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China anuncia novas restrições a games online

Novas regras para games online na China, proibindo gachas e loot boxes para menores, causam pânico e fazem Tencent e NetEase perderem bilhões

26/12/2023 às 9:50

O governo da China havia avisado, meses atrás, que as já vigentes restrições a games online no país, incluindo a que limita a jogatina por menores em apenas três horas semanais, eram "brandas demais", mas ninguém imaginava o que estaria por vir.

Na última sexta-feira (22), a Administração Nacional de Imprensa e Publicações (NPPA), o órgão regulador de mídia do país, publicou uma preliminar das próximas medidas a serem tomadas, consideradas extremamente punitivas, que causaram pânico no setor local.

O MOBA mobile Honor of Kings, que encabeça a lista de games mais rentáveis, pode perder milhões em receita com as novas restrições (Crédito: Divulgação/TiMi Studio Group/Tencent Games/Level Infinite)

O MOBA mobile Honor of Kings, que encabeça a lista de games mais rentáveis, pode perder milhões em receita com as novas restrições (Crédito: Divulgação/TiMi Studio Group/Tencent Games/Level Infinite)

As novas mudanças atacam diretamente os modelos de negócios dos games online, e suas ramificações, segundo especialistas, terão impacto no mercado global, por afetarem as finanças de gigantes como a Tencent Games e a NetEase, que perderam bilhões de dólares em valor de mercado, da noite para o dia.

Aos menores: nada de gachas e loot boxes

Em agosto de 2021, o jornal estatal China Economic Information Daily publicou um artigo, classificando os games online como "ópio espiritual" e "drogas digitais", argumentando que "nenhuma indústria ou esporte deve ser permitido se desenvolver de modo a ser capaz de destruir uma geração inteira".

Um dos alvos do artigo foi o MOBA mobile Honor of Kings, desenvolvido pela TiMi Studio Group e considerado o game mais lucrativo de todos os tempos, com uma base instalada de mais de 100 milhões de jogadores ativos diários, e uma receita média de US$ 200 milhões/mês. A publicação criticava o fato que seus jogadores, em sua maioria menores de idade, passavam mais de 8 horas por dia, todos os dias, jogando-o.

O jornal estatal conclamava pela regulação da indústria de games no país, de modo a forçar os desenvolvedores a combaterem o vício digital dos jovens, especialmente os em idade escolar, visto que os valores do Partido Comunista da China estavam sendo postos em segundo plano, pela indústria e população. Já em 2020, o governo chinês começou a distribuir processos e punições a diversas gigantes, da Tencent à Alibaba, por acreditarem estar acima do Partido e de seu secretário-geral, "coincidentemente", o premiê Xi Jinping.

O recado veio a cavalo, o ursi- digo, o camarada Xi deixou claro como cristal que todos seriam reeducados e realinhados a força, não importando quanto dinheiro seria, e realmente foi, perdido. Criadores de conteúdo, e a população em geral, foram lembrados de que tem como dever trabalhar para fortalecer e em prol do Estado, não em benefício próprio, da mesma forma que é obrigação das crianças e jovens estudarem muito, para se tornarem cidadãos produtivos, e fiéis ao governo de Pequim, no futuro.

Considerando que o China Economic Information Daily é um jornal estatal, o artigo era um aviso do que aconteceria. Em setembro de 2021, o primeiro conjunto de restrições entrou em vigor, suspendendo por 8 meses a certificação para o lançamento de novos games, fossem de estúdios locais ou não. Ao mesmo tempo, a regra do login com ID para reconhecer quem acessa jogos online, imposta em 2020, foi modificada.

Originalmente, um menor de idade poderia jogar por 90 minutos/dia, e 3 horas nos fins de semana e feriados, sendo proibido o login entre 22:00 e 8:00 do dia seguinte. Com as novas regras, o tempo foi reduzido para apenas três horas semanais, nas sextas-feiras, sábados, domingos e feriados, e em uma janela fixa, das 20:00 às 21:00. Crianças abaixo de 8 anos já eram banidas de games com microtransações, e isso não mudou.

Embora mais de 75% do público menor de idade tenha aderido às novas regras, o governo considerava as mudanças ainda muito brandas, e prometeu que elas seriam endurecidas, sem clarificar como. Ainda assim, a totalidade dos estúdios e jogadores não esperavam por uma bordoada tão grande. Os alvos do governo, desta vez, são os modelos de negócios dos games online.

As novas regras banem por completo os "incentivos" para login diário em games online, recompensas diversas dadas ao jogador apenas por abrir o título todos os dias. Em geral, games com essa mecânica usam um sistema de calendário, no que o próximo brinde não é atrelado ao dia, e sim ao login consecutivo. Logo, para recolher todos os itens do mês (os mais valiosos são oferecidos, em geral, nos últimos dias), o jogador tem que logar diariamente.

Gachas como os games da Hoyoverse, incluindo Zenless Zone Zero, que sai em 2024, não poderão ser jogados por menores na China (Crédito: Divulgação/Hoyoverse)

Gachas como os games da Hoyoverse, incluindo Zenless Zone Zero, que sai em 2024, não poderão ser jogados por menores na China (Crédito: Divulgação/Hoyoverse)

Outra mecânica, considerada ilegal no texto preliminar, é a estratégia para incentivar a compra de moeda premium, com quantidades bônus na primeira aquisição, e "resets" da promoção de tempos em tempos, geralmente, uma vez por ano. Promoções que oferecem recompensas após compras consecutivas foram também proibidas, o que pode ser esticado para incluir também os Passes de Batalha.

