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Google: processo antitruste afetará Firefox e projeto Chromium

Google e Departamento de Justiça dos EUA definem resoluções sobre processo antitruste, que podem afetar projeto Chromium e navegador Firefox

1 ano atrás

O Google e o Departamento de Justiça dos Estados Unidos (DoJ) se preparam para os momentos finais do processo antitruste movido contra a gigante das buscas. Embora ele tenha se iniciado durante o governo de Joe Biden, a gestão do órgão sob o presidente Donald Trump manteve as soluções mais duras, como modo de quebrar o monopólio das buscas controlado pela empresa.

O DoJ conseguiu garantir uma vitória na fase inicial, demonstrando que o Google usou táticas anticompetitivas para assegurar a dominância global de seu buscador. Entre as ações para remediar a situação, o departamento quer que a empresa seja forçada a vender o navegador Chrome, e deixar de pagar a companhias como Apple, Mozilla, e fabricantes de dispositivos móveis, para que estas façam do Google Search o buscador padrão em seus produtos.

CEO Sundar Pichai pensou que agradar Donald Trump pouparia o Google de ser fatiado. Não funcionou (Crédito: Ronaldo Gogoni/Meio Bit)

CEO Sundar Pichai pensou que agradar Donald Trump pouparia o Google de ser fatiado. Não funcionou (Crédito: Ronaldo Gogoni/Meio Bit)

O Android também não escapou ileso, e passará por mudanças, como permitir a distribuição de lojas de terceiros na Play Store, com acesso a todos os apps disponíveis em sua própria loja, sem que estes tenham que pagar um centavo ao Google por isso; porém, caso o governo considere tais medidas insuficientes para equilibrar o mercado, a gigante será igualmente forçada a vender o sistema móvel.

Agora, o Google e o DoJ estão na fase de considerações finais antes do veredito de Amit P. Mehta, juiz federal da Corte Distrital de Columbia, Washington D.C., onde o caso é julgado, que envolvem desde o impacto da Inteligência Artificial (IA) nas buscas, a danos colaterais em outras empresas.

Fim de acordo com Google pode matar a Mozilla

The history so far:

Em 2020, o DoJ abriu um processo antitruste contra o Google, acusando a companhia de usar várias táticas ilegais para garantir que o Search dominasse artificialmente o mercado de buscadores, ao invés de jogar dentro das regras de competição justa. Uma delas, o acordo em que a empresa paga muito dinheiro a empresas como a Apple, de modo que estas privilegiem seu buscador frente a concorrentes como Microsoft Bing, Yahoo! Search, DuckDuckGo e outros.

Embora a maçã seja a empresa que mais embolsa nesse sentido (média de US$ 20 bilhões/ano), fabricantes de dispositivos Android também recebem agrados nesse sentido, visto que esta é uma das condições para usar o sistema móvel em seus gadgets. Da mesma forma, a Mozilla lucra uns bons trocados ao fazer do Search o motor padrão de seu navegador Firefox.

A Mozilla é a empresa na situação mais delicada, segundo testemunho de um executivo durante o processo. Este alegou que, caso o Google seja proibido de pagar pela manutenção do Search como buscador padrão, o fim do fluxo de capital pode aniquilar a empresa, que hoje depende do dinheiro de Mountain View para manter suas operações.

Eddy Cue, SVP de Serviços da Apple, deu um testemunho similar em defesa das operações da maçã, dizendo que ele está "perdendo noites de sono" com a possibilidade da gigante deixar de embolsar a grana fácil do Google, embora a Apple nem de longe esteja na mesma posição que a Mozilla.

O futuro da raposinha pode não ser tão legal (Crédito: Reprodução/Merryweather Comics)

O futuro da raposinha pode não ser tão legal (Crédito: Reprodução/Merryweather Comics)

Tanto o Google quanto o DoJ foram questionados pelo juiz Mehta sobre o depoimento do executivo da Mozilla; David Dahlquist, representante do órgão governamental, disse que "haverá um impacto" em empresas privadas ao proibir o Google de pagar a terceiros, mas que tanto a Apple quanto a Mozilla estão "superestimando os riscos" que ambas correm.

Embora o Departamento de Justiça esteja provavelmente certo sobre a Apple, o mesmo não pode ser dito da Mozilla; ao que parece, o governo dos EUA está disposto a matar uma companhia menor enquanto pune o Google, e encarando a situação como um "mal necessário".

O juiz Mehta, no entanto, já não tem tanta certeza se isso é o certo a fazer, dizendo que ele não está disposto a prejudicar outros mercados (navegadores, clientes de e-mail... você não, Pocket) enquanto corrige o de buscas.

