Ronaldo Gogoni 46 semanas atrás
2025 tem sido um ano de fortes emoções, mas como nunca é demais, o Departamento de Energia dos Estados Unidos reportou um acontecimento inesperado: foram encontrados quatro ninhos de vespas com concentrações de radioatividade 10 vezes maiores que o permitido, em uma antiga instalação da Guerra Fria responsável pela fabricação de peças para armas nucleares.
Não foram encontradas vespas vivas no local (ainda bem), mas o caso reacendeu uma velha preocupação sobre o manejo de resíduos atômicos, e as consequências para o Meio Ambiente.
O caso envolve sítio nuclear (antiga usina) do Rio Savannah (SRS), uma reserva do Departamento de Energia (DOE) situada nos condados de Aiken, Allendale e Barnwell, no estado da Carolina do Sul. A ocorrência original registrada, que data de 3 de julho de 2025, fala da descoberta de um ninho de vespas, emitindo uma contagem de 100 mil dpm/cm² beta/gama, 10 vezes mais que o normal permitido em áreas que requerem monitoração constante.
O SRS foi construído nos anos 1950 como uma usina de produção de plutônio e trítio, materiais radioativos usados na confecção de armas nucleares; embora seus reatores estejam desativados há muito tempo, as instalações possuem 51 tanques subterrâneos para o armazenamento de lixo radioativo, oito já fechados e os 43 restantes em processo de encerramento de atividades, com o material transferido para instalações maiores, e mais seguras.
O SRS produziu, segundo o DOE, 165 milhões de galões de lixo em estado líquido, que evaporaram para um total de 34 milhões de galões; isso equivale a 624,6 milhões e 128,7 milhões de litros, respectivamente.
Conforme a ocorrência de 03/07, o ninho foi encontrado próximo a um desses tanques, considerado lixo tóxico e devidamente descartado; nenhum inseto vivo foi encontrado, mas segundo especialistas, se esse fosse o caso, elas apresentariam níveis de radiação bem menores, logo, não foi dessa vez que veremos vespas mutantes radioativas por aí.
Ainda segundo o The New York Times, o DOE reportou a descoberta de mais três ninhos após o achado de 03/07, totalizando (até o momento) quatro estruturas contaminadas por radiação.
Em nota enviada por e-mail ao NYTimes, o administrador do Escritório de Operações do SRS para o DOE, Edwin Deshong, disse que os quatro ninhos "possuem níveis baixos de radiação" (se 10 vezes acima do nível permitido é "baixo", nem quero saber o que consideram um índice alto), e que eles "não representam um risco aos trabalhadores, à comunidade, e ao Meio Ambiente".
No entanto, ambientalistas criticam como o caso está sendo conduzido, como não terem dado nenhum tipo de informação detalhada: o nível absoluto da radiação encontrada, quais isótopos foram identificados, a espécie de vespa que criou os ninhos, nada disso foi divulgado.
Esta última parte é importante para estimar a extensão do raio de contaminação; algumas espécies de vespas fazem ninhos com lama, enquanto outras processam celulose, que regurgitam de materiais coletados de árvores próximas. A nota se limitou a dizer que não houve vazamento, e que a contaminação de seu por "radiação legada" do local, resquícios da época em que produzia peças para artefatos nucleares.
Timothy Mousseau, biólogo da Universidade da Carolina do Sul especializado em estudar o impacto de instalações nucleares no ecossistema, disse que a explicação dada pelo DOE é insuficiente, e que embora haja pontos com "radiação legada" na lama depositada no fundo de lagos, por exemplo, é importante identificar se não existem outros pontos focais que não foram catalogados, e têm sido ignorados até então.
Mousseau também lembrou do caso de 2017, em que fezes radioativas de pássaros foram encontradas, anotando que estes podem viajar por distâncias maiores e contaminar uma área muito maior quando comparados a vespas, que costumam ficar em um perímetro próximo a seus ninhos.
Fonte: The New York Times