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1:23:45, Chernobyl, Episódio 1 – Resenha (com spoilers)

Nesta resenha falamos nossas impressões sobre o piloto da série Chernobyl (HBO e Sky), um retrato fantástico e assustador do terrível acidente nuclear de 1986

16 semanas atrás

Estou adorando a série Chernobyl (uma produção original da Sky e HBO), que é definitivamente uma das melhores coisas que vi na TV nos últimos anos, e une uma produção incrível com uma história real de horror e também aproveita pra mostrar como as coisas funcionavam (ou melhor, não funcionavam) na antiga União Soviética quando aconteceu o terrível acidente no dia 26 de abril de 1986, na Usina Nuclear de Chernobyl em Pripyat, Ucrânia.

Pôster de Chernobyl

As minhas lembranças do acidente são de um bom tempo depois disso, pois os soviéticos esconderam o acidente nuclear pelo maior tempo que podiam, e mostrar esse lado da história é um dos grandes trunfos da minissérie, que foi criada e escrita por Craig Mazin, mais conhecido como roteirista e produtor de comédias despretensiosas como Se Beber Não Case, Parte II.

Não se engane pelo seu passado, pois em Chernobyl ele resolveu ser muito mais ambicioso, tanto no roteiro, quanto na produção da série e conseguiu criar algo realmente único. De certa forma, Chernobyl até parece uma tragicomédia de erros em boa parte do seu episódio piloto, nomeado simplesmente 1:23:45, que como você pode imaginar, foi a hora exata do acidente, registrada no relógio da usina de Chernobyl.

A maneira como Mazin conta a história de um ponto de vista diferente, mostrando o impacto do acidente nas vidas das pessoas envolvidas é bem eficaz e emocionante. Nada disso funcionaria sem ótimos atores, que falam inglês, mas isso de forma alguma atrapalha o envolvimento dos espectadores com a situação absurda e irreal com a qual eles estão lidando.

Comandando o elenco temos um trio de atores bem afiado, Jared Harris como Valery Legasov, Emily Watson como a cientista bielorussa Ulana Khomyuk e um Stellan Skarsgård irreconhecível como Boris Shcherbina, chefe do comitê indicado por Mikhail Gorbachev para tratar do assunto.

Skarsgård e Watson não aparecem no primeiro episódio, mas são bem importantes na série. Aqui vale citar que Ulana não é baseada em uma pessoa real, e sim em vários cientistas envolvidos com o acidente e, segundo Mazin, a personagem também serve para mostrar que naquele momento da União Soviética, existiam muitas mulheres que trabalhavam com ciência e medicina.

A trama do episódio

No começo do piloto, vemos Legasov, o físico nuclear que liderou a investigação sobre o acidente, exatos dois anos depois da noite fatídica, gravando a última de uma série de fitas com a sua conclusão sobre tudo o que aconteceu. Quanto termina de gravar a última, ele junta todas as fitas, as embrulha em jornal e barbante e coloca dentro de um balde, e sai pela rua, procurando despistar o agente da KGB que está de plantão na porta da sua casa. Legasov deixa o pacote escondido em uma ruela para que alguém que ele tinha avisado as encontre, e volta para casa.

Ao entrar no seu apartamento, ele deixa alguns dias de comida para o seu gato, e quando ele termina de fumar um último cigarro, vemos que o lenço está sujo de sangue, ou seja, vemos que ele está doente. Legasov então comete suicídio, e o diretor nos mostra o relógio com a mesma hora de 1:23, e não por acaso, a mesma hora do acidente nuclear, dois anos antes. Isso já mostra o quanto o desastre na usina vai impactar a vida não só dele, mas de todos os envolvidos.

Depois desse prólogo, a série volta para momentos antes do acidente, quando a esposa de um dos bombeiros ouve a explosão ao longe, de dentro do seu apartamento, e depois vê com seu marido o temível espetáculo visual proporcionado pelo acidente nuclear. Essa família será impactada diretamente pelo que aconteceu.

Paul Ritter e Robert Emms em cena do piloto de Chernobyl

A próxima cena mostra o interior da usina, com Anatoly Dyatlov, engenheiro vice-chefe da Usina Nuclear e supervisor responsável na noite do acidente, vivido com maestria pelo ator Paul Ritter. Ao ser informado por um funcionário de que o núcleo do reator teria explodido, Dyatlov entra imediatamente no modo de negação, insistindo com todos os seus subalternos que o reator ainda estaria intacto, e que seria impossível um reator RBMK explodir.

É curioso que logo no começo do episódio, o próprio Dyatlov vê que existem pedaços de grafite do lado de fora da usina, o que indicaria que o reator teria explodido, mas prefere não acreditar e simplesmente ignorar o que está vendo com seus próprios olhos. É ele quem manda chamar os bombeiros para apagar o suposto incêndio (que não era um incêndio), e também ordena a chamada de uma próxima leva de funcionários, selando o destino de cada um deles. A teimosia e a estupidez do funcionário mais experiente da usina é uma das coisas mais revoltantes do episódio inteiro.

