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As 11 Maiores Fraudes na História da Ciência - Parte II – a missão

Fraudes na Ciência - sim, esta é a parte dois do artigo enorme de uns dias atrás, com mais casos cabelos de como a ciência foi pervertida

26/12/2022 às 18:20

Fraudes na história da Ciência sempre existiram, sempre existirão. Algumas são óbvias, outras levam décadas para ser descobertas. A quantidade é imensa, então aqui está a segunda parte deste artigo gigantesco com causas mais cabeludos ainda.

Nem toda descoberta científica é totalmente benéfica. (Crédito: Reprodução Internet)

Wakefield e as vacinas que causam autismo

Autismo é uma condição complicada, engloba desde crianças essencialmente catatônicas, a adultos plenamente funcionais, apenas um pouco irritantes. Esse enorme guarda-chuva faz com que o autismo seja muito malcompreendido, diagnosticado e -menos ainda- tratado.

Aproveitando-se dessa situação, em 1998 um picareta chamado Andrew Wakefield publicou no renomado periódico Lancet um artigo onde apontava uma correlação entre autismo e a vacina tríplice viral, que previne Sarampo, caxumba e rubéola.

A imprensa divulgou o caso, e milhões de pais tiveram a resposta que tanto queriam, a explicação do porquê seus filhos nasceram com autismo. Campanhas para banir a vacina tríplice surgiram, logo todo e qualquer tipo de vacina era associado a autismo, o movimento antivaxxer, que sempre existiu, mas era uma minoria insignificante, agora convencia mais e mais pessoas a não vacinar seus filhos.

Andrew Wakefield, o charlatão (Crédito: Guardian)

Epidemias começaram a surgir em vários países, milhares de adultos e crianças ficaram doentes e morreram desnecessariamente. No meio disso, o “Dr” Wakefield desfrutando seu sucesso e popularidade, inclusive entre a elite de Hollywood, como a ex-coelhinha Jenny McCarthy.

Eis que cientistas de verdade aparecem pra apontar os problemas, depois que centenas de estudos foram incapazes de replicar os resultados de Wakefield. Nenhum achou qualquer correlação entre a Vacina Tríplice e autismo.

Entre os problemas descobertos, Wakefield ignorou vários conflitos de interesse eu seu paper. Entre eles o fato de ter recebido US$45 milhões vendendo um kit para identificar uma síndrome que ele havia “descoberto” e mais ninguém reconhecia, e o fato de ser dono da patente de uma vacina concorrente da Tríplice.

A alegação de autismo fugiu de controle, Wakefield queria desacreditar a Tríplice somente, e para isso acreditou que bastaria um estudo com um monte de co-autores, mas seu paper carecia de relevância estatística. Ele teria estabelecido a correlação entre autismo e vacina estudando um total de... 12 crianças.

Qualquer cientista que se preze vai rir disso, n=12 é um número de casos que só funciona em estudos de psicologia pop. E piora.

Dois garotos com Varíola. Um deles não foi vacinado. Vacinas funcionam. (Crédito: OMS)

Das 12 crianças, 9 teriam desenvolvido autismo, mas dessas, três foram diagnosticadas como não tendo autismo. Todas as crianças foram diagnosticadas por Wakefield como “anteriormente normais”, mas cinco na verdade tinham diagnósticos documentados de problemas de desenvolvimento.

Ah sim, as crianças foram recrutadas entre pais que faziam parte de grupos de militantes contra a Vacina Tríplice.

Os outros autores removeram seus nomes do artigo, em 2004 a Lancet publicou uma semi-retratação, mas o artigo de Wakefield só foi recolhido em 2010. O mal já estava feito, não importa Wakefield ter perdido sua licença para exercer medicina, ele continua responsável por milhares de mortes, incluindo os cloroquiners antivaxers que acham que a vacina do Covid vai transformar gente em Jacaré.

O Escândalo de Schön

Uma das maiores fraudes da Ciência nos últimos 50 anos, o caso do físico alemão Jan Hendrik Schön, em retrospecto, era evidente, mas na época ele era considerado um talento em ascensão.

Recebendo seu PhD em 1997 no campo de Física de Matéria Condensada e Nanotecnologia, Schön logo se tornou figura conhecida na área, ganhando prêmios e trabalhando nos Laboratórios Bell. Ele também se tornou um autor bem prolixo, sua média de Papers publicados era de um a cada oito dias.

