Carlos Cardoso 25 semanas atrás
Pluribus é a nova série de Vince Gilligan, criador de Breaking Bad, uma série que nunca tive vontade de assistir, depois que virou obrigação e todo mundo era moralmente induzido a assistir. Ele também tem no currículo coisas como o injustiçado Hancock, Community e Os Cavaleiros Solitários, e como FC é minha praia, decidi dar uma chance.
E que chance! Em uma época de séries derivativas, chupando conceitos antigos e reescrevendo histórias sem nada a acrescentar, Pluribus é um alento, uma série que consegue ser familiar E original ao mesmo tempo, fruto da alta qualidade do texto.
Um grupo de cientistas recebe um sinal de uma estrela a 600 anos-luz da Terra. O sinal é decodificado como uma sequência de DNA - e aqui é a parte mais realista da série - que prontamente é transcodificada em um vírus, que obviamente escapa.
Em um evento apocalíptico o vírus é ativado simultaneamente no mundo todo, e a Humanidade se torna uma entidade única, uma consciência coletiva que é a soma de todas as mentes do planeta.
Qualquer um em qualquer lugar tem todas as memórias e habilidades de todos os humanos existentes. Imediatamente todas as guerras cessam, animais de zoológicos são soltos, o abate e criação de animais deixa de existir, a Terra vira uma gigante colmeia de paz e harmonia.

"Eu odeio todas vocês" (Crédito: Reprodução/High Bridge Productions/Bristol Circle Entertainment/Sony Pictures Television/Apple)
Exceto para treze indivíduos, imunes ao processo de assimilação, entre eles Carol Sturka (Rhea Seehorn, de Better Call Saul), uma escritora meio revoltada de romances vagabundos extremamente populares. Carol não é uma boa pessoa. Alcoólatra contumaz, ressentida com Helen, sua assistente/conselheira/namorada, que não deixa Carol se assumir como lésbica para não prejudicar as vendas, menosprezando seus fãs e caprichando na autossabotagem, Carol é tudo menos uma Mary Sue.
Ela toma decisões erradas, é precipitada, faz caquinha e é tudo o que Rey “Skywalker” não era, mas o povo que gosta de reclamar de tudo agora diz que Carol é “antipática”. Se fosse homem, ela seria Gregory House e estariam aplaudindo.
Helen morre em um acidente de carro durante o Evento de Assimilação, e Carol logo percebe o que está acontecendo, relutantemente aceitando ser auxiliada por Zosia (Karolina Wydra), uma das muitas facetas da Mente Coletiva.
Carol descobre que a Entidade não pode mentir, e faz tudo que ela quer. A Mente Coletiva diz amar Carol, e está pesquisando como assimilá-la, mas até lá não fará nenhum mal, e são tão bonzinhos que são incapazes de matar uma mosca, literalmente. Nem frutas eles tiram do pé, esperam cair naturalmente.
É praticamente um planeta de Lisas Simpsons, e cada vez que Carol acha que descobriu um “gotcha!”, algo que a Entidade está escondendo, ela é confrontada e vê que não, é tudo às claras.
Até agora, nenhuma, juro! Eles poderiam ter colocado toneladas de referências clássicas, mas não, Pluribus é totalmente “limpa”, não há nenhum casulo alienígena em algum canto, nenhum cubo Borg de decoração. O que Pluribus tem são INFLUÊNCIAS.
Os mais novos vão reconhecer na hora as similaridades com o episódio Auto Erotic Assimilation (S02E03), de Rick and Morty, quando Rick, Summer e Morty vão parar em um planeta assimilado por Unity, uma entidade coletiva que já havia sido peguete do Rick.

