherbina para explicar o que aconteceu.

Enquanto Shcherbina faz sua apresentação usando uma maquete da usina, vemos que ele está tossindo muito, o que mostra que assim como Legasov, ele também está doente. Shcherbina basicamente explica os motivos para o teste de segurança, e coloca a culpa nos responsáveis pelo teste, os réus Bryukhanov, Fomin e Dyatlov.

Ulana Khomyuk é a próxima a depor, e ela conta que para entender o que aconteceu, é preciso voltar 10 horas antes do acidente, que é exatamente o que o episódio faz, em cenas impressionantes. Ela explica que a ligação do controlador de energia de Kiev para os políticos, que atrasou o teste em mais 10 horas, foi o primeiro momento crítico que levou ao acidente, dizendo que um gerenciamento competente teria insistido em cancelar o teste, mas os três homens sendo julgados deixaram ele prosseguir.

Ulana diz que o adiamento gerou dois problemas, um de natureza científica, e outro, muito humano, a troca de turno da meia-noite na usina. A série então embarca em flashbacks da noite do acidente, mostrando a chegada de Toptunov (Robert Emms), que nós vemos que precisa lidar com o bullying dos seus colegas de trabalho por ser tão jovem para a posição.

Ele encontra Akimov (Sam Troughton) na sala de controle, e os dois olham para o manual de operações do teste de redução com várias instruções riscadas. A surrealidade da situação é mostrada nos olhares dos atores, até a chegada de Dyatlov, que mostra sua habitual falta de paciência com seus comandados, além da sua profunda incompetência.

Ulana conta que o turno da noite não tinha sido treinado para realizar o teste, e sequer tinha sido avisado que ele iria acontecer. Toptunov, que era o responsável por controlar e estabilizar o reator, tinha 25 anos, e só 4 meses de experiência no cargo.

Para falar sobre o outro problema causado pelo adiamento do teste, ela chama Legasov, que faz uma apresentação mostrando os motivos pelos quais o reator acabou explodindo, e mostra em um painel os passos necessários para reduzir a reatividade com as hastes de controle, mantendo o reator funcionando de forma segura. Não vou entrar em detalhes, mas tudo fica muito bem explicado no episódio.

Legasov conta que não é preciso ser um cientista para entender o que aconteceu em Chernobyl, pois na essência só acontecem duas coisas dentro de um reator nuclear, a energia sobe ou desce, e tudo que os controladores fazem é manter o equilíbrio. É interessante ver detalhes como o personagem derrubando uma das placas, e também o soldado que ajusta o microfone, essas coisas dão a sensação de realmente estarmos no julgamento.

Em mais um flashback da noite fatídica, vemos que Toptunov está reduzindo a potência do reator de forma progressiva, enquanto é incentivado por Akimov e pressionado por Dyatlov, que acredita que os dois estão enrolando.

Essas cenas nos dão mais uma mostra da profunda incompetência do responsável pela usina, e é profundamente perturbador que a série nos mostre esse momento exato. A partir daí, as decisões de Dyatlov só pioram a situação, assim como a sua insistência em continuar o teste de qualquer forma. Quando Akimov pede para ele assinar um documento com a sua ordem, ele joga a prancheta longe.

Sim, o episódio finalmente nos mostra as motivações de Dyatlov, mas saber delas só torna seu comportamento ainda mais execrável. O ator Paul Ritter mais uma vez dá um show, e torna seu personagem mais abjeto do que nunca nesse episódio.

O cúmulo da cara de pau é que Dyatlov diz que não estava presente na sala no momento em que aumentaram a potência, mas graças as entrevistas feitas por Ulana com os todos os funcionários presentes na sala de controle mostram que ele estava sim lá.

Durante um recesso, vemos uma conversa com tom de despedida entre Legasov e Shcherbina, na qual Boris conta a história trágica de Chernobyl, com a morte de seus habitantes judeus e poloneses na segunda guerra, e mostra ao seu amigo com um lenço ensanguentado que também está doente.

