Carlos Cardoso 42 semanas atrás
Televisão é um tipo de entretenimento que segundo Star Trek não durará muito além da década de 2040, mas dadas as ideias toscas que já foram experimentadas, é até surpreendente que não tenha acabado antes. Vamos ver neste artigo algumas dessas ideias...

A Televisão é a caixa de fazer doido (Crédito: Qwen)
O cinema é o que é hoje graças à TV. Quando Hollywood percebeu que a Televisão seria uma concorrente real, correu atrás de inovações tecnológicas, como os formatos widescreen. A TV, por sua vez, ficou presa ao 4:3, escolhido para... imitar o cinema. De lá para cá muito aconteceu, com inovações bestas, como cinema com cheiro, inovações ótimas, como IMAX e som estéreo em TVs, e inovações vergonhosas, como a TV com Cheiro, que era pior que o cinema, pois você precisava raspar uma cartela para liberar os odores de acordo com comandos na tela.
Vamos conhecer então alguns desses momentos nada inspiradores da História da TV:
Ted Turner, nos anos 80, quando não estava fazendo saliência com a Jane Fonda, brincava de empresário de TV, com canais como o TBS e a TNT. Em 1986 ele comprou o catálogo da MGM, lotado de filmes clássicos, mas havia um problema: O Jovem™.
O Jovem sempre foi um problema, mesmo nos Anos 80, e Ted Turner descobriu que jovem não assistia filme preto-e-branco. E piorava, anunciantes não pagavam bem para exibir comerciais em filmes PB. Turner precisava de uma solução e achou a pior possível: colorização.
Era uma época em que os computadores eram feitos de barro fofo e pedra lascada, então o processo de colorização era extremamente primitivo. Funcionava mais ou menos assim:
O filme era escaneado em escala de cinza. Artistas marcavam objetos em cena com canetas ópticas e atribuíam cores, de uma palheta que variava entre 16 e 256 cores. O computador então usava esses keyframes para colorir os objetos e partes com as cores indicadas.
Cada minuto levava várias horas de processamento, fora o tempo para montar os keyframes. O custo era astronômico. Um filme de uma hora e 40 minutos custava o equivalente a US$ 1,5 milhão, em valores de 2025.
Funcionava? Mais ou menos. O público comprava bastante cópias de filmes colorizados, mas era uma novidade, não uma evolução tecnológica. Os filmes ficavam horríveis, as cores eram lavadas, artificiais e arbitrárias, muitas vezes não combinavam com as cores da época, e para piorar, filmes preto e branco eram pensados para preto e branco, os cenários tinham tons de contraste específicos, roupas, maquiagem, tudo feito para tons de cinza. A cor estragava tudo.
A moda passou no final dos Anos 90, com artistas e intelectuais criticando abertamente a colorização de filmes para a Televisão, alguns chegando a chamar de “vandalismo digital”. Ted Turner queria colorizar Cidadão Kane, mas o espólio de Orson Welles entrou na Justiça e conseguiu impedir. Hoje colorização só existe em casos raros, como documentários. Felizmente.
Quando o cinema surgiu, ele herdou o formato de 35 mm da fotografia. Era basicamente o mesmo filme, só que com mais de 36 poses. O formato quase quadrado, com proporção 4:3 se padronizou, e quando a TV surgiu, ela copiou naturalmente as proporções do cinema, facilitando a exibição de filmes na TV.
A própria produção televisiva, antes da invenção do videotape, usava filmes de 35mm e 16mm para gravar seu conteúdo, mas eis que o povo de Hollywood, por volta dos anos 50, percebe que a TV está comendo mercado. A solução foi criar formatos que a Televisão não conseguiria mostrar, então surgiram as projeções widescreen. Os formatos mais populares de cinema eram:
Encaixar uma imagem retangular em uma tela quadrada sem distorção é geometricamente impossível, e o oposto é igualmente inalcançável, por mais que o povo que comprou as primeiras Televisões widescreen tenha reclamado das barras pretas verticais. Houve até um brasileiro que processou a fabricante, e ganhou, o juiz entendeu como vício oculto do equipamento.

