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Índia: missão da sonda MOM chega ao fim, 8 anos depois

Sonda Mars Orbiter Mission deixa de enviar sinais; Índia foi 1.º país a enviar uma missão a Marte e acertar de cara

04/10/2022 às 10:14

Em 2014, a Índia teve um grande êxito com a sonda Mars Orbiter Mission, ou MOM, também chamada Mangalyaan (nave marciana, em sânscrito). A agência espacial local não só conseguiu colocar uma sonda na órbita de Marte, como acertou na primeira tentativa, algo que nenhum outro país, Estados Unidos e Rússia/União Soviética inclusos, conseguiram.

Projetada para operar por apenas alguns meses, a sonda resistiu por oito longos anos, mas all good things must come to an end: a Organização de Pesquisa Espacial da Índia (ISRO) anunciou o fim da missão, já que a MOM ficou sem energia e deixou de enviar dados.

Representação artística da sonda MOM na órbita de Marte (Crédito: Kevin M. Gill/Wikimedia Commons)

Representação artística da sonda MOM na órbita de Marte (Crédito: Kevin M. Gill/Wikimedia Commons)

Nos anos 1970, o economista Edmar Bacha, considerado um dos "pais" do Plano Real, ganhou notoriedade acadêmica ao descrever o Brasil, durante o regime militar, como uma "Belíndia": uma nação em que os ricos e aliados viviam em condições similares às da Bélgica, enquanto o populacho ficava relegado a condições sócio econômicas análogas à Índia, na época, um país superpopuloso e extremamente miserável.

Para ser sincero, o Brasil não mudou muito em 50 anos, e o termo "Belíndia" continua ofensivo, mas para os indianos. Por mais que o país possua sérios problemas sociais, o governo correu atrás de modo a não depender da caridade alheia; a Revolução Verde, idealizada pelo agrônomo Norman Borlaug, potencializou em muito a produção de alimentos, e tirou milhões do mapa da fome.

Por muito tempo, o PIB de Índia foi muito menor que o brasileiro, mas hoje já é o 5.º maior do mundo, quase o dobro do nosso; não obstante, o país tem 7 Prêmios Nobel na prateleira.

Ao reduzir o problema da fome, foi possível investir pesado em P&D, e em poucas décadas, a Índia se tornou um pólo tecnológico, que hoje concorre com a China na manufatura de eletrônicos. A pesquisa aeroespacial também avançou, com a ISRO bancando lançamentos para a Lua, com tecnologia relativamente barata, mas funcional.

A MOM é o ápice da capacidade indiana de adaptação, para fazer muito com muito pouco. Descrita como um projeto de "engenharia frugal", a sonda consumiu um orçamento de ridículos US$ 25 milhões, que não paga nem as braçadeiras do SLS. Na época, ninguém acreditava que um dispositivo tão barato chegaria a Marte, muito menos de primeira.

Quer dizer, ninguém exceto os indianos.

Lançada em 5 de novembro de 2013, a MOM chegou à órbita marciana em 24 de setembro de 2014, fazendo da Índia a quarta nação a manter uma missão no planeta vermelho, com EUA, Rússia e União Europeia, a primeira nação asiática com uma missão interplanetária, e a primeira nação do globo a ter sucesso em tal empreitada já na primeira tentativa.

Claro, a ISRO sabia que o desenvolvimento da MOM não estava livre de compromissos, dado o orçamento extremamente enxuto, e por causa disso, a agência espacial indiana estimou a vida útil da sonda em apenas seis meses. No entanto, o dispositivo valente superou todas as expectativas, funcionando e enviando dados em uma taxa regular, por oito longos anos. No mais, a Mars Orbiter Mission provou que sim, é possível explorar o espaço sem gastar quantias absurdas.

É importante notar que o acesso aos dados da MOM eram públicos, qualquer um podia se inscrever e conferir as informações enviadas à Terra, desde imagens de Marte e do satélite natural Fobos em cores, a dados importantes sobre a composição atmosférica do planeta. A sonda também captou a formação de tempestades de areia.

No entanto, a MOM vinha passando por problemas de gerenciamento de energia nos últimos tempos, especificamente eclipses de longa duração, contra os quais ela não foi projetada para lidar. Três painéis de 1,80 m x 1,40 m captavam a luz do Sol e geravam 840 W; a energia era então armazenada em uma bateria de lítio de 36 Ah.

Imagem de Marte capturada pela MOM (Crédito: Divulgação/ISRO) / índia

Imagem de Marte capturada pela MOM (Crédito: Divulgação/ISRO)

Nesta segunda-feira (3), a ISRO emitiu um comunicado em que especula que a MOM ficou sem combustível, no que ela foi originalmente abastecida com 852 kg de material propelente (a massa total da sonda era de 1.337,2 kg).

Sem combustível, a Mars Orbiter Mission não teve como manobrar para fora da área de sombra e recarregar as baterias, antes que o sinal entre ela e a Terra fosse perdido. Com isso, a agência indiana a declarou "irrecuperável", encerrando assim a missão que durou 8 anos e 8 dias, bem mais do que os 6 meses planejados.

Claro, a Índia não vai parar por aí: a ISRO está comprometida a novas missões, tanto à Lua quanto Marte, no que o planeta vermelho deverá receber mais um rover, entre 2025 e 2030.

No mais, entre os países do BRICS, apenas Brasil e África do Sul não possuem um programa espacial próprio, porém, os africanos estão recuperando o tempo perdido, enquanto aqui, continuamos às voltas com datilógrafos, aluguéis de cimentados, e áreas de lançamento sem pavimentação e internet.

Fonte: ISRO

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