Adam Nagaitis em cena do piloto de Chernobyl

A cena dos bombeiros chegando para combater o "incêndio" é de cortar o coração, especialmente o detalhe do pobre bombeiro que pega um pedaço de grafite radioativo nas mãos. vale lembrar que os carros deles estão lá parados até hoje.

A maneira como o acidente impacta as vidas das pessoas que moravam perto da usina é mostrada de forma incrível. O roteiro de Mazin é capaz de envolver os espectadores com a história terrível das pessoas que estão sendo expostas a radiação, e todos os personagens que aparecem em tela são muito bem escritos e muito humanos.

Cena do piloto de Chernobyl

Dependendo da distância que se aproximam do reator, os funcionários morrem mais ou menos rápido, mas sempre de uma maneira terrível, derretendo de dentro pra fora. Depois de vermos o acidente de perto, somos apresentados para outras figuras patéticas, as autoridades locais do regime soviético, que mais parecem saídas de um filme dos Trapalhões.

Um comitê é rapidamente formado, e em uma mistura de estupidez com má-fé, os políticos decidem entre si que a ameaça não é nada demais, e decidem que irão comunicar aos seus chefes um cenário muito menos ameaçador do que o que estava acontecendo de verdade.

Donald Sumpter em cena do piloto de Chernobyl

A cena do encontro dos políticos da cidade pra decidir o que irão fazer é um dos pontos altos do primeiro episódio, e mostra de forma exemplar como a verdade pode ser escondida por mentiras.  Nela vemos um personagem vivido por Donald Sumpter (o Mestre Luwin de Game of Thrones), que claramente é da velha guarda do partido, evocando o velho espírito de que os líderes comunistas devem ocultar a verdade, e também impedir as pessoas de saírem da área, além é claro de cortar todas as linhas telefônicas, tudo para preservar a imagem do governo soviético.

Falando no também ótimo podcast sobre a série, que tem a apresentação de Peter Sagal da NPR, Mazin conta que esse é um dos motivos para a série ser relevante para todas as pessoas. A razão pela qual ele sentiu a necessidade de escrever sobre Chernobyl foi ir além de preencher as lacunas que a maior parte das pessoas não sabia mas poderia descobrir rapidamente no Google, o mais importante era contar a história sobre o custo de vidas do acidente.

Nas palavras de Craig Mazin: "quando as pessoas escolhem mentir, e as pessoas escolhem acreditar nessa mentira, e quando todos se envolvem uma espécie de conspiração passiva para promover a mentira acima da verdade, podemos nos safar por um bom tempo, mas a verdade não se importa com isso, e vai te pegar, no final. No final das contas, quem sofre não é quem está contando a mentira, são as outras pessoas."

Como vemos, são os burocratas, políticos e o chefe da usina (que não acredita na explosão do reator até um longo tempo depois), os grandes vilões dessa história, enquanto alguns dos trabalhadores da usina e os bombeiros são verdadeiros heróis, que sacrificaram suas vidas para reduzir as consequências. No final do episódio (dois dos funcionários envolvidos diretamente no acidente) se dedicam a abrir as torneiras para bombear água no reator (que já explodiu).

Sam Troughton e Robert Emms em cena do piloto de Chernobyl

Outro dos grandes heróis da história é o próprio Legasov, que sempre lutou pela total transparência dos fatos relacionados ao acidente nuclear de Chernobyl. Foi graças a muita insistência sua que as autoridades soviéticas finalmente resolveram evacuar a cidade, mas isso é assunto para a resenha do próximo episódio.

Chernobyl é uma grande realização técnica

A parte técnica da série também é impecável, e aqui os méritos são de Johan Renck, diretor de todos os episódios de Chernobyl. No primeiro episódio, é bem impressionante e impactante a presença da usina, seja vista de perto, nas cenas dos bombeiros, ou de longe, na visão da população de Pripyat. Ver as famílias e crianças brincando com a cinza nuclear também proporciona imagens de arrepiar, que dificilmente sairão da nossa cabeça por um bom tempo depois de assistirmos ao episódio.

Como gravar na zona de exclusão não era possível, não apenas pela radiação, mas também por causa do aspecto de uma cidade fantasma, que foi deixada de lado mais de 30 anos atrás, os produtores foram atrás de uma locação que pudesse ser tão parecida quanto Pripyat antes do acidente. A maior parte das cenas da série foram gravadas na Lituânia, e algumas na Ucrânia. Como as construções foram feitas na mesma época, e seguiam o mesmo estilo arquitetônico, já que a Lituânia também fazia parte da União Soviética, os locais escolhidos são muito parecidos com a atual cidade fantasma.

A ótima trilha sonora de Hildur Guðnadóttir também ajuda a compor o clima pesado de Chernobyl. A compositora de Sicário: Dia do Soldado, era discípula de Jóhann Jóhannsson, o compositor islandês que nos deixou ano passado.

A minissérie só terá cinco episódios, então com o terceiro episódio sendo exibido amanhã no Brasil (os episódios passam na segunda-feira nos Estados Unidos e na sexta-feira no Brasil), já teremos passado da metade. Recomendo imensamente que você assista Chernobyl, clique aqui para ver o primeiro episódio no HBO GO.

Leia também aqui no MB:
Please Remain Calm, Chernobyl, Episódio 2 – Resenha (com spoilers)

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