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Neandertais usavam "brocas" de pedra para tratar cáries

Novo estudo sugere que neandertais tratavam suas cáries com instrumentos rudimentares, sem anestesia, e sobreviviam ao processo

20/05/2026 às 15:00

Outro dia, outra evidência científica de que os neandertais estavam muito longe da imagem imortalizada pela mídia de trogloditas idiotas e involuídos, quando comparados ao Homo sapiens. Estudos recentes trouxeram dados de que não só as evidências entre as duas espécies de hominídeos seriam meramente estéticas, como nossos "primos" eram bastante organizados, conheciam o conceito de antisséptico, tinham ritos funerários, criavam arte e ferramentas especializadas.

Sobre esse último, um estudo recente revelou que os neandertais podem muito bem ter sido os primeiros dentistas da História, sendo capazes de tratar cáries com sucesso, ainda que com utensílios de pedra.

Cena do filme "A Guerra do Fogo" (Crédito: Cinema International Corporation/AMLF/Disney) / neandertais

Neandertais sofriam com cáries como todo mundo, mas não tinham medo de tratá-las (Crédito: Cinema International Corporation/AMLF/Disney)

Neandertais também iam ao dentista

Se muita gente já treme na base só de pensar em ir ao dentista para tratar de cáries, imagine passar por um procedimento rudimentar de tratamento de canal 59 mil atrás, sem anestesia. Pois é o que indica um estudo publicado por um time de antropólogos liderados pela Dra. Alisa Zubova, que trabalha no Museu de Antropologia e Etnografia Pedro, o Grande, em São Petersburgo, na Rússia.

Sua especialidade é morfologia dentária na evolução das várias espécies hominídeas, o que consiste em analisar fósseis de dentes para determinar o que comiam, de que doenças sofriam, quais seus hábitos de higiene, essas coisas. Um dos dentes analisados recentemente, encontrado na caverna de Chagyrskaya na Sibéria, era um molar com uma perfuração muito estranha, do tipo que uma cárie natural não criaria. Tampouco se parecia com erosão causada pela passagem das eras.

O time da Dra. Zubova analisou as marcas internas do dente no microscópio, e constatou que elas batiam com movimentos circulares constantes de forma intencional; em resumo, o neandertal dono do dente, ou um terceiro (mais provável, dado o quanto dói) usou uma broca manual para perfurar o molar, de modo a tratar uma infecção dentária severa e muito provavelmente, que doía para burro.

Os cientistas analisaram ferramentas de pedra encontradas na caverna e reproduziram o processo, criando marcas em dentes praticamente idênticas, o que joga mais uma pá de terra na ideia de que neandertais eram burros. A evidência encontrada é agora o mais antigo procedimento dentário da História, que precede o antigo recordista em QUARENTA E CINCO MIL ANOS.

Dente de neandertal encontrado na Sibéria foi claramente escavado (Crédito: Zubova et al., 2026, PLOS One, CC-BY 4.0)

Molar de neandertal encontrado na Sibéria foi claramente obturado (Crédito: Zubova et al., 2026, PLOS One, CC-BY 4.0)

Lembre-se de que, até pouco mais de 80 anos atrás, nos idos da Segunda Guerra Mundial, qualquer infecção poderia significar um convite à Senhora Morte, e uma cárie mal tratada, evoluindo para um abcesso dentário, não era exceção; na verdade, esse quadro é perigoso até hoje, principalmente porque pessoas negligenciam a importância de escovar bem os dentes e manter a saúde bucal em dia.

Considere então um tratamento de canal realizado há 59 mil anos, mas como mostramos no caso da amputação na floresta de Bornéu há 31 mil anos, hominídeos antigos tinham a noção de que certos procedimentos exigiam cuidados essenciais para evitar complicações, seja no tratamento de cáries ou em amputações.

Isso é tão verdade que o dente neandertal obturado possui sinais de uso posterior, mostrando que o indivíduo submetido ao tratamento dentário sobreviveu à experiência de canal sem anestesia. Na possibilidade de que este não tenha sido um processo realizado pelo próprio paciente, dá para imaginar uma cena dele sendo segurado por outros dois membros de sua tribo, enquanto o "doutor" brocava o molar para tirar fora tudo o que não presta de um dente comprometido.

Em entrevista ao site CNN, a dra. Zubova disse que o procedimento mostra mais uma vez que neandertais eram tão capazes intelectualmente quanto o H. sapiens, ao dizer que "o dono do dente sabia intuitivamente de onde a dor vinha, e entendia que a fonte dela podia ser extirpada", demonstrando que eles "as regiões emocional e consciente/prática de seus cérebros operavam de forma independente", assim como o nosso.

E você aí com medo de encarar o motorzinho, mesmo com anestesia...

Referências bibliográficas

ZUBOVA, A.V., ZOTKINA, L. V., OLSEN, J. W. et al. Earliest evidence for invasive mitigation of dental caries by Neanderthals. PLOS One, 29 páginas, 13 de maio de 2026.

DOI: 10.1371/journal.pone.0347662

Fonte: Smithsonian Magazine

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