Em seus Papers, várias descobertas revolucionárias no campo da química orgânica. Ele alegou ter descobertos supercondutores orgânicos, e ter construído semicondutores compostos de moléculas isoladas, o que estaria décadas adiante da tecnologia normal usada em chips.

Vários cientistas reclamavam que não conseguiam replicar os resultados de Schön, mas ele publicava tanto que ninguém ficava muito tempo em uma pesquisa. Esse excesso de publicações deixou Schön complacente, e um belo dia, alguém percebeu algo peculiar: Um diagrama em uma pesquisa era idêntico a outro diagrama em outro Paper, sem nenhuma relação entre eles.

Hendrik Schon, no tempo em que ainda trabalhava nos Laboratórios Bell e tinha reputação. (Crédito: SFGate)

Schön atribuiu o erro a cansaço, mas novas investigações mostraram que ele havia usado os mesmos dados de ruído em diversos gráficos em Papers diferentes. Em outros gráficos, as curvas eram criadas com equações, não com dados. Claramente indicativo de fraudes.

Uma comissão de investigação dos Laboratórios Bell foi atrás da verdade. Eles descobriram que Schön não mantinha anotações, que todas as amostras de materiais “criados” por ele haviam sido destruídas, e que ele havia apagado os dados brutos de seu computador por ter “pouco espaço em HD”. Ele não dedicou muito tempo para acobertar suas fraudes.

Schön acabou tendo seu PhD revogado, voltou pra Alemanha para trabalhar numa firma de engenharia, e entrou para a História como o sujeito que sozinho atrasou a Ciência de Materiais em uma década. Como lado bom, o caso serviu para mostrar os problemas com o modelo de Revisão Por Pares e a qualificação de cientistas com base em número de Papers publicados.

Os Experimentos de Stanford e Milgram

Eu escrevi em detalhes sobre esses experimentos neste post aqui no Contraditorium <= Jabá, então dá pra ser sucinto:

Em 1961, Stanley Milgram, Professor de Yale realizou um experimento para determinar o quanto uma pessoa comum pode ser convencida por uma autoridade a cometer atos violentos. Ele colocou uma cobaia em uma sala, com um terminal que aplicaria choques progressivamente mais fortes em uma vítima, em uma sala ao lado.

A cobaia ouvia as reclamações, e depois gritos, mas continuava a aplicar choques, sob ordem do líder do experimento, mesmo quando avisada que aplicaria um choque fatal. Claro, não havia choque de verdade, do outro lado era um ator.

Não exatamente assim. (Crédito: Columbia Pictures)

O Experimento de Stanford, dez anos depois, alunos foram separados entre prisioneiros e guardas, e instalados em uma prisão no porão. Estabeleceu-se uma dinâmica natural onde os guardas humilhavam, batiam e hostilizavam os prisioneiros, que por sua vez ficavam ressentidos e planejavam atos de vingança.

Os experimentos mostraram que era muito fácil a criação de uma sociedade fascista, exceto que a controvérsia foi imensa. Hoje os dois experimentos vivem uma estranha situação onde são desacreditados pela Academia, ao mesmo tempo são sempre citados em pesquisas e artigos de divulgação.

No caso do experimento de Milgram, quando a cobaia perguntava se o choque era perigoso mesmo, o experimentador explicava que não causaria dando permanente, e quando chegou nos choques fatais, somente 50% dos participantes achavam que o experimento era real, e desses, 66% se recusaram.

Em Stanford, os “prisioneiros” podiam abandonar o experimento a qualquer momento, vários levaram a coisa como brincadeira, e exageraram nos papéis, imitando a dinâmica de filmes de presidiários, imaginando que era isso que o Professor queria ver.

Era puro teatro. (Crédito: Stanford)

Poucos guardas entravam no papel de vilão, a maioria teve que ser coagida a agir de forma malvada pelo aluno que fazia papel de diretor da prisão.

Talvez seja exagero chamar essas pesquisas de fraudes, mas as evidências mostram que as conclusões estavam erradas e foram induzidas pelos pesquisadores.

