Ronaldo Gogoni 1 ano e meio atrás
As sondas Voyager 1 e 2 seguem em sua longuíssima missão de 47 anos e contando, e são hoje objetos construídos pela mão humana mais distantes da Terra. Elas deveriam explorar apenas o Sistema Solar exterior, mas hoje se encontram nos limiares de nossa cercania cósmica, o que não foi alcançado sem que passassem por uma penca de perrengues.
Ambas sondas apresentaram problemas de comunicação, e ficaram meses sem dar sinais de atividade, em ocasiões distintas. O novo pepino envolve a Voyager 1, que voltou a apresentar bugs e desligou o transmissor principal de rádio, e mudou para um backup mais fraco, que não era usado desde 1981.
As sondas Voyager 2 e 1, lançadas nessa ordem em 1977, foram mantidas na ativa muito além da missão original, que deveria durar apenas 4 anos, principalmente por ainda estarem funcionando plenamente, o que viabilizou serem direcionadas para coletar dados das regiões mais distantes do Sistema Solar, até finalmente mergulharem no Espaço profundo.
A uma distância de 165,2 UAs (Unidades Astronômicas, sendo 1 UA = a distância entre o Sol e a Terra), ou 24,7 bilhões de km, ela é efetivamente a sonda mais distante de nós, e assim como a Voyager 2, está no limiar do alcance dos instrumentos da Deep Space Network; a estimativa é que ambas fiquem sem energia entre 2025 e 2036, virando caixas de metal transportando o disco dourado de Carl Sagan, um registro da nossa civilização a quem as encontrar, se encontrar.
Até lá, as Voyager vão mandando sinais de vida e dados dentro do possível, o que vem ficando cada vez mais difícil, conforme o tempo passa. A Voyager 2 ficou uma temporada sem se comunicar, e a Voyager 1 mandou um monte de dados incompreensíveis entre novembro de 2023 e março de 2024, o que foi resolvido com uma senhora gambiarra.
Só que como o tempo e o Espaço não perdoam ninguém, os componentes das sondas vão se desgastando e os bugs vão se acumulando, e na falta do Superman, não é possível dar manutenção nelas. No rolo mais recente com a Voyager 1, ela recebeu um comando no dia 16 de outubro de 2024, para desligar um de seus aquecedores, que a impedem de congelar, o que ela deveria responder com dados de engenharia; o delay nas comunicações é de 23 horas, mais 23 para voltar.
O problema, o comando aparentemente foi entendido de outra forma, e a Voyager 1 ativou seu sistema de proteção contra falhas, de resposta autônoma a problemas detectados. Entre outras coisas, ele reduz a frequência nas respostas para economizar energia, e modifica o sinal enviado pelo transmissor principal, que opera na Banda X (8 a 12 GHz), reservada a comunicações via satélite de alta prioridade.
No dia 17 de outubro, o time da Deep Space Network (DSN), responsável por monitorar as Voyagers, localizou o sinal, mas no dia 19, a sonda o desligou completamente, após dois supostos acionamentos adicionais do sistema anti-falhas. Como medida alternativa, a espaçonave religou, de forma autônoma, o transmissor secundário desativado em 1981, mas este opera na Banda S (2 a 4 GHz), usada por radares meteorológicos e alguns sistemas de comunicação via satélite, geralmente de baixa prioridade.
Nota adicional: os satélites sino-brasileiros da família CBERS, incluindo o que "retornou ao planeta" e o que subiu sem software, foram projetados para operar na Banda S.
Embora o sinal da Banda S seja mais fraco (a velocidade é a mesma, ondas de rádio viajam na velocidade da luz), o transmissor secundário foi incluído no projeto para ser usado enquanto ambas as sondas estivessem perto da Terra; por outro lado, 24,7 bilhões de km definitivamente não é ali na esquina, e a NASA não tinha certeza se seria capaz de captar o sinal de retorno.
Ainda assim, no dia 22 de outubro a DSN resolveu tentar e mandou um sinal, para confirmar se o transmissor de Banda S estava funcionando corretamente, e no dia 23, conseguiu restabelecer contato com a Voyager 1, apesar dos "contratempos". O que a NASA não quis fazer, foi mandar outro comando para religar a antena principal, por preocupação de que ele ativaria outro bug.
A agência espacial norte-americana vai agora investigar o que diabos aconteceu para a Voyager 1 confundir pau com pedra na mensagem inicial, para encontrar uma forma de corrigir os problemas e religar o transmissor de Banda X, de modo a manter uma comunicação decente até o dia em ela, e sua irmã Voyager 2, fiquem sem energia e se calem para sempre.
Até lá, a NASA vai ter que se virar mandando comandos para um transmissor que opera dentro da mesma faixa que uma antena UHF.
Fonte: NASA