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Dimitri, você perdeu outro porta-aviões?

Acidentes acontecem, mas o que é raro mesmo é 100% da frota de porta-aviões da Rússia ser incapacitada de uma vez.
Nem James Bond conseguiu o que a incompetência e o azar conseguiram fazer com o pobre Almirante Kuznetsov.

30/10/2018 às 17:11

Hoje um leitor se espantou com a notícia de que a Rússia só tinha um porta-aviões, mas em verdade, é até muito. Eu diria que eles tem meio, e por pouco não passaram a ter nenhum, mas estrategicamente faz sentido — apesar de ser contra intuitivo — um país enorme ter poucos navios desse tipo.

Porta-Aviões são fundamentais, 120 mil toneladas de pura diplomacia, na Segunda-Guerra Mundial cimentaram sua posição como meio de projeção de poder. Eles decretaram o fim da Era dos Grandes Encouraçados, mesmo o poderoso Bismarck não resistiu ao poder aéreo.

Em 7 de dezembro de 1941 os EUA tinham três porta-aviões na frota do Pacífico, o Enterprise, o Lexington e o Saratoga, eles eram os alvos principais dos japoneses, mas não estavam em Pearl Harbor na hora do ataque.

Ataque que só foi bem-sucedido por usar SEIS porta-aviões. Um número considerável, já que na época o total da Marinha dos EUA era de 7, no mundo todo. Ao final da Segunda Guerra os EUA tinham 120 porta-aviões no mar, já a União Soviética, ZERO.

Obviamente era inviável manter essa frota toda em tempos de paz, foi quase tudo pra naftalina ou virar gilete, e a doutrina dos EUA passou a ter poucos porta-aviões muito grandes, nucleares de preferência. No auge da Guerra-Fria chegaram a ter 12 ao mesmo tempo, o que é absurdo de caro.

Já os russos só foram ter algo parecido com um porta-aviões em 1967, o Moskva, um porta-helicópteros de 12 mil toneladas:

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O primeiro porta-aviões de verdade, que efetivamente portava aviões foi o Kiev, lançando em 1975. Ele era tão pequeno que seu deslocamento era só de 30 mil toneladas, apenas o dobro do nosso Minas Gerais. Levava 32 aviões, 20 helicópteros e usava propulsão convencional.

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Ele foi descomissionado em 1993 e vendido para a China, que o transformou em hotel em um parque temático.

Entre 1975 e 1993 os russos chegaram a ter quatro porta-aviões operacionais, em teoria, pois da mesma forma que em backup, onde se você só tem um não tem nenhum, em meios navais quatro porta-aviões não significam quatro porta-aviões efetivamente disponíveis.

Você tem sempre um em patrulha, outro chegando no porto terminando a patrulha, outro em manutenção e outro preparando pra partir.

Neste momento os EUA tem seis porta-aviões operacionais, os outros cinco estão em manutenção de vários tipos, incluindo o USS Washington, que em agosto entrou pro estaleiro pra uma reforma geral e reabastecimento dos reatores nucleares, e só voltará para o mar em 2021.

Esse custo era alto demais para os russos, mas nem foi esse o motivo principal da União Soviética não investir em porta-aviões. Os motivos foram geográficos e geopolíticos.

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Apesar de enorme a União Soviética era em grande parte cercada por terra. Seu acesso ao mar ao norte e ao oeste era em portos que congelavam no inverno: não é muito simples operar com porta-aviões acima do Círculo Polar, e no Leste, bem, era simplesmente longe demais. Região desabitada ou com zero infraestrutura pra manter todo o pessoal necessário pra operar uma frota de porta-aviões. E sim, também era frio.

No noroeste estavam cercados de inimigos em potencial, a principal base naval soviética ficava na Lituânia, mas eles sabiam que se fosse preciso ir pra porrada, teriam que enfrentar tudo que os americanos pudessem colocar no estreito da Dinamarca, uma passagem onde a largura máxima é 11 km e a profundidade média, 60 metros. Um verdadeiro pesadelo para submarinos.