Porém, a maior bordoada envolve os gacha games e os que oferecem loot boxes. As novas regras proíbem o acesso por menores de idade a títulos que fazem uso de "recursos de sorteio baseados em probabilidade", seja a chance de ganhar um item interessante em uma caixinha, ou resgatar aquela personagem maneira no banner limitado, em ambos os casos, usando moedas virtuais que podem ser repostas com dinheiro real.

Já é fato conhecido que gachas e loot boxes usam de estratégias para incentivar o jogador a continuar girando a roleta ou comprando caixinhas, até conseguir o que deseja, e não é segredo para ninguém que uma parcela considerável do público de games como Genshin Impact, PUBG Mobile (na versão local Game for Peace), Free Fire, Honkai: Star Rail, Arknights, Fate/Grand Order, Blue Archive, Azur Lane e vários outros similares, são crianças e adolescentes.

Caso as regras entrem em vigor em 2024, da maneira que foram apresentadas, estes não poderão mais jogar tais games, levando a uma queda brutal da base instalada e receita, em todos esses games e em muitos outros mais.

Por outro lado, e isso é benéfico ao jogador, itens e personagens disponibilizados em loot boxes ou banners em gachas terão que ser oferecidos também de forma direta, para serem comprados com dinheiro, basicamente se convertendo em DLCs pagos. Assim, só quem quiser se engajará de abrir caixinhas ou girar roletas, os demais poderão optar por abrir a carteira, mas com um valor determinado, sem depender da sorte.

Outa mudança pró-jogadores mira no temido End of Service, ou EOS, quando os servidores são fechados e o game sai do ar. Quando um título atinge tal estado, a desenvolvedora fica obrigada a reembolsar todas as moedas premium não gastas, em dinheiro.

Não obstante, estúdios terão que impor um limite de quanto dinheiro pode ser colocado em carteiras digitais, o que pode ser entendido como um máximo de quantas moedas premium poderão ser adquiridas, e para estúdios internacionais, os dados de seus games deverão ser armazenados em servidores locais, viabilizando o escrutínio dos mesmos por autoridades da China, em especial dos usuários.

China bane leilões em games

O novo conjunto de diretrizes para o mercado chinês de games mira também naqueles que oferecem mecânicas para leilão de itens. Quaisquer meios que permitam a especulação e negociação de equipamentos e outros bens ingame serão também proibidos, sem meios-termos, diferente da proibição de gachas e loot boxes para menores. Aqui, não pode para ninguém e ponto final.

Vários games, como Path of Exile, controlado pela Tencent, possuem recursos voltados a leilões, com ambientes dedicados, enquanto outros implementam a venda dos itens por outros meios. As novas regras banem completamente a prática, para combater a monetização paralela e o mercado especulador de itens em jogos, que movimenta muita grana.

Casas de leilões em games, como a de Path of Exile, serão também banidas (Crédito: Reprodução/Grinding Gear Games/Tencent/Garena/Kakao Games)

Casas de leilões em games, como a de Path of Exile, serão também banidas (Crédito: Reprodução/Grinding Gear Games/Tencent/Garena/Kakao Games)

Nem tudo são notícias ruins (para a indústria), entretanto. As diretrizes formalizarão o processo de licenciamento de novos títulos, estabelecendo um prazo máximo de 60 dias para os reguladores analisarem uma nova submissão; uma vez aprovado, a desenvolvedora terá uma janela de 12 meses para lançar o game. Como um sinal de boa-vontade, a NPAA anunciou também na última sexta-feira (22) a liberação de 40 novos títulos, de estúdios externos à China.

Perdas e efeitos no mercado global

Embora tais mudanças sejam voltadas exclusivamente para games online na China, especialistas apontam que os efeitos da nova legislação serão sentidos em todo o globo, por mexer nas finanças de praticamente todos os estúdios locais. Muitos desses, grandes ou pequenos, possuem versões dos mesmos games no Japão, Coreia do Sul, Taiwan e no ocidente, e com uma redução significativa da receita em casa, muitos serão forçados a rever seus planos de negócios também internacionalmente.

As consequências também afetarão o mercado de títulos de outras vertentes, mesmo os offline e AAAs. A gigante Tencent Holdings, por exemplo, que é dona de estúdios como Riot Games (League of Legends, Valorant), controla s Supercell (Clash of Clans) e a Grinding Gear Games (Path of Exile), e detém participação minoritária em estúdios como Epic Games, Ubisoft, Krafton (PUBG) e Activision Blizzard, entre outros, teve uma perda acentuada de 16% nas ações assim que as medidas foram anunciadas.

Sua rival local, a NetEase (Diablo Immortal, Naraka: Bladepoint), dona dos estúdios Quantic Dream (Detroit: Become Human), Grasshoper Manufacture (No More Heroes, Lollipop Chainsaw) e Skybox (co-desenvolvedora de games das séries Halo, Age of Empires e Minecraft) sofreu um tombo ainda maior, com seus papéis desvalorizando em 25%. Somados, o prejuízo de ambas companhias foi de aproximadamente US$ 80 bilhões.

Com Tencent, NetEase, e outras grandes companhias chinesas que investem em games perdendo muito dinheiro com as modificações, a disponibilidade de verba para novos projetos de estúdios parceiros no ocidente pode também ser reduzida, sem mencionar a possibilidade disso se reverter em uma nova onda de demissões na indústria, a fim de conter os gastos e reduzir as perdas.

O governo da China espera submeter as novas regras para consulta pública a partir de 22 de janeiro de 2024, e espera-se que elas entrem em vigor, com ou sem modificações, no mesmo ano.

Fonte: Reuters, GamesIndustry.biz

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