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USS Salmon – Uma história de coragem, desespero, tecnologia e engenheiros

USS Salmon: Sobrevivência épica a profundidades impossíveis! Coragem, desespero e genialidade da engenharia salvam 59 vidas no Pacífico

19 semanas atrás

O USS Salmon não é um daqueles submarinos lendários que afundaram dezenas de navios inimigos, mas sua incrível história de sobrevivência é um tributo a seus tripulantes, comandantes, engenheiros e projetistas.

O USS Salmon (Crédito: Domínio Público)

Comissionado em 15 de março de 1938, o Salmon foi o primeiro de sua classe, projetado para longas patrulhas, com autonomia de 20 mil quilômetros. Suas respeitáveis 2233 toneladas de deslocamento, de 93.88m de comprimento permitiam que ele carregasse 24 torpedos, suas baterias garantiam até 48h submerso. Na superfície seus quatro motores atingiam uma velocidade de 39Km/h, submerso, 19km/h.

Operando inicialmente no Atlântico, o Salmon foi transferido para o teatro do Pacífico, onde completou 10 patrulhas sem grandes acontecimentos, tendo afundado apenas quatro navios japoneses, totalizando 24 mil toneladas.

Sob o comando do Tenente-Comandante Harley K. Nauman, o Salmon partiu de Pearl Harbor em 24 de Setembro de 1944, com ordens de organizar uma matilha de submarinos nas Ilhas Ryukyu, com o USS Trigger e o USS Sterlet.

No dia 30 de Outubro, o Salmon detectou o Takane Maru, um navio-tanque japonês de 10 mil toneladas. Um alvo suculento, mas escoltado por quatro fragatas de guerra anti-submarino.

O comandante decidiu prosseguir com o ataque, mas para sua surpresa, o Takane Maru foi atingido por uma grande explosão. Algum outro submarino havia tido a mesma idéia. Era hora de finalizar; aproximando-se, o Salmon lançou uma salva de quatro torpedos, dois atingiram o inimigo em cheio.

Sem tempo para comemorar, deram a volta para fugir, sendo perseguidos por duas fragatas japonesas. Ken Nauman ordenou uma descida a uma profundidade de 110 metros, mais fundo que a profundidade de teste do barco, 76 metros, mas em guerra é comum esticar um pouco esses limites.

O que não esperavam é que o ataque japonês fosse tão pesado. Em diversas passagens os japoneses lançaram mais de 30 cargas de profundidade, que explodiram implacavelmente em volta do submarino, danificando estruturas em toda sua extensão. Depois de uma eternidade, o ataque cessou, mas os danos permaneceram.

Água invadia a torre de comando, vazando pelos periscópios. Outras estruturas provocaram vazamentos na sala das máquinas. Um tanque de combustível se rompeu, o diesel vazou e água do mar, mais densa, tomou seu lugar.

O leme estava inoperante, e os profundores traseiros, travados em posição de mergulho. O USS Salmon se deslocava para frente, mas a posição dos profundores fazia com que ele mergulhasse cada vez mais.

Colocando os profundores dianteiros em modo de ascensão máxima, conseguiram interromper a descida a 122 metros de profundidade. Usando os motores elétricos, o Salmon subiu até 90m, quando tentaram equilibrar o submarino e reduzir os motores, para efetuar reparos, mas isso resultou em uma nova descida descontrolada, com os motores no máximo tentando controlar a descida.

A 153 metros de profundidade, o Salmon começou a subir de novo. Luzes estouravam, o barulho do casco comprimido pela pressão lembrava a todos que só estavam vivos por um milagre.

USS Salmon em seu lançamento ao mar (Crédito: Domínio Público)

Subiram até 35 metros de profundidade, mais uma vez o Salmon parecia estável, mas o simples ato de desligar os motores fez com que ele mergulhasse sem controle, mais uma vez.

Descendo de ré a um ângulo de 20 graus, com motores no máximo, o submarino só parou a uma profundidade de pouco mais de 182 metros. Era uma questão de minutos, a profundidade de colapso, quando a pressão externa é superior à capacidade do casco, no caso do Salmon era de 114 metros. Suportando 18 atmosferas, o barco inteiro era apertado como um submarino repleto de ricaços idiotas.

Restava ao comandante a decisão final; baterias esgotadas, não conseguiriam manter a posição, muito menos chegar a uma profundidade menor e estabilizar. Ele deu a ordem: Usar até o último suspiro de ar comprimido, esvaziar os tanques de lastro e ir para a superfície.

Durante a subida, os marinheiros mal podiam acreditar. O USS Salmon havia resistido a duas vezes sua profundidade de colapso, foram tão fundo que todos os medidores deram fundo de escala, somente um medidor de pressão externa na sala de máquinas permitiu que calculassem a profundidade.