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O caminho pra sair da Lituânia até mar aberto.

Já o sudeste, pior ainda. O único lugar onde a Rússia podia ter um porto era no Mar Negro, cujo sul era todo tomado pela Turquia, que por acaso era membro da OTAN. Em caso de guerra os navios russos teriam que forçar passagem pelo estreito do Bósforo, imagine 30 km em um canal sinuoso onde a largura às vezes chegava a 1 km, apenas para descer mais um pouco, chegar nas Dardanelas e repetir o processo. Seria uma mistura de caça ao pato com aqueles joguinhos de tower defense.

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Esse é o motivo geográfico. O geopolítico é simples: as áreas de interesse da Rússia são todas acessíveis por terra, ela não precisa de porta-aviões pra invadir a Polônia, na verdade só precisa de um VW Scirocco. Ao contrário do mostrado em Amanhecer Violento, os russos não estavam muito focados em invadir os EUA, em caso de guerra feia a resposta seria nuclear e devastadora.

Já os EUA tinham que levar democracia às regiões ameaçadas pelo espectro do comunismo, e isso exigia projeção de força. Por isso tantos porta-aviões.

No final — spoilers — a União Soviética acabou e a Rússia herdou o único porta-aviões operacional da frota, o Almirante Kuznetsov, comissionado em 1990. O problema é que ele não é exatamente topo de linha, mesmo pros padrões russos.

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Essa desgraça está num estado tão calamitoso que há quem diga que os americanos não usam satélite pra rastrear, mas detectores de fumaça:

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O Kuznetsov é um desastre ambulante, isso quando consegue ambular. Ele é o único caso de um porta-aviões que em sua flotilha leva um.. rebocador. Isso mesmo, o porta-aviões russo quebra tanto que é procedimento normal que ele seja acompanhado de um rebocador de alto-mar, fato que é zoado por todas as marinhas do mundo. Aqui quando ele quebrou na Baía de Biscaia, em 2012:


Alexandr Shakun — СБС “Николай Чикер” в свежую погоду.

Como o Kuznetsov é extremamente zicado (recentemente na Síria ele perdeu um MiG que caiu na água ao pousar, o cabo de arresto arrebentou) ele não tem paz nem quando está no porto.

Ele estava passando por um monte de reformas, e agora no finalzinho, mais precisamente ontem, a bruxa atacou de novo. A manobra era simples: inundar a doca seca, fazer o Kuznetsov flutuar de novo e finalizar as reformas, testar e mandar pro mar. A doca seca é esse monstro aqui:

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Como funciona: o navio é rebocado até a posição, dentro da doca seca, que no caso está molhada. Alinhado com os suportes no piso, bombas começam a esvaziar os pontões laterais, e graças a um senhor chamado Arquimedes, eles se erguem e o navio acaba acima do nível do mar, onde é muito mais fácil de trabalhar, se você não for um peixe.

Com essas estruturas são grandes demais pra ser completamente estanques, há bombas o tempo todo mantendo os pontões vazios, mas uma falha de energia fez com que as bombas parassem. Os pontões começaram a inundar, e de forma irregular, afinal desgraça pouca é bobagem. A doca inteira se inclinou, e aqueles dois guindastes caíram, pelo menos um atingiu em cheio o convés do Kuznetsov.

Havia 70 trabalhadores no local, e no meio do barata-voa quatro caíram na água e foram tratados por hipotermia no hospital, um sofreu um ferimento na barriga e outro aparentemente morreu. Segundo relatos durante o acidente foi aberto um buraco de 4 × 5 metros no casco do navio, acima da linha d’água.

Por enquanto só temos uma foto do acidente, dá pra ver o guindaste em cima do porta-aviões.

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Dificilmente os russos vão divulgar algum vídeo do acidente, que deve ter sido épico. O que informaram é que o navio foi rebocado para outro estaleiro, e passará um bom tempo sendo consertado. As gaivotas com asma agradecem.

 


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