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Efeito Mandela é fenômeno frequente, aponta estudo

Pesquisa aponta consistência em memórias falsas coletivas, o chamado efeito Mandela; não se sabe, contudo, como elas se formam

17/08/2022 às 12:43

O efeito Mandela é um curioso fenômeno de memória coletiva. Por alguma razão, pessoas completamente racionais criam recordações falsas sobre pessoas, lugares e acontecimentos, que embora ficcionais, são defendidas como verdadeiras. Não são mentiras, nem alucinações.

A ideia/percepção de simetria foi tão forte, que as pessoas JURAM que Treepio era 100% dourado. Não era (Crédito: Divulgação/Lucasfilm/Disney)

A ideia/percepção de simetria foi tão forte, que as pessoas JURAM que Treepio era 100% dourado. Não era (Crédito: Divulgação/Lucasfilm/Disney)

Vamos fazer um exercício. Feche os olhos e imagine o Pikachu, o personagem mais famoso da franquia Pokémon. Você provavelmente o vê como um animal parecido com um rato amarelo, com olhos negros, e uma cauda em forma de raio com uma mancha preta na ponta, certo?

Errado, não tem mancha preta, exceto nas orelhas. Nunca teve, nem a cauda do Pikachu nunca foi só amarela, ela é marrom na base. Mas muita gente acredita, a sério, que a cauda com mancha preta faz parte do design.

C-3PO é vítima de uma percepção similar. Nos três filmes da trilogia original de Star Wars, sua perna direita era prateada, uma forma que George Lucas encontrou para ilustrar que droides protocolares eram mantidos ativos, muitas vezes, com partes usadas de outros modelos.

No entanto, muitos juram de pé junto que Treepio sempre foi dourado, e só ganhou um berrante braço esquerdo vermelho em O Despertar da Força. Eu mesmo levei ANOS para perceber a gafe, reforçada principalmente por brinquedos que ainda hoje usam o design errado, que só se tornou canônico no fim deste filme e nos demais da trilogia da Era Disney.

No caso de Treepio, a ideia de simetria era forte demais para perceber o óbvio de que o droide não tinha uma coloração uniforme, embora a diferença fosse sutil, e assim, muita gente até hoje que nos filmes clássicos, ele não tinha uma parte do corpo diferente. Mas tinha.

Efeito Mandela: de piada a caso de estudo

O efeito Mandela nunca foi levado a sério, e muitos veem o fenômeno como uma "histeria coletiva" de memórias falsas. Como ele foi inicialmente identificado também não ajuda: Fiona Broome, uma pesquisadora de eventos paranormais, alegava ter memórias vívidas de que Nelson Mandela (1918 — 2013), ativista anti-Apartheid e 1.º presidente eleito da África do Sul, entre 1994 e 1999, havia morrido na prisão nos anos 1980 (ele ficou preso entre 1962 e 1990).

Em 2010, Broome escreveu que "milhares de pessoas" declararam ter o mesmo tipo de memória falsa sobre Mandela, e outras como fãs de Star Trek em convenções descrevendo episódios que nunca existiram, com precisão e similaridades entre vários relatos. A pesquisadora levantou a hipótese de "memórias cruzadas de outros universos", o que fez o efeito Mandela ser visto como uma piada.

Relógio da estação ferroviária de Bolonha (Crédito: Prof.Quatermass/Wikimedia Commons)

Relógio da estação ferroviária de Bolonha (Crédito: Prof.Quatermass/Wikimedia Commons)

Ainda assim, há alguns relatos curiosos sobre a criação de memórias falsas e como elas migram para o consciente coletivo. Um artigo de 2010 descreveu que 92% dos entrevistados relataram se lembrar vividamente que o relógio da estação ferroviária de Bolonha, na Itália, vítima de um atentado a bomba em 1980, estava parado desde o incidente, marcando o momento da explosão; na verdade, ele foi consertado pouco tempo depois.

Agora um novo estudo, publicado na Psychological Science e conduzido por um par de pesquisadores do Departamento de Psicologia da Universidade de Chicago, demonstra haver, sim, consistência nas memórias que as pessoas fabricam.

Por exemplo, entrevistados foram solicitados a descrever o mascote do jogo de tabuleiro Monopoly, no que a maioria disse que ele usa um monóculo, o que é falso; a descrição do Pikachu com a ponta da cauda preta, do personagem de livros infantis Wally/Waldo usando uma sombrinha, quando, na verdade, ele anda com uma bengala (a sombrinha pertence à sua amiga, Wenda), ou do George, o Curioso ter uma cauda, foram outros exemplos. A perna prateada do Treepio também entrou na pesquisa.

Segundo a profa. Dra. Wilma Bainbridge, uma das co-autoras do estudo, os entrevistados costumam apresentar certeza sobre a decisão que tomam, quando apresentados a um modelo de três escolhas, sendo dois falsos, e de forma consistente, tendem a escolher apenas um dos dois errados.

Wally, ou Waldo nos EUA, anda com uma bengala; quem usa uma sombrinha é a Wenda (Crédito: Divulgação/DreamWorks Classics) / efeito mandela

Wally, ou Waldo nos EUA, anda com uma bengala; quem usa uma sombrinha é a Wenda (Crédito: Divulgação/DreamWorks Classics)

Os equívocos se mantêm quando pedidos a desenhar um personagem de cabeça, no que foi observada a prevalência do Pikachu com a mancha preta na ponta da cauda, que nunca sequer existiu em artes oficiais. Ainda assim, alguns dos participantes afirmam ser profundos conhecedores da franquia Pokémon, tendo familiaridade com seus personagens.

O que a pesquisa ainda não consegue explicar, é como essas memórias falsas se estabelecem. Bainbridge descarta a hipótese de que pessoas têm acesso a fontes incorretas, pois mesmo quando apresentados com artes e fotos corretas, os participantes tendem a escolher as erradas.

Outra também descartada é a hipótese da correlação. Por exemplo, muitos poderiam deduzir que o Mr. Monopoly usa um monóculo, apenas por este ser reconhecido como um símbolo para ilustrar magnatas, mas o mesmo não se aplica ao logo da companhia de roupas Fruit of the Loom, que muitos apontaram uma cornucópia como parte da arte, ao invés da que tinha um prato, também falsa, mesmo este sendo um item mais associado a comida. Também não explica trocar a bengala do Wally pela sombrinha da Wenda.

Bainbridge diz que o estudo levanta questões sobre o quão manipulável é a memória, no que mesmo experiências individuais podem ser condicionadas a uma ideia comum coletiva, mesmo que errada. Vide Pedro Bial na queda do Muro de Berlim; quem esteve lá no momento exato foi o correspondente Sílio Boccanera.

Resta descobrir o que está por trás do efeito Mandela, e como esses conceitos errados se estabelecem. Provavelmente, não são universos paralelos.

Referências bibliográficas

PRASAD, D., BAINBRIDGE, W. A. The Visual Mandela Effect as evidence for shared and specific false memories across people. PsyArXiv (Society for the Improvement of Psychological Science), 33 páginas, 28 de março de 2022. Disponível aqui.

Fonte: Popular Mechanics

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