Shcherbina diz a Legasov que acredita ter desperdiçado sua vida por nada, mas seu amigo dá a ele a sua real importância para que o problema tenha sido lidado da forma que foi, mostrando a Boris que na verdade ele foi um herói, e não um vilão na história, pois conseguiu tudo que eles pediram, homens, materiais, até rovers lunares.

É bem tocante esse momento entre os dois personagens, e além do roteiro excepcionalmente bem escrito, muito dos méritos são do desempenho de Jared Harris e Stellan Skarsgård, dois grandes atores.

A cena termina de forma singela com uma lagarta que subiu na calça de Shcherbina, e esse momento serve para mostrar como o personagem está emocionalmente e fisicamente destruído, mas por conta das palavras do seu amigo, ainda consegue enxergar a beleza da vida ao seu redor. Um belo momento de redenção desse excelente personagem.

Ao voltarem para o julgamento, Legasov dá uma olhada para o júri, e parece estar se decidindo se irá contar a verdade ou não. Seu depoimento nos leva novamente para a noite de 26 de abril, com as peças sendo colocadas no tabuleiro que irá levar ao desastre. Legasov conta ao júri que Dyatlov não se importava com os resultados, só queria apresentar o relatório de que o teste teria sido completo para os seus superiores.

Sua narração nos leva a dois minutos antes do acidente, com funcionários que estavam perto do reator na hora da explosão, Yuvchenko, no seu escritório, Perevozchenko está na sala de combustível (em cima da cobertura de aço do reator, que pesa mil toneladas) e Degtaryenko e Khodemchuck, que estão na sala de bombas.

Enquanto Legasov vai apresentando os personagens, ele explica ao júri que nenhum deles foi avisado sobre o teste, e tem a menor noção do que vai acontecer, mas os sinais mostrados em cena já deixam claro que a explosão é iminente. Toptunov vê um relatório do computador que recomenda que o reator seja desligado pela ausência de hastes de controle, ele passa isso a Akimov, que leva o relatório para Dyatlov, mas ele ignora o que está na frente, e prossegue com o teste.

A potência do reator começa a subir, mas desta vez não existem medidas para contê-la. Legasov então explica a existência do botão de cancelamento do teste, e Dyatlov se manifesta, falando que Legasov sabe de algo, mas não está se pronunciando.

Quando a sessão está prestes a ser interrompida, Shcherbina se levanta e pede para deixarem Legasov terminar. É aí que ele conta a verdade sobre a falha de projeto, e explica que apesar de Dyatlov ter quebrado todas as regras e ter forçado o reator a funcionar em uma situação extrema, tudo teria sido resolvido caso o botão AZ-5 tivesse funcionado.

Quando o botão finalmente é apertado, e as hastes de boro são acionadas, as suas pontas eram feitas de grafite, e isso acaba gerando a explosão do reator, pelas condições extremas que tinham sido criadas pelas próprias ordens de Dyatlov.

Ao ser perguntado o motivo pelo qual as pontas serem feitas de grafite, a resposta de Legasov é fantástica: “pela mesma razão pela qual nossos reatores não contam com estruturas de contenção como os do ocidente, pela mesma razão pela qual não usamos combustível corretamente enriquecido em nossos núcleos, pela mesma razão que somos a única nação que constrói reatores refrigerados à água e moderados por grafite com um coeficiente de vazio positivo: é mais barato”.

A descrição de Legasov nos leva para momentos antes da explosão, quando Perevozchenko vê algo impossível na tampa de aço do reator, as hastes de controle e tampas dos canais de combustível estão subindo e descendo, apesar de pesarem cada uma 350 kg. Ele corre para avisar a sala de controle, mas já tarde demais.

A última leitura indica que o reator quatro que tinha sido criado para operar a 3200 megawatts atinge mais de 33 mil megawatts. O episódio nos mostra então o momento exato da explosão da tampa, 1:23:45. Com a entrada de oxigênio, ele se mistura ao hidrogênio e ao grafite superaquecido.

Aí temos todos os ingredientes para o acidente, nas palavras de Legasov, “a cadeia do desastre está completa.” A cena da explosão mostra os mortíferos pedaços de grafite voando e se posicionando nos telhados e no entorno da usina, mostrados nos outros episódios.

