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Kanjozoku Game, Doujin e as joias escondidas no Steam

Homenageando os jogos de corrida dos anos 2000, Kanjozoku Game レーサー surge como surpresa no Steam e mostra a força dos Doujin, os indies japoneses

25/07/2022 às 10:55

Com o PlayStation tendo se tornado o console mais popular da sua época e a pirataria de alastrado por todos os cantos do Brasil, vimos um fenômeno interessante. Era a segunda metade da década de 90 e boa parte das pessoas adquiriam seus jogos em lojas do ramo, locadoras de pequeno porte e camelôs.

Sem toda a facilidade de acesso à informação que temos hoje, muitas vezes o consumidor ia a esses lugares sem saber exatamente o que queria e além das capas chamativas — que muitas vezes nem eram as artes oficiais —, a sorte acabava sendo uma grande responsável por ditar o que ele levaria para casa. Foi assim que várias joias acabaram sendo descobertas, mas com o tempo esse garimpo saiu do mundo físico e passou para o virtual.

Crédito: Reprodução/Rachid Lotf/Artstation

Graças a distribuição digital, adquirir novos jogos se tornou mais simples do que nunca e as desenvolvedoras aproveitaram a oportunidade para entupir as lojas com os mais variados títulos. Hoje, encontrar bons jogos independentes num serviço como o Steam pode ser até mais difícil do que era vasculhar uma banquinha numa rodoviária.

Resta então ficar de olho naquilo que a comunidade tem divulgado e numa ou outra obra que tem conseguido algum destaque, como no caso de um jogo chamado Kanjozoku Game レーサー. Recém-chegado ao serviço da Valve, o título é um daqueles claros exemplo de algo que dificilmente chegaria até nós se não fosse a ascensão dos indies e a força de uma loja como o Steam.

Custando apenas R$ 12,99, ele é uma bela homenagem aos jogos de corrida arcade do início dos anos 2000. Títulos como Need for Speed Underground, Midnight Club ou Tokyo Xtreme