Dori Prata 1 ano e meio atrás
A atual geração de consoles trouxe consigo uma tendência que deixou muitos consumidores insatisfeitos. Com a justificativa de os custos de produção terem aumentado muito, várias editoras passaram a cobrar US$ 70 por um lançamento, uma diferença de US$ 10 que pesou no bolso de todos. Mas e se eu te disser que lá em 1995 houve um jogo para Mega Drive que chegou às lojas norte-americanas custando US$ 100? Seu nome? Phantasy Star IV: The End of the Millennium.
Mas se pensar em um jogo lançado atualmente por este valor pode parecer absurdo, é preciso levar em consideração que o preço foi praticado há quase três décadas, quando essa quantidade de dinheiro podia comprar muito mais. Segundo o site do Federal Reserve Bank of Minneapolis, hoje essa quantia seria o equivalente a US$ 206,35!
Mas afinal, qual a explicação para aquele RPG ter sido lançado nos Estados Unidos custando tão caro? Pois a resposta não é tão simples de ser obtida, passando pela memória das pessoas e um bom tanto de especulação.
Navegando pelo Reddit vi muitos jogadores colocando a culpa no custo de produção dos cartuchos, e na quantidade de memória que o Phantasy Star IV trazia, 24 megabits, ou três vezes mais que o capítulo anterior da franquia. Também vi pessoas alegando que aquilo aconteceu em um mercado muito menor que o atual ou afirmando que as empresas não podiam lucrar com microtransações, o que elevava o preço praticado.
Essas podem ser boas justificativas, mas não explicam porque quase todos os outros jogos da época não chegaram a uma centena de dólares. Digo quase, porque há pelo menos uma exceção e que também saiu para o Mega Drive, estou falando do Virtua Racing. Como pode ser visto na propaganda abaixo, sem o desconto aquele cartucho era vendido por US$ 90, valor que era justificado por um chip que permitia o console rodar o jogo de corrida em 3D.
Caro, não é mesmo? O que dizer então deste anúncio, onde temos o terrível Batman Forever por US$ 64,99 e o WWF WrestleMania: The Arcade Game custando ainda mais, por US$ 69,99. Sim, os jogos naquela época não eram baratos.
Também não pense que esse problema era exclusividade do videogame da Sega. Para comprar um Street Fighter Alpha 2 ou um Ultimate Mortal Kombat 3 para o Super Nintendo seria preciso gastar US$ 69,99, em cada um. Daquela época é possível encontrar até mesmo anúncios do NBA Jam por US$ 89,99 e do Final Fantasy III por US$ 99,99. Seria então pura ganância da rede de lojas Toys "R" Us. Pois novamente, não é tão simples.
Uma prova de que aquele foi mesmo o valor praticado pela Sega está na página 35 da 69ª edição da revista Electronic Gaming Monthly. Na área dedicada a reviews, um dos avaliadores escreveu o seguinte sobre o Phantasy Star IV:
“Tendo jogado o segundo e o terceiro jogos, esperei o PS4 como um bem-vindo desafio e não me desapontei. A nova técnica de magia em que você combina feitiços foi um plus. Tudo, desde a missão principal aos muitos personagens, te manterá grudado na TV; eu sei que fiquei. Ou talvez seja o fato de o jogo custar quase US$ 100. Ai! É um ótimo jogo, mas o preço assustará muitos jogadores.”
Já uma segunda prova — e possível explicação para um preço tão alto — teria sido dada por Victor Ireland, ex-presidente da Working Designs. Recentemente ele participou do podcast Retro Hangover e em determinado trecho da conversa, o homem responsável por trazer muitos JRPG para o ocidente falou sobre como esteve envolvido no lançamento do quarto Phantasy Star.
“O motivo pelo qual o Phantasy Star IV saiu nos Estados Unidos pela Sega foi por minha causa. Ele não deveria ter saído. Eles o rejeitaram e descobri isso porque estava lidando muito com a Sega Japan. Eu disse, ‘oh meu Deus, com certeza vou licenciá-lo. Faremos um cartucho.’ Eu não queria fazer cartuchos, porque eles eram caros no início, mas sabia que aquilo venderia muitos jogos.
Então a Sega Japan foi à Sega US porque eles tinham um relacionamento adversário, sejamos honestos. E eles disseram, ‘bem, olha, se isso é tão ruim, por que a Working Designs está tão ansiosa para pegar esse jogo e trazê-lo para os EUA?’”
O que aconteceu a seguir, segundo o executivo, foi algo que beira o inacreditável. Para mostrar à divisão japonesa da empresa que o jogo não tinha apelo nos Estados Unidos, a Sega of America teria preferido fazer uma mudança no valor que costumava cobrar pelos seus lançamentos.
“A Sega US estava tipo, ‘olha, ok, pegaremos esse jogo, vamos colocar seu preço tão alto que ninguém o comparará, então poderemos provar que estávamos certos no final, quando as vendas forem ruins’.
A assessoria de imprensa estava tipo, ‘oh, é por ser uma ROM grande, blá, blá, blá.’ Não teve nada a ver com isso. Se tivéssemos feito ele, teria sido um jogo de US$ 69, sem problemas. E eles poderiam tê-lo feito por US$ 69 também, mas colocaram um preço de cem dólares porque não queriam vender.
Eles queriam que as vendas fossem baixas para que a Sega Japan ficasse tipo, ‘oh, a Sega US estava certa. Bom, surpresa, [os cartuchos] esgotaram. Ele foi muito popular, mesmo por cem dólares... e eu fiz alguns inimigos na Sega US.”
Até que ponto Victor Ireland está correto em sua declaração, talvez nunca saibamos, mas o fato é que existia uma enorme rixa entre as divisões americana e japonesa da Sega, e por isso não descarto que uma ou outra tenham tentado sabotar alguns jogos. No caso do Phantasy Star IV, vale notar que embora ele tenha saído no Japão em dezembro de 93, só foi aparecer nos Estados Unidos em fevereiro de 95.
Outro fato é que aquele foi o primeiro capítulo da franquia a não receber localização para o nosso idioma e assim, muitos que aprenderam a amar RPGs devido ao trabalho realizado pela Tectoy, tiveram que aproveitar a aventura de Chaz Ashley e cia. em inglês mesmo.
Hoje, obter uma cópia do Phantasy Star IV é muito mais simples e barato do que há 29 anos, e isso graças a distribuição digital. Porém, essa é uma facilidade que acabará em breve. De acordo com uma publicação feita pela Sega, a partir de 6 de dezembro a linha Sega Mega Drive Classics será removida do Steam, Xbox, PlayStation e Nintendo Switch e com isso, dezenas de jogos deixarão de ser vendidos, incluindo aí o RPG criado por Rieko Kodama, Toru Yoshida e Kiyoshi Takeuchi.
Portanto, mesmo desconfiando que a empresa esteja programando o lançamento de outra coletânea que substituirá essa, é bom grantir logo a sua cópia. É importante dizer que, aqueles que comprarem esses jogos agora poderão continuar jogando normalmente, mesmo após essa data.
O valor do pacote varia de acordo com a plataforma escolhida, mas hoje ele está mais barato loja da Valve, saindo por R$ 117,51. Por lá também há a opção de comprar cada jogo individualmente, por R$ 3,49, além deles terem suporte a mods, o que inclui localizações feitas pelos fãs e assim podemos ter o Phantasy Star IV em português.
Fonte: Time Extension