Ronaldo Gogoni 1 ano atrás
O PayPal é o pivô do mais recente escândalo a estourar na internet, tendo como protagonista a Honey, uma das mais populares extensões para navegadores que oferecem cupons de descontos em compras online; comprada pela companhia de crédito em 2020, ela foi revelada como um tremendo golpe.
Uma denúncia recente revelou que a Honey oculta ofertas melhores dos usuários, graças a acordos firmados com varejistas, e toma comissões de criadores de conteúdos que endossam seu uso, muitos deles pagos para fazê-lo (e roubados depois). Agora, o rolo escalou para uma ação pública, movida por defensores dos influenciadores digitais.

Honey e PayPal enrolam usuários e criadores, ocultando ofertas mediante acordos com varejistas, e tomando comissões (Crédito: Ronaldo Gogoni/Meio Bit)
A Honey é uma empresa fundada em 2012 por George Ruan (CEO) e Ryan Hudson, ao redor da extensão de mesmo nome, que funciona de forma similar a várias outras compatíveis com diversos browsers: em teoria, ela vasculha a internet através das melhores ofertas de cupons, e os oferece aos usuários no ato de uma compra online. A Honey também suporta links de afiliados, revertendo cliques em comissões àqueles que fazem parte do programa, em cada venda realizada.
Por ser uma das extensões de cupons de desconto mais antigas em atividade, a Honey é bastante popular, e é uma das mais baixadas no geral em todos os tempos; só na loja de extensões do Chrome (também compatível com o Microsoft Edge, é bom lembrar), ela soma mais de 17 milhões de downloads.
O rolo envolvendo a extensão, de acordo com uma investigação realizada pelo canal do YouTube MegaLag, revelou o que pode escalar para o maior escândalo envolvendo influenciadores digitais de todos, com desvios na escala de milhões de dólares, através do endosso (consciente ou não) dos criadores, que, essa é a melhor parte, também foram lesados.
O problema principal da Honey, a extensão possui acordos com diversas redes e lojas do varejo, para resolver um simples dilema destes: ninguém gosta de perder dinheiro. Um cupom digital que conceda um desconto de 20% ao usuário é ruim para a loja, assim, esta acerta com a extensão para não exibir as melhores ofertas, apenas as menos interessantes, o suficiente para atrair consumidores, mas que não prejudiquem seus negócios.
Digamos que a rede ZYB Bom possui dois cupons para uma TV 4K, de 20% e 3%; através do acordo firmado com a Honey, a extensão esconde o desconto maior dos consumidores, que poderão usar apenas o de 3%. Para todos os efeitos, o de 20% "não existe".
A Honey também mantêm acordos lucrativos com muitos (mesmo!) influenciadores digitais e criadores de conteúdo da internet, espalhados por YouTube, Instagram, X, Facebook, etc. Estes criam links de afiliados para os produtos e serviços que endossam, indicando cupons da Honey para seus seguidores, de onde tirariam uma generosa comissão.
O que o canal MegaLag sugere, é que boa parte desses influenciadores, que incluem nomes de peso como Mr. Beast, Linus Tech Tips, Marques Brownlee, e vários outros, estariam cientes do golpe do cupom oculto aos usuários, mas como receberam muito bem para promover a extensão, teriam feito vista-grossa.
No entanto, a Honey também enrolou os próprios influenciadores que contratou: como a extensão assume o controle do processo de compra quando o usuário usa seus cupons, ela substitui o link de afiliado na última rodada de cliques por um próprio, tomando a comissão para si. Calcula-se que criadores perderam muito dinheiro, na casa de milhões de dólares, com essa apunhalada nas costas.
Em nota enviada ao site The Verge, Josh Criscoe, VP corporativo de Comunicações do PayPal, disse que a Honey, operada separadamente, atua de forma honesta no mercado, e "não faz uso" da estratégia de duplo clique (substituição dos links de afiliados por próprios); ele acrescentou que a matriz contesta todas as acusações, e que "defenderá vigorosamente" seus interesses.
Os influenciadores acusados por MegaLag de fazerem parte do esquema também se defendem, dizendo que "não sabiam" do esquema do cupom oculto, e alegam serem, com razão, também vítimas do golpe, por perderem muito dinheiro de comissões.
De qualquer forma, o circo foi armado, e no fechar das cortinas de 2024, o escândalo escalou para uma inevitável ação pública, aberta (cuidado, PDF) na Corte Distrital do Norte da Califórnia, a mesma que cuida do caso Epic Games vs. Apple, contra a Honey e o PayPal, por ser dono da empresa e, por extensão (heh), responsável pelo golpe que tomou comissões de diversos influenciadores.

Tendo influência direta ou não, o PayPal vai responder na Justiça pelo golpe da Honey (Crédito: Reprodução/acervo internet)
Esta não é a primeira vez que a Honey é alvo de polêmica: em janeiro de 2020, pouco depois do PayPal comprar a empresa por US$ 4 bilhões, a Amazon acusou a extensão de ser um "risco à segurança", e orientou usuários a desinstalá-la; na época, isso foi entendido como um ataque do então CEO Jeff Bezos à rival, que opera o eBay e nunca foi oferecida como método de pagamento aos usuários da gigante.
Como o processo movido na Califórnia contempla inicialmente os criadores de conteúdo, pelas comissões afanadas pela Honey, ainda é cedo para saber se haverá outros movimentos em prol dos consumidores, os que foram ludibriados quando a extensão escondeu melhores descontos no ato de suas compras; em todo caso, a orientação dada a todos é não instalá-la, ou removê-la de seu navegador, caso você a use.
Fonte: Business Insider