Legasov diz que seu depoimento em Viena foi uma mentira, e que ele não foi o único a manter esse segredo, que eles estavam cumprindo ordens da KGB, do Comitê Central, e existiam 16 reatores na União Soviética em funcionamento, três deles ali do lado, na própria Chernobyl.

A próxima cena mostra Legasov sendo levado por agentes da KGB pra um encontro forçado com Charcov, que diz a ele que ele não é nenhum herói, e que no momento em que uma bala acertar seu crânio, ninguém vai perguntar o motivo para suas ações.

Apesar da ameaça, o líder da KGB diz que Legasov não será morto, pois como ele é conhecido ao redor do mundo, por causa de seu depoimento em Viena, isso seria constrangedor, mas seu destino será ainda pior, já que seu legado será passado para outros cientistas, e ele basicamente será apagado. Legasov se mantém fiel aos seus amigos, e defende Shcherbina e Ulana, dizendo que nenhum dos dois sabia o que ele iria dizer em seu depoimento.

A série então termina e nos mostra com fotos originais dos personagens, além da explicação sobre como Ulana Khomyuk foi criada para representar todos os cientistas que trabalharam com Legasov. Vemos também o atual sarcófago, que tem duração de 100 anos, e terá que ser refeito no futuro.

Pra mim fica o sentimento de que a série merecia mais um episódio para mostrar a construção do sarcófago original ao redor dos destroços do núcleo, mas como disse lá no começo do texto, entendo bem os motivos do criador da série para focar na força dos personagens.

Pra quem estiver curioso, a construção do sarcófago durou um ano, e segundo relatos, todos os trabalhadores morreram em menos de um ano. Pra quem quiser ver imagens do sarcófago original como esta acima, recomendo esse post, e também o documentário da BBC Horizon Inside Chernobyl's Sarcophagus (1996), que só achei com qualidade sofrível, mas que é bem interessante mesmo assim.

Além do sarcófago, também ficou fora da série o Pé de Elefante, duas das coisas mais icônicas do acidente de Chernobyl pra muita gente (incluindo eu). Essa notoriedade talvez explique o motivo para terem ficado de fora da série, além é claro dos custos que acrescentariam ao seu orçamento.

Pata de Elefante de Chernobyl (Getty Images)

Mas o que é a Pata de Elefante? Trata-se de uma lava de cório que foi formada em um corredor de distribuição de vapor durante o acidente, e ainda segue bastante radioativa até hoje, sendo considerada a massa mais tóxica do mundo. Só existem duas fotos conhecidas dela, e os dois malucos que as tiraram morreram não muito tempo depois.

Além de ter compartilhado suas referências em uma thread no Twitter, Craig Mazin também liberou o download de todos os roteiros de Chernobyl, que são excelentes. O curioso é que no roteiro do terceiro episódio vemos a descrição de uma lava radioativa sendo formada (a Pata de Elefante), mas por algum motivo, essa cena acabou não entrando no corte final.

Estes dois detalhes pra mim fizeram muita falta, e certamente dariam mais um episódio perfeito, mas não chegam a comprometer a série em si. Chernobyl cumpre muito bem seu papel tanto como série dramática, como um aviso para que a humanidade tenha mais cuidado com suas escolhas. Vale lembrar que a série não se fecha em si mesma, ela é complementada pelo podcast. Assim que acaba o episódio (e a série), a vontade é voltar a assistir imediatamente o primeiro episódio, já que eles estão totalmente conectados.

Para terminar minha última resenha sobre essa série incrível, queria citar a frase final de Legasov no julgamento: “cada mentira que contamos gera uma dívida com a verdade. Cedo ou tarde, essa dívida deve ser paga. É assim que o núcleo de um reator nuclear RBMK explode. Mentiras.”

Confira todas as nossas resenhas de Chernobyl:
1:23:45
Please Remain Calm
Open Wide, O Earth
The Happiness of All Mankind

Também sugiro a leitura destes posts aqui no MB:
29 anos depois, a vida animal está voltando a Chernobyl
Visite Chernobyl com a ajuda da realidade virtual

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