Há maldade no coração do Homem, o Sombra sabe, mas estamos longe de ser uma espécie totalmente maligna. A maior taxa de suicídio entre os soldados alemães na 2ª Guerra era entre os alocados em campos de concentração, e mesmo os campos foram criados depois que se tornou evidente que o soldado médio não tinha estômago para participar de execuções e fuzilamentos de civis, o que levou a vários motins entre as tropas, no início da Solução Final.

Mesmerismo

Uma força natural invisível possuída por todos os seres vivos, incluindo humanos, animais e vegetais. Uma força que afeta o mundo físico, com diversos poderes, inclusive o de Cura. Não, não é a Força em Guerra nas Estrelas, é o Magnetismo Vital (Lebensmagnetismus) de Franz Mesmer, e foi considerada uma teoria válida de sua criação, em 1766, até sair de moda de vez por volta de 1925.

Na França, o Rei Luis XVI ordenou que duas comissões investigassem o mesmerismo, as equipes tinham gente do calibre de Ben Franklin e Lavoisier. As conclusões foram que em alguns casos houve cura, mas não havia nenhum indício do tal magnetismo vital, ou animal. Segundo os cientistas, o mesmerismo era uma fraude,  fruto da imaginação dos participantes ou, em pior caso, puro charlatanismo.

Reuniões da elite francesa para praticar mesmerismo (Crédito: Domínio Público)

The end, próximo tópico, certo?

Errado! O mesmerismo continuo a ser praticado entre a elite européia, que adora esse tipo de picaretagem. Mesmer e seus discípulos faziam eventos onde usavam seus poderes para controlar os “raios magnéticos invisíveis” e provocar convulsões, desmaios, sensações esotéricas e similares, curando seus pacientes, em sua maioria mulheres, de toda sorte de mal.

Houve até quem alertasse que o mesmerismo, que nada mais era que uma forma primitiva de hipnotismo, pudesse ser usado para abusar das pobres moças inocentes que buscavam ajuda para tratar seus calores. Não que hipnotismo não seja controverso, mas não chega a ser incluido no rol das fraudes.

Isso em uma época em que a chamada “histeria” feminina era cientificamente tratada através de massagens lá mesmo onde você está pensando. Pra esse povo achar o mesmerismo charlatanismo...

Óbvio que em 1826, uma investigação da Academia Real de Medicina de Paris rejeitou as conclusões anteriores, e encheu a bola do mesmerismo, sem especular sobre a causa dos efeitos, se concentraram apenas nos “resultados”.

Use the Force, Luke... (Crédito: Domínio Público)

Isso deu um novo impulso aos praticantes, foram criadas “escolas” de mesmerismo onde os membros pagavam para conhecer os segredos da arte, sendo mesmerizados diante de seus pares. Na prática era tudo hipnose e sugestão, com uma boa dose do que o Filósofo Bane chama de “subterfúgio e teatralidade”.

Toda a história de “fluído vital” permeando as coisas vivas nunca fez sentido, e seguindo o conceito filosófico de Deus das Lacunas, se o mundo era explicável sem a necessidade de um fluído vital, ele provavelmente não existia.

Com o tempo o mesmerismo foi mais e mais visto como fraude, mas isso não impede que mesmo em 2022 ainda haja grupos naturebas alternativos (e Universidades Federais) oferecendo cursos dessa picaretagem.

As Fraudes Radioativas

Em 1896 Henri Becquerel e Marie Curie descobriram a radioatividade. Na época foi uma revolução, uma nova forma de energia, que ao contrário dos mesmerismos da vida, podia ser identificada, medida e registrada com algo simples como filme fotográfico.

Ninguém ainda sabia dos riscos envolvidos com materiais radioativos, os Raios-X, descobertos um ano antes Wilhelm Röntgen levaram anos até sua associação com riscos de saúde. Somente na década de 1970 foram banidos os pedoscópios, que não é uma máquina para identificar o Herbert, mas um equipamento usando raios-x para observar seus pés dentro de sapatos e garantir um encaixe perfeito.

Irradie seus baixinhos! (Crédito: Reprodução Internet)

Quando Marie e Pierre Curie descobriram o Rádio em 1896 (o elemento, não o aparelhinho) foi uma comoção, elementos não são descobertos todo dia, e suas propriedades radioativas, associado a materiais fluorescentes, faziam com que ele brilhasse no escuro.

Rádio foi imediatamente usado em mostradores de relógios, painéis de instrumentos e decoração, muitas vezes aplicados manualmente por jovens mulheres que lambiam os pincéis mergulhados na tinta radioativa. Isso resultou em mortes horríveis e desfigurantes, empurradas com a barriga por anos pelos responsáveis.