O impacto da IA

Até pelo menos 2023, a corte responsável pelo caso achava que IAs generativas teriam pouco ou nenhuma importância no processo, mas aí veio o boom de ferramentas como ChatGPT, Perplexity, e o próprio Gemini do Google, e tudo mudou. O algoritmo do Search em si é baseado na entrega de links, mas agora, os usuários estão sendo educados a depender menos de buscas, e a solicitar resumos prontos.

O formato onde o algoritmo mastiga tudo para você está tirando agências de notícias e donos de sites e portais do sério, pois além de não terem autorizado o uso de seus dados por ferramentas como o Modo IA, a funcionalidade promete atomizar as visitações dos mesmos, e reduzir em muito suas receitas. Até o momento, Mountain View não esclareceu como, ou se, vai remunerar sites e blogs pela coleta de dados para o Modo IA.

Em 2020, ninguém levava em conta o impacto da IA nas buscas; hoje, tudo mudou, e vai continuar mudando (Crédito: Reprodução/Zapier)

Em 2020, ninguém levava em conta o impacto da IA nas buscas; hoje, tudo mudou, e vai continuar mudando (Crédito: Reprodução/Zapier)

Questionado pelo juiz Mehta, Dahlquist não soube dizer se alguma empresa ainda desenvolveria um novo motor de busca baseado em links, ao defender que, embora não fosse alvo do processo em seu início, a IA agora representa um papel crucial no futuro dos buscadores. O Google, por sua vez, diz que suas ações não prejudicam empresas como OpenAI e Perplexity AI, e nenhuma delas está no negócio de buscas per se.

Mehta diz que talvez a corte tenha que repensar o que é um buscador, ao dizer que "talvez o público não queira mais 10 links azuis", e prefira resumos mastigadinhos pelas IAs.

 Sobre a coleta de dados

O Departamento de Justiça dos EUA também propôs que o Google seja forçado a licenciar tanto a base de dados, quanto o algoritmo do Search, uma ideia a qual o CEO do Google e da Alphabet Inc. Sundar Pichai, se opõe de forma veemente. A companhia alega que abriu o acesso a seus dados representa um risco à privacidade de seus usuários; John Schmidtlein, advogado da empresa, chamou a proposta de "um fracasso completo".

Quesitionado sobre o assunto pelo juiz Mehta, Adam Severt, advogado do DoJ, disse que "um comitê independente" pode ser estabelecido para como proceder com os dados de usuários do Google, mas não deu detalhes de como isso será feito; representantes da gigante das buscas, para variar, não gostaram nem um pouco da proposta.

E o projeto Chromium?

O DoJ é irredutível quanto ao Google vender o Chrome, e muita gente quer pôr as mãos no navegador mais usado. A OpenAI, que estava considerando criar seu próprio browser baseado no Chromium, obviamente com IA saindo pelo ladrão, manifestou durante o processo que a empresa tem interesse em adquirir o produto principal.

O grande problema é justamente o Chromium, um projeto de código aberto que fornece as bases para vários outros navegadores, como o Edge da Microsoft, o Opera Browser, e o Samsung Internet, entre outros; quem comprar o Chrome levará o projeto junto, que hoje é mantido quase que exclusivamente pelo Google.

O juiz Mehta é a favor da venda do Chrome, principalmente porque outros remédios não teriam um impacto significativo no domínio do Google sobre as buscas de forma imediata; a empresa alega que 35% de todas as pesquisas do Search são realizadas no navegador, entre várias plataformas. Ao mesmo tempo, o magistrado não acredita que outras empresas tenham a expertise, ou o interesse, de manter o Chromium funcionando de forma adequada, o que poderia ser danoso a outras empresas.

Juiz Mehta teme que outras empresas não tenham o necessário para manter o Chromium como o Google (Crédito: Reprodução/Google)

Juiz Mehta teme que outras empresas não tenham o necessário para manter o Chromium como o Google (Crédito: Reprodução/Google)

Uma das alternativas propostas é a de fazer com que um possível comprador se comprometa a manter os empregos de todos os envolvidos no projeto Chromium; já o DoJ sugeriu forçar o Google a financiar o preenchimento de vagas críticas, caso a atual equipe perca seus empregos no processo. Ambas alternativas esbarram em impedimentos legais e outros obstáculos.

O juiz Mehta deverá dar o veredito nas próximas semanas, após DoJ e Google encerrarem suas considerações finais; a gigante já disse que pretende recorrer de uma decisão desfavorável a instâncias superiores, no que a disputa pode escalar até a Suprema Corte. Assim, o capítulo final dessa novela só deverá ir ao ar daqui a alguns anos.

Fonte: Ars Technica

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