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Progresso fez pássaros urbanos mudarem seu canto

Pássaros em centros urbanos têm repertório menor, e cantam em tons mais altos, quando comparados aos irmãos no campo, entre outras diferenças

17/11/2022 às 11:20

Não é segredo que o progresso e a urbanização trouxeram consequências, muitas delas negativas, para o Meio Ambiente, mas algumas delas também apresentam a capacidade que as espécies têm de se adaptar, mesmo em condições adversas. Os pássaros urbanos, como tordos (do qual o sabiá faz parte), beija-flores e outros, já apresentam diferenças marcantes no comportamento, e até mesmo físicas, quando comparados a populações que vivem longe da civilização.

Corruíras urbanas estão começando a divergir, em canto e outras características, em relação a bandos em regiões com menor ruído humano (Crédito: Becky Matsubara/Flickr) / pássaros

Corruíras urbanas estão começando a divergir, em canto e outras características, em relação a bandos em regiões com menor ruído humano (Crédito: Becky Matsubara/Flickr)

Essa constatação não é recente, vem sendo notada ao longo de muitos anos, mas apenas em 2020, uma pesquisa publicada na International Journal of Avian Science (Ibis), por um time de ornitólogos da Universidade da Costa Rica, apontou indícios do que poderia, a longo prazo, levar a um processo de especiação, quando após gerações e mudanças genéticas, populações separadas deixam de conseguir reproduzir entre si.

O estudo foi uma focalização de pesquisas conduzidas por mais de 15 anos, que já apontavam mudanças nas populações urbanas de melros, chapins e tico-ticos, que vivem respectivamente na Europa, Ásia e Américas; espécimes que vivem nas cidades, e concorrem com todo o tipo de ruído urbano, cantam em tons mais altos do que os que vivem no campo.

Luis Andrés Sandoval Vargas, um dos ornitólogos envolvidos no estudo de 2020, lembra que na maioria das espécies de aves, principalmente nas que vivem nos trópicos, o canto possui as funções de demarcar território e atrair parceiras para os machos, e defender seu território para as fêmeas.

Segundo Vargas, pássaros que vivem nas cidades precisam concorrer com os ruídos urbanos, de máquinas em obras ao trânsito caótico, música, gritaria, etc., e uma forma de fazerem isso, de modo a serem ouvidos por seus pares, é aumentar o tom do canto. Mas isso seria válido para todas as espécies?

O estudo se concentrou em analisar uma espécie bem conhecida, a corruíra (Troglodytes aedon), distribuída por praticamente todo o continente americano. Da Costa Rica ao Brasil, onde a espécie vive o ano inteiro, ela tende a conviver bem ao lado de humanos, se alimentando de insetos e lagartixas, e fazendo ninhos em qualquer buraco, debaixo de telhas, ou em casas abandonadas do joão-de-barro.

Vargas explica que corruíras machos cantam praticamente o ano inteiro, por longos períodos do dia, e fazem vocalizações para diferenciar suas intenções, logo, a espécie seria ideal para um estudo de longo prazo, que consumiu dois anos. Os resultados foram interessantes, para dizer o mínimo.

Como esperado, ar corruíras urbanas cantavam em tons mais altos do que as que vivem no campo, mas esta não foi a única descoberta. O time de Vargas constatou que o repertório de canções dos espécimes que vivem nas cidades era significativamente menor, e diretamente ligado a quanto mais barulho criado por humanos as populações eram expostas.

Os cientistas também perceberam que a redução do vocabulário está presente tanto ao nível coletivo quanto individual, e um passarinho tende a cantar de forma mais variada nos dias com menor ruído urbano.

Vargas lembra que uma riqueza no repertório das canções dos pássaros é importante, pois os indivíduos mais jovens ouvem os adultos para aprenderem a cantar. Se estes estão sofrendo concorrência com o barulho das cidades, e cantam menos, as gerações seguintes acabarão com um repertório menor para usar, e passarão o pouco que aprenderam para suas proles.

A longo prazo, populações que vivem na cidade e no campo não seriam capazes de se reconhecerem como uma só comunidade, devido às diferenças no repertório, e mesmo que cientistas tentem introduzir pássaros de um grupo em outro, os "estranhos no ninho" não serão reconhecidos, logo, não serão capazes de se reproduzir.

Segundo Vargas, isso não cria uma ameaça para as corruíras em si, a população urbana não chegaria a sumir; mas ao longo do tempo, o isolamento desse grupo em relação aos que vivem no campo, ou em regiões ocupadas por humanos com menos ruído, causaria diferenciações de comportamento e genéticas, levando à especiação alopátrica, fenômeno observado por Charles Darwin nas ilhas Galápagos, com os tentilhões.

Nesse caso, populações de corruíras que vivem no campo e nas cidades se tornariam espécies separadas, que embora possam ter semelhanças genéticas, não mais se reconheceriam como partes de um todo, e logo, seriam incapazes de reproduzirem entre si.

Claro que nem todas as espécies lidam com o problema do barulho de uma mesma maneira, podendo, sim, criar complicações. O chamariz ou milheirinha-europeia (Serinus serinus), comum em quase todo o território europeu, compensa cantando por mais tempo, o que segundo o pesquisador Mario Díaz Esteban, do Museu Nacional de Ciências Naturais da Espanha, prejudica outras atividades como procurar comida e parceiros, e se proteger de predadores.

O chamariz canta por mais tempo, o que traz sua própria carga de problemas (Crédito: Getty Images)

O chamariz canta por mais tempo, o que traz sua própria carga de problemas (Crédito: Getty Images)

O canto é apenas um dos fenótipos (características observáveis) que estão mudando nos pássaros, como forma de sobreviverem nas cidades grandes. O chapim-azul (Cyanistes caeruleus), outra espécie europeia, que normalmente se alimenta se insetos, aprendeu a beber leite em garrafas abertas. Já o íbis-branco-australiano (Threskiornis molucca) passou a se alimentar também do lixo humano.

Claro, há quem diga que o progresso é uma agressão à Natureza, e é em muitos aspectos, mas é preciso considerar que o ser humano não é um animal à parte dela, e tudo o que ele faz trará consequências ao Meio Ambiente, que não serão sempre ruins. Em alguns casos, são elementos que acabam por levar a mudanças em espécies, similares às consequências da explosão de um vulcão, ou da ruptura continental.

No mais, independente das dificuldades e desafios, a vida sempre encontra um meio.

Referências bibliográficas

JUÁREZ, R., ARAYA-AJOY, Y. G., BARRANTES, G., SANDOVAL, L. House Wrens Troglodytes aedon reduce repertoire size and change song element frequencies in response to anthropogenic noise. Ibis (International Journal of Avian Science), Volume 163, Edição 1, 13 páginas, 9 de junho de 2020. Disponível aqui.

Fonte: Knowable Magazine (em espanhol)

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