Não bom. (Crédito: Reprodução Internet)

Enquanto isso, o imenso mercado de picaretas oferecia radiação como a cura mágica de todos os males, com tratamentos de imersão em areia de urânio, “salas radioativas”, pílulas e elixires de Rádio, e até supositórios.

A grande sorte é que essas fraudes científicas era fraudulentas em sua essência; os picaretas raramente usavam Rádio, ou qualquer elemento radioativo em suas composições, o que salvou muita gente. Radithor, um dos raros “remédios” que continham rádio de verdade, matou uma boa quantidade de pessoas, nos dez anos em que foi vendido.

Supositórios radioativos. Não recomendo. (Crédito: Reprodução Internet)

Hoje em dia sabemos que radiação é um negócio bem perigoso, mas que bem usado é essencial para diagnóstico e tratamento de doenças bem sérias. O que não aprendemos é que não existe isso de se expor de qualquer jeito a material radioativo e achar que isso “traz benefícios”.  Duvida? Fale pra alguém de Guarapari que as tais areias monazíticas são no máximo efeito placebo... e nem vou mencionar essa bobagem, em um site oficial do Governo do Espírito Santo:

“A junção do tório com urânio promove a radioatividade benigna, que pode ser utilizada em terapias diversas.”

As Fraudes Vegetais de Trofim Lysenko

Trofim Lysenko deveria ser um herói. Ele livrou o mundo de milhões de comunistas, sem usar uma arma sequer. Tudo começou quando, depois de quase 50 anos, os princípios da Hereditariedade propostos por Mendel foram redescobertos, no comecinho do Século XX.

Com uma base científica e matemática para entender o que fazendeiros vinham fazendo instintivamente por milênios, a agricultura se desenvolveu imensamente, com herança genética sendo usada para projetar novas safras, desenvolver híbridos e novas sementes.

Lysenko não queria nada disso. Ele acreditava que plantas podiam ser coagidas a se adaptar rapidamente a mudanças climáticas, chegou a prometer “orquídeas na Sibéria”.  Suas técnicas envolviam enxertos e hibridizações, ele inclusive achava que uma planta enxertada herdava os genes do enxerto -o que até acontece, em casos raros-.

A maioria dos cientistas discordava de Lysenko, mas ele tinha um trunfo na manga. Lembra em Vingadores, quando Loki disse “Eu tenho um exército”, e Tony Stark respondeu “Nós temos um Hulk”?  Lysenko tinha um Stalin.

Lysenko discursando, sob as vistas de Uncle Joe. (Crédito: Pravda, provavelmente)

Tio Joseph gostou do discurso de Lysenko, achou que se encaixava com o conceito do Novo Homem Soviético, ele foi promovido a Diretor do Instituto de Genética da União Soviética em 1940, e cuidou sistematicamente de destruir o instituto por dentro, promovendo suas fraudes.

Lysenko, com autorização de Stalin mandou prender, demitir e executar mais de 3000 cientistas na União Soviética e arredores. Qualquer um que defendesse genética ia pra lista negra. Todas as pesquisas deveriam seguir as idéias dele. Estava instaurado o O Lysenkoismo.

A nascente ciência da Genética foi oficialmente taxada na União Soviética de “pseudociência burguesa”. As soluções para a crise nas fazendas coletivas teriam que vir do Lysenkoismo, que prometia coisas mágicas como transformar uma espécie de trigo em outra. Como? Isso é impossível? Quieto, burguês safado!

Lysenko tinha muita cara de vilão de James Bond. (Crédito: Domínio Público, assim como os meios de produção, camarada!)

Em 1948 o Lysenkoismo foi oficializado, e todos os cientistas foram obrigados a rejeitar publicamente quaisquer outras teorias. Quem levantasse dúvidas era marcado como burguês ou fascista.

Depois da morte de Stalin em 1953 (obrigado, Alexa) a situação ficou menos tensa, mas só em meados dos anos 1960 Lysenko saiu definitivamente de moda, com a biologia soviética tendo que recuperar décadas de conhecimento perdido. Milhões de vidas perdidas desnecessariamente com safras insuficientes ou destruídas por pragas, essas nunca serão recuperadas.

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