Carlos Cardoso 1 ano e meio atrás
Alexander Lukashenko é, admito por ele próprio, o ditador plenipotenciário da Bielorrússia, mas nem sempre foi assim. Uma das figuras mais pitorescas e nefastas da Europa, Lukashenko foi eleito primeiro Presidente do País em 1994, e gostou tanto que permanece no cargo até hoje.

Alexander Lukashenko, ditador da Bielorrússia (Crédito: Reprodução Internet)
Lukashenko usa uma excelente estratégia para permanecer no poder: faz tudo que Vladimir Putin manda, e reprime com mão-de-ferro e apoio russo qualquer manifestação que se oponha a ele. Isso, claro, gera distorções como controle da mídia, repressão de imprensa, censura e a proibição de tirar foto da nuca do Presidente, Lukashenko não quer que saibam que está ficando careca.
As tropas da Bielorrússia ainda não entraram ativamente na Guerra com a Ucrânia, mas se concentram na fronteira, fazendo com que Kiev tenha que posicionar tropas de seu lado, para evitar surpresas. Como agravamento das hostilidades, Putin (diz que) mobilizou armas nucleares na Bielorrússia, fazendo que Lukashenko desse entrevistas se gabando de ser uma potência nuclear, mas dificilmente ele tem acesso sequer às bases onde as armas estão. Se estiverem.
Como todo bom ditador, Lukashenko tem delírios de grandeza, e como bom lacaio, ele compartilha inimigos com Putin. Fora Zelensky, apesar do que o povo do Reddit acredita, ninguém é mais inimigo de Putin do que Elon Musk; o pronto atendido ao apelo da Ucrânia no começo da Guerra, com o fornecimento de terminais Starlink, foi fundamental para a sobrevivência do país.
No dia da Invasão, serviços como Viasat e outros terminais de comunicação via satélites geoestacionários foram hackeados e desabilitados; Starlink continuou funcionando. Os russos agora compram terminais Starlink via atravessadores e laranjas, e os usam na linha de frente, onde é mais complicado identificar e desabilitar terminais.
Isso, claro, não é o suficiente, e em um hilário vídeo, Lukashenko aparece sendo apresentado a um sistema de comunicações via satélite por Vadim Romaniv , Chefe de comunicações militares da Bielorrússia.
O Pravda russo divulgou o tal sistema, com a manchete:
Que tal essa, Elon Musk? O exército bielorrusso recebeu novos complexos de comunicação móvel "Kulisa" – análogos do Starlink
O site de notícias ucraniano United24Media manchetou:
Bielorrússia revela réplica do sistema Starlink que vai “deixar Elon Musk nervoso”
O tal sistema, chamado Kulisa, está sendo vendido como solução local pronta e acabada que desbancará a Starlink, que sequer é vendida (devido a embargos e proibição local) na Bielorrússia ou na Rússia Rússia.
Na prática, a apresentação foi total e completa propaganda, do mesmo nível da tal Empresa chinesa que teria feito acordo com o Governo Brasileiro e foi vendida pela mídia local como “Concorrente da Starlink”, quando, na prática, só lançaram 36 satélites, e em nenhum modelo possível ou imaginável a conta fecha, teriam que lançar sozinhos mais foguetes do que a China lançou em um ano inteiro, para chegarem a uma constelação viável.

Starlink mini. Esse brinquedo é capaz de comunicação bidirecional via satélite (Crédito: Divulgação/SpaceX/kibei do Tecnoblog)
A Bielorrússia não tem essas preocupações; assim como o Brasil eles não têm um programa espacial, só fingem ter uma agência estatal na área; uma reportagem de duas semanas antes mostrou mais detalhes do tal sistema Kulisa, e nada mais é que um bom e velho acesso internet via satélite geoestacionário.
Você sabe, aquele serviço caro, lento, com franquia limitadíssima, e usa uma antena banda Ku convencional, daquelas que a gente usa para TV por Assinatura tipo Sky.

Pfffff (Crédito:United24Media)
Nas imagens dá para ver uma antena WIFI, um access point dos mais vagabundos e um daqueles powerbanks tipo EcoFlow que por algum motivo o pessoal resolveu chamar de gerador. Em outra foto dá pra ver a antena do sistema, mais que familiar.
Esse tipo de antena é 100% direcional, e impossível de ser usada em um veículo em movimento, como a Starlink, que com sua tecnologia de phased array é utilizada em drones ucranianos, aéreos e navais, está sendo implantada em aviões comerciais e extra-oficialmente, até em navios de guerra.
Outro problema é o ping. Um satélite Starlink opera a uma altitude de uns 300Km. Um satélite geoestacionário, fica a 35.786 km de altitude. Por causa de Einstein, maldito, a velocidade da Luz é finita, então na melhor das hipóteses, com satélites esféricos no vácuo, um sinal de rádio saindo de um ponto em terra teria que subir até o satélite, ser processado e descer até um receptor. São 71.572 km, 238 ms na velocidade da luz.
Boa sorte controlando um drone com um lag de 238 ms, que, na prática, pode variar entre 500 e 600 ms, por causa do processamento, controle de erros, etc.
No final, essa história toda serve como momento para ridicularizar ditadores com ilusões de grandeza, o que é sempre bom, mas também serve para demonstrar como a mídia funciona em um país sem liberdade de imprensa, repetindo a propaganda oficial sem nenhum senso crítico.
Claro, o que é triste mesmo é que a nossa imprensa -e isso aposto quantas Narjaras Turetas vocês quiserem- nos próximos dias vai repetir a notícia da “Bielorrússia humilhando Elon Musk”, também com zero apuração, crítica ou questionamento das “fontes oficiais”.