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Streets of Rage — Pelas ruas de Wood Oak City

Nascida como uma resposta da Sega ao sucesso do Final Fight, Streets of Rage se tornou (merecidamente) uma das séries mais adoradas pelos fãs de beat 'em up

27/12/2022 às 11:44

Entre o final da década de 80 e início da de 90 havia um estilo de jogo que arrastava uma multidão consigo. Nos colocando para lutar contra perigosas gangues, os beat-'em-ups tomaram os fliperamas e depois migraram para os consoles. Títulos como Double Dragon e River City Ransom faziam muito sucesso no NES, mas após uma parceria com a Capcom, a Nintendo conseguiria um trunfo difícil de ser superado.

Disponibilizado com o lançamento da versão japonesa do Super Nintendo, Final Fight levava os jogos de briga de rua a um novo patamar, com seus gráficos e jogabilidade superando muito os títulos do gênero até então. Tal conversão fez com que a Sega ficasse para trás naquela corrida armamentista, mesmo com o Mega Drive contando com jogos como Golden Axe e Alien Storm. Por se tratarem de aventuras baseadas em fliperamas antigos, elas não conseguiam chamar tanta atenção quanto àquela estrelada por Guy, Cody e Haggar.

streets of rage

Crédito: Reprodução/Black Squirrel/Sega Retro

Foi então que Noriyoshi Ohba teve uma ideia. Após terminar o desenvolvimento do The Super Shinobi, o game designer acreditou que poderia melhorar o que a Capcom havia feito para o SNES e convidou o compositor Yuzo Koshiro para que criassem um beat-'em-up. O objetivo deles seria preencher algumas brechas deixadas pelo Final Fight, como oferecer três personagens selecionáveis e principalmente, permitir que duas pessoas jogassem simultaneamente.

Para o projeto que iniciou com o codinome D-SWAT eles teriam como inspiração, além dos próprios jogos do gênero, as séries Starsky & Hutch e Esquadrão Classe A. Com uma equipe formada por apenas oito pessoas, entre elas o game designer Hiroaki Chino, o programador Hiroshi Momota e o artista Atsushi Seimiya, eles levariam de julho a dezembro de 1990 para desenvolver o jogo que acabaria conhecido como Bare Knuckle no Japão e Streets of Rage no resto do mundo.

Nele conheceríamos a história de Wood Oak City, uma cidade fictícia localizada nos Estados Unidos e que embora prosperasse, seus dias de calmaria estavam contados. Com a ascensão do crime organizado, um sujeito conhecido como Mr. X e que estava à frente de uma organização chamada Sindicato passou a controlar o lugar, com a população logo se encontrando vivendo num dos lugares mais perigosos do país.

“Esta cidade já foi feliz. Um lugar pacífico... Até que um dia uma poderosa organização criminosa secreta assumiu. Este sindicato perverso rapidamente assumiu o controle do governo e até mesmo da força policial. A cidade se tornou um centro de violência e crimes onde ninguém está seguro.”

Da sequência de abertura do Streets of Rage

Crédito: Reprodução/Neocube/Moby Games

Porém, três jovens policiais não aceitaram se submeter a poder do Sindicato e após pedirem demissão da polícia, formaram uma força tarefa cujo objetivo seria combater Mr. X e seus asseclas. Para isso, Adam Hunter, Axel Stone e Blaze Fielding teriam ajuda apenas de um oficial que se mantinha incorruptível, um herói sem nome que poderia ser invocado de tempos em tempos e que faria chover fogo sobre os bandidos. Ah... ainda me lembro de apertar o botão A no início do jogo para ver o que acontecia e sem querer disparar aquele especial…

Outra lembrança que ficou gravada no meu cérebro foi a fantástica trilha sonora composta pelo mestre Yuzo Koshiro. Influenciado pelos clubes noturnos que frequentava na época, ele foi o responsável por levar gêneros como techno, house e hip hop aos games, fazendo com que nenhuma outra série tenha tanto a cara dos anos 80 quanto a Streets of Rage.

Segundo o compositor, sem que a Sega lhe dissesse como deveria ser a trilha do jogo, ele sugeriu a adoção de músicas eletrônicas e produziu uma demo. Como o departamento de consumidor da empresa gostou do que ouviu, ele considerou aquilo um golpe de sorte, já que o estilo não era popular no Japão.