Quando chegaram à superfície, com uma inclinação lateral de quinze graus, estavam a 7Km do ponto de partida, os navios japoneses circundando a mancha de óleo do tanque que havia sido danificado no primeiro ataque.

Discretamente, capengando, o USS Salmon se distanciava do inimigo, ainda celebrando o milagre.

Um milagre de engenharia, fruto da obsessão acumulada de centenas de engenheiros com segurança. Nas palavras de Montgomery Scott, “um bom engenheiro é sempre um pouco conservador, ao menos no papel”.

Eles sabem que quando o cliente diz que em uma ponte vai transitar tráfego de 5 toneladas, algum infeliz VAI enfiar 8 no caminhão e tentar passar. Também sabe que o peão só vai prender metade das treliças, então ele projeta a ponte para suporte DEZ toneladas.

Cada um dos projetistas dos submarinos classe Salmon, quando desenharam as pequenas partes do imenso quebra-cabeças que é uma embarcação de guerra, aplicaram esse fator de segurança. O resultado foi um submarino muito mais robusto e capaz do que o especificado pela Marinha.

As vidas dos 59 homens a bordo foram salvas quando nerds teimosos se recusaram a aceitar que equipamentos especificados para resistir a 8 atmosferas de pressão deveriam ser projetados para resistir a 8 atmosferas de pressão. Aplicaram a filosofia do “vai que...” e se dá pra resistir a 10 com quase nenhuma alteração... 10 pra 12 só mais uma mexida...

No estaleiro, a filosofia era a mesma. Se dá para fazer oito pontos de solda onde a especificação fala para usar quatro, e o tempo é quase o mesmo, não custa...

O USS Salmon ressurgiu das profundezas, empurrado por Arquimedes e uma horda de engenheiros e operários, que foram além de suas obrigações e deveres.

Agora era hora de um segundo milagre. Um dos navios japoneses localizou o USS Salmon, e começou a disparar, de longa distância. Os marinheiros faziam reparos desesperadamente, e conseguiram acionar um dos motores, depois dois. As antenas de rádio, danificadas, foram substituídas por uma improvisada, e o Salmon tentou uma estratégia desesperada: transmitiu em sinal aberto, sem criptografia, dando sua posição e pedindo ajuda a qualquer um na área.

Seis submarinos americanos na região violaram as regras de silêncio de rádio e transmitiram de volta que estavam a caminho. Isso dissuadiu alguns dos navios japoneses, que preferiram ir embora, mas pelo menos um foi atrás, e cada vez mais se aproximava do Salmon, que não tinha como lançar torpedos, muito menos mergulhar.

Decidido a não morrer ou ser capturado depois de ter escapado das garras de Netuno, o Comandante lembrou que resposta pra maluco é maluco e meio. Virou o Salmon em direção ao navio japonês, colocou homens em todas as armas disponíveis e acelerou ao máximo que os pobres motores sofridos conseguiam.

As duas embarcações se cruzaram a menos de 50 metros. O Salmon disparou seu canhão principal de 40mm, seus canhões antiaéreos de 20mm e suas metralhadoras .50 contra um navio japonês surpreendido com a intensidade da reação.

Tudo no convés foi atingido, pelo menos quatro japoneses foram mortos, 24 feridos, a ponte de comando crivada de balas, os japas desorientados viram o Salmon rumar para uma zona de chuva e desaparecer na neblina, tal qual um navio-fantasma.

Depois de mais algumas peripécias, eles conseguiram chegar em Saipan, onde fizeram reparos de emergência, e rumaram para Pearl Harbor.

Lá os engenheiros locais não acreditaram na extensão dos danos. Cthulhu em pessoa não poderia danificar mais o pobre USS Salmon.

Tubulação de ar dos motores, completamente esmagada pela pressão externa (Crédito: Domínio Público)

Do Hawaii, o Salmon foi para São Francisco e depois para o Maine, onde foi reparado, mas os danos haviam comprometido tanto o barco como um todo, que preferiram dar a ele a missão de embarcação de treinamento, até 1946, quando foi finalmente descomissionado.

Pelo feito heróico de ter resistido a ataques impossíveis, e suportado muito mais do que humanamente possível, o Salmon e sua tripulação receberam uma Presidential Unit Citation, condecoração dada a unidades que demonstraram extraordinário heroísmo diante de tropas inimigas.

O USS Salmon é o exemplo do que se consegue com dedicação, conhecimento e espírito de grupo. Um monte de gente trabalhando em prol de um objetivo comum, dando o melhor de si. É diametralmente oposto ao Titan, aquele submarino que implodiu rumo ao Titanic, fruto de arrogância, teimosia e gente achando que dinheiro compra as Leis da Física. Não compra, mas um bom grupo de engenheiros, consegue dar uma contornada de vez em quando.

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