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StarLink: Rússia joga indireta que vai derrubar satélites

Rússia diz que infraestrutura "semi-civil", indireta a satélites da Starlink, é alvo passível de retaliação, mas vão abater 3 mil satélites?

21/09/2022 às 10:48

A Rússia se prepara para escalar sua "operação militar especial" na Ucrânia para o estado de guerra de fato, e ao que parece, nada está livre de se tornar um alvo. Isso inclui os satélites da StarLink, o serviço de internet via satélites de órbita baixa (LEO) da SpaceX, uma das companhias de Elon Musk.

A delegação russa na Assembleia Geral da ONU apresentou um comunicado, afirmando que quaisquer "infraestruturas semi-civis", uma referência velada à Starlink, serão consideradas alvos válidos, se usadas contra Moscou.

Satélite da Starlink com painel solar (Crédito: Divulgação/SpaceX)

Satélite da Starlink com painel solar (Crédito: Divulgação/SpaceX)

Divulgado na última sexta-feira (16), o documento (cuidado, PDF) foi assinado pelo diplomata Konstantin Vorontsov, chefe da delegação russa no Escritório das Nações Unidas para Assuntos de Desarmamento (UNODA), e membro do Ministério das Relações Exteriores da Rússia, subordinado ao atual ministro Sergei Lavrov.

Vorontsov apresentou suas impressões sobre a crise na Ucrânia, no entendimento do aumento do uso de tecnologias em órbita para o esforço de guerra, seja espionagem ou armamento, e afirmou, sem base alguma, que o governo dos Estados Unidos promoveu a implementação em larga escala dos serviços da StarLink no país invadido, com a intenção de usá-los além da aplicação civil.

De fato, entre os primeiros pedidos direcionados a Elon Musk sobre disponibilizar o serviço da StarLink na Ucrânia, e a SpaceX agilizar toda a logística para despachar equipamentos, houve muito pouco tempo, e não demorou muito para que ficasse evidente o envolvimento direto de Washington na empreitada.

Para Vorontsov, essa "mãozinha" não veio de graça, e o Pentágono poderia estar usando os satélites militarmente, junto à OTAN, enquanto eles fornecem internet à população civil. Não obstante, membros da resistência usam os satélites da SpaceX para controlar sistemas de drones, fornecidos por países que se opõem à invasão russa ao território ucraniano.

De fato, desde que a StarLink começou a operar na Ucrânia, o serviço sofreu tentativas de ataques a estações terrestres, e interferência pesada, esta bloqueada com atualizações. Agora, o diplomata russo fez uma ameaça direta aos satélites ELO.

Povo na Ucrânia se reunindo em volta de um terminal Starlink (Crédito: Kristina Berdynskykh/Facebook)

Povo na Ucrânia se reunindo em volta de um terminal Starlink (Crédito: Kristina Berdynskykh/Facebook)

StarLink, mas pode chamar de Hidra de Lerna

Vorontsov alega que o uso de satélites civis em operações militares, sejam endossadas pelos americanos, ou mesmo viabilizadas pela presença dos mesmos, usados em ações civis individuais (de novo, os drones), pode violar o Tratado do Espaço Sideral, assinado em 1967 e ratificado por 111 países, entre eles EUA, Rússia e Ucrânia, que proíbe o uso de armas no espaço.

O diplomata acrescentou que o ato "coloca em risco a sustentabilidade das atividades espaciais pacíficas e o bem-estar dos cidadãos, em especial nos países em desenvolvimento", e concluiu o raciocínio ao dizer que o uso "provocativo" e "questionável" dos satélites da StarLink, deve ser condenado pela comunidade internacional.

Não obstante, Vorontsov disse que ao promover o uso militar de aparatos civis, os EUA "não percebem que tais ações constituem envolvimento direto" com o conflito, no que os satélites da StarLink, chamados de "infraestrutura semi-civil" podem e serão considerados alvos legítimos de retaliação.

Isso não seria um cenário inédito, na verdade: hoje, tanto a Rússia quanto os Estados Unidos, China e Índia, dispõem de sistemas ASATs (Adaptative Satellite Access Technologies, ou Tecnologias Adaptativas de Acesso a Satélites), recursos que viabilizar a inutilização de satélites em órbita, o que envolve desde ataques lançados de caças, a interceptadores em solo.

A Rússia possui o sistema A-235 PL-19 Nudol, criado especialmente para interceptar ICBMs e abater satélites, mesmo em órbita alta. Ele é o sucessor em desenvolvimento do A-135 e, diferente deste, usa ogivas convencionais, além da vantagem de ser móvel.

Foi um suposto teste do Nudol que atingiu o antigo satélite espião soviético Kosmos-1408 em novembro de 2021, lançando uma chuva de destroços em direção à Estação Espacial Internacional (ISS), o que tirou a NASA do sério.

Depois do ocorrido, o governo dos EUA iniciou conversas para banir completamente os testes de armas orbitais, mas como as coisas estão escalando na Rússia, com a convocação de 300 mil reservistas, algo que não ocorre desde a 2.ª Guerra, e ameaças diretas do presidente Vladimir Putin de usar poder nuclear contra a Ucrânia e outros países do ocidente, isso não é mais uma opção.

O grande problema para a Rússia está na escala, claro. A SpaceX hoje conta com 2.900 satélites em uso globalmente, tem autorização para lançar mais 12 mil, e planos para outros 30 mil. Um único Falcon 9 pode lançar 60 deles por vez.

Mesmo que os camaradas tenham os meios para derrubar as unidades que levaram internet à Ucrânia, a companhia hoje é plenamente capaz de lançar novos mais rápido do que os russos conseguem derrubá-los.

Elon Musk diz que a SpaceX consegue lançar satélites mais rápido do que a Rússia, ou qualquer outra nação do mundo, consegue derrubá-los. As chances do Putin ferrar com a logística da empresa, e derrubar completamente a internet do país pelos meios normais, tendem a zero.

A menos que a Rússia opte pela opção nuclear, o que não parece mais tão improvável assim.

Fonte: Futurism, ExtremeTech

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