Isso, por exemplo, é uma referência explícita (Crédito: Reprodução/Williams Street/Harmonious Claptrap/Justin Roiland's Solo Vanity Card Productions!/Starburns Industries/Rick and Morty, LLC./Adult Swim/Cartoon Network/Warner Bros.)
Unity acaba com as guerras, promove paz mundial, cria um mundo de paz e harmonia, sem individualismo, só que Rick aproveita isso para curtir, incluindo promover uma orgia em um estádio com boa parte das ruivas do planeta. Esses arroubos emocionais acabam desestruturando Unity, o que causa desastres e mortes pelo planeta.
Esse exato mesmo conceito foi replicado em Pluribus, mas não a cena em si. Pluribus é uma série criminosamente escassa em termos de orgias com ruivas em estádios de futebol, mas ninguém é perfeito.

Invasores de Corpos, 1978, filmaço (Crédito: Reprodução/Solofilm/United Artists/MGM/Amazon)
Há paralelos com o clássico Invasores de Corpos, de 1978, com as pessoas se tornando cópias imperfeitas, emocionalmente pasteurizadas, como se o planeta inteiro vivesse em antidepressivos, só despertando para a realidade quando precisa interagir com Carol, ou outros dos 13.
Assim que falaram dos outros 12 humanos imunes, ficou claro que Pluribus seria uma série estilo road trip, a caça aos 12, etc. Não, a Entidade está perfeitamente confortável em enviar mensagens de Carol para eles, e até promover encontros físicos presenciais.
Unit-digo, a Entidade é o inimigo mais gentil e atencioso que você já viu, ela faz tudo que Carol pede, responde a tudo, cheia de gentileza, o que não pode ser dito dos outros humanos.
A maioria ainda vive com suas famílias, com a Entidade agindo como se eles fossem indivíduos, mas sem mentir, claro. As pessoas preferem acreditar que os assimilados ainda são os mesmos, e, bem, fisicamente eles são, e retém todas as memórias e sensações originais. O problema é que agora todas as pessoas do mundo compartilham disso.
Exceto Koumba Diabaté (Samba Schutte), um sujeito da Mauritânia que partiu do princípio que se o mundo está acabando, é melhor aproveitar. Ele tem uma atitude extremamente positiva quanto à Entidade, que corresponde atendendo seu desejo por... bem... sabe o Lobo do Pica-Pau? É ele.

Compreensível (Crédito: Reprodução/NBCUniversal)
O sujeito voa no Força Aérea Um, cercado de supermodelos, come dos melhores restaurantes, leva a vida de playboy que ele nunca sonhou tornar realidade, mas no mundo pós-apocalipse é só questão de levantar o dedo.
Carol, enquanto isso, descobre que arroubos emocionais afetam a Entidade, mas isso tem um preço bem alto. Todos os humanos do planeta ficam incapacitados por vários minutos, imagine o que isso causa a pilotos, maquinistas, cirurgiões...

"Is good to be the king" - Diabaté (Crédito: Crédito: Reprodução/High Bridge Productions/Bristol Circle Entertainment/Sony Pictures Television/Apple)
Pluribus conta a história de uma das pessoas mais individualistas do planeta vivendo em um paraíso da misantropia, mas decidindo que é seu dever salvar o mundo, pois por mais que o mundo tenha se tornado uma utopia, não é natural, ninguém decidiu se unir ao Coletivo.
Ao mesmo tempo, há toda uma discussão de como um coletivo absolutamente bondoso, com a melhor das intenções e ideais éticos inquestionáveis, podeser,r ao mesmo tempo, algo extremamente nefasto.
Pluribus consegue fugir de todos os clichês de séries do gênero, e não fica enrolando mistérios, como Lost, nós aprendemos sobre a Mente Coletiva junto com Carol, e entendemos quando ela se frustra, quando ela faz caca e se arrepende, ou quando ela descobre que não é tão esperta quando acha que é.
Carol Sturka é uma personagem imperfeita em um mundo perfeito, e talvez seja dessa imperfeição que precisemos para salvar o mundo. Mas não agora, Pluribus já foi renovada para uma segunda temporada.
5/5 Unities
Pluribus passa no Apple+.