Lawrence da Arábia, no formato original e com uma tela 4:3 marcada. Impossível enquadrar a cena inteira (Crédito: Columbia Pictures)
No caso da televisão 4:3 passando filmes em formatos retangulares, o problema é maior, um filme como Lawrence da Arábia, filmado em proporção de 2.2:1 não tem como ser exibido sem perder muito conteúdo.
Como o público não tolerava barras pretas, e nas TVs de baixa definição a imagem ficaria minúscula de qualquer jeito, inventaram uma técnica chamada “pan e scan”, onde durante a conversão do filme para fita magnética, um sujeito acompanhava a história e movia manualmente a câmera para a parte importante da cena.
Quando pegava um filme europeu com diálogo entre personagens nos cantos extremos da tela, era comédia, a impressão é que a câmera mudava desesperadamente de um lado para outro.
Filmes com mais orçamento usavam pan e scan E editavam as cenas, mas mesmo assim o resultado era horrível. Aqui um exemplo, com Tubarão.
Felizmente essa modinha foi morta com a chegada da televisão de tela larga, alta definição e com a quase padronização do 16:9 como formato “oficial”.
Lá na primeira década do Século surgiu uma bobagem de <CENSURADO> criado por gente claramente <CENSURADO> que era uma escrita totalmente <CENSURADO> chamada Miguxês, onde erros propositais e trocas de letras faziam o texto parecer <CENSURADO>. O Grok explica melhor:
“Diferente do internetês, que foca em rapidez com abreviações, o Miguxês tem uma intenção mais emocional, muitas vezes infantilizando a comunicação ou servindo como uma marca de identidade entre grupos, como os emos da época.”
Algo como:
“Oi miNhA mIgUxA tAdiNhA!
Qro mto te veR hj, xaudadeX de +!
BjoOoo na tRaVeXsa, te aMu!“
Isso não só virou moda, como publicitários <CENSURADO>, perdoem o pleonasmo, aderiram, e vários anúncios de verdade foram “escritos” em Miguxês.

Argh (Crédito: Arquivo pessoal)
A TV foi atrás, e em 2005 o Telecine resolveu criar uma sessão Cybermovie para internautas, com os filmes legendados em... Miguxês. Felizmente essa ideia <CENSURADO> não foi para a frente.
Televisão é negócio, é feito para ganhar dinheiro, mas o povo às vezes exagera, como a Globo, que picotou Star Wars em uns dez breaks de comerciais, e tem mania de cortar filmes sem dó, para não afetar o horário de sua programação normal, mas as emissoras já foram bem piores...

Aperta que ela geme! (Crédito: Qwen)
Como tempo é dinheiro, quanto mais comerciais passarem, melhor, mas o povo quer o conteúdo, então a solução era... acelerar o conteúdo. Por volta de 2010, os espectadores começaram a perceber algo errado nas sitcoms e filmes do TNT e da TBS (olha o Ted Turner aí de novo). As piadas pareciam fora de lugar, a música não encaixava... descobriram que os programas eram exibidos em velocidade levemente acelerada, o suficiente para ganhar entre 5 e 6 minutos em um programa de uma hora de duração, e 6 minutos significa 12 comerciais de 30 segundos.
As TVs inglesas também aderiram à prática, acelerando novelas e reality shows. Vozes eram digitalmente corrigidas, assim não denunciavam a velocidade acima do normal.
No começo dos Anos 2000 surgiu uma marmotagem maligna: um tal de Bill Hendershot inventou um equipamento que era capaz de receber um sinal de vídeo em tempo real e comprimir temporalmente a informação, removendo frames duplicados. Isso ia espremendo o vídeo, criando uma defasagem em relação ao tempo real, abrindo espaço para... isso mesmo, comerciais.
A ideia de que seria possível manipular pessoas de forma subliminar, sem que elas percebessem, era comum na ficção científica, e bem popular tanto entre os que achavam uma ótima ideia, quanto entre os que se apavoravam com a possibilidade. Em obras como 1984 e Admirável Mundo Novo as mensagens subliminares eram apresentadas como muito eficazes, e em 1957 um sujeito chamado James Vicary resolveu testar essa eficácia.
Usando equipamentos especiais, ele projetou as mensagens “Beba Coca-Cola” e “Coma Pipoca” por 1/3000 de segundo, a cada 5 segundos, durante a exibição de um filme. Isso gerou, segundo ele, aumento de vendas de Coca-Cola de 18,1% e de pipoca em 57,7%.
Obviamente toda agência de publicidade queria testar a tecnologia e alugar o equipamento de Vicary, mas todo mundo ficou apavorado, com medo da tecnologia ser usada para fins nefastos.
Em 1958 rolou até CPI no Congresso, e as emissoras e anunciantes concordaram em banir voluntariamente as mensagens subliminares.
A parte divertida: o experimento de Vicary era uma farsa. Ele não tinha dados para sustentar suas alegações de aumento de vendas, e todos os experimentos tentando replicar o efeito deram resultados negativos. Por mais que a mídia adore apontar os riscos de manipulação pela televisão com mensagens subliminares, todos os estudos mostram que ninguém vai comprar seu suquinho por ver um frame piscando na tela, exceto caso já esteja com muita sede. E aí é melhor fazer um comercial com a Sydney Sweeney de uma vez.
Claro, como tudo chega atrasado no Brasil e o Silvio Santos era especialista em não ouvir ninguém, ele cismou que propaganda subliminar funcionava, e meteu anúncios da Jequiti no meio da programação do SBT:
Ao menos fazia o povo rir.