“A música eletrônica estava crescendo em popularidade no exterior naquela época, mas não era muito conhecida no Japão,” declarou Koshiro. “Mas especialmente na América do Norte, onde o Mega Drive estava vendendo bem, as músicas eletrônicas tocavam constantemente na MTV e tal. Então, eu sabia que eles adoravam a música eletrônica, e pensei que se pudesse colocá-la no jogo, então eles realmente ficariam felizes. Acho que foi a primeira vez que compus músicas pensando no mercado externo ao invés do mercado japonês.”

Crédito: Reprodução/Neocube/Moby Games

O que nem todos sabem é que inicialmente o enredo proposto para o Streets of Rage era sensivelmente diferente do que acabamos recebendo. Conforme revelado pelo livro Sega Mega Drive/Genesis: Collected Works, de Keith Stuart, a onda de crimes que varre Wood Oak City, na verdade, aconteceria no mundo inteiro, o que levaria as autoridades a criarem o esquadrão Dragon-Swat, ou simplesmente D-Swat.

Tal nome se deve ao curioso fato de que os integrantes daquele time não poderiam usar armas de fogo, restando-lhes os punhos para acabar com os bandidos. E entre os escolhidos para essa dura tarefa estariam os seguintes protagonistas:

  • God Hand, um praticante de karatê nascido em Chicago e que mais parecia o Chuck Norris. Foi dele que nasceu Hawk, um lutador que depois teria sua identidade alterada para Axel Stone.
  • Black Bird, um especialista em artes marciais vindo de Londres e que na versão beta do Streets of Rage era chamado Wolf. Depois ele teria seu nome alterado para Adam Hunter e se tornaria um dos personagens mais adorados pelos fãs.
  • Por fim tínhamos Pink Typhoon, uma lutadora de kung fu nascida em Hong Kong cujo visual lembrava muito o da Chun-Li, do Street Fighter II. Posteriormente a mulher seria rebatizada como Blaze Fielding e se tonaria um ícone dos videogames.

O documento que detalhava o jogo ainda falava sobre algumas regras que foram mantidas até a versão final, como a impossibilidade de escolhermos personagens iguais quando estivéssemos jogando na companhia de outra pessoa ou de sermos golpeados pela frente enquanto seguramos um inimigo pelas costas. Ele também estabelecia um tempo de invencibilidade sempre que nossos lutadores fossem derrubados ou após reaparecerem ao perdermos uma vida.

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Crédito: Reprodução/Roedie/Moby Games

Encarar o Streets of Rage hoje, com o gênero tendo feito tanto progresso e as suas continuações tendo o superado em quase todos os aspectos, pode ser uma missão bastante difícil. Sua jogabilidade parece um tanto engessada e os gráficos mostram os sinais da idade. Porém, a trilha sonora de Yuzo Koshiro ainda faz valer a viagem e a batalha contra o Mr. X, com a possibilidade de nos juntarmos ou não ao Sindicato, continuam fazendo a viagem valer a pena. Até hoje acho fantástica a ideia de colocar os dois jogadores para duelarem caso um opte por ceder ao convite do chefão e o outro não, ou de podermos nos tornar o chefão do Sindicato.

Porém, na época em que ele foi lançado não existia nada parecido no Mega Drive e aquele jogo conseguiu o que parecia impossível: mostrar à Capcom e à Nintendo que existia vida além do Final Fight. Hoje eu não diria que a criação de Noriyoshi Ohba conseguiu superar o rival, com seu pequeno número de inimigos e o limitado nível de detalhes visuais não tendo envelhecido muito bem.

No entanto, pensando na série como um todo e em como as duas continuações lançadas para o Mega Drive trouxeram diversas melhorias, especialmente no sistema de combate, acredito que as ruas de Wood Oak City acabaram se tornando perigosamente mais divertidas que as de Metro City. Pelo menos as músicas de lá são bem melhores.

Mas admito que o meu carinho pelo Streets of Rage pode ter sido contaminado pela nostalgia. Ele e o Super Hang-On foram os cartuchos que vieram com o meu Mega Drive e como na época era muito difícil achar jogos do console para alugar, foram muitas e muitas horas dedicadas a ambos. Porém, o jogo de corrida de motos não me marcou tanto quanto o de briga de rua e por isso considero que a paixão que adquiri pelos beat-'em-ups se deve principalmente ao tempo que passei ao lado de Adam, Axel e Blaze.

Crédito: Reprodução/Rachid Lotf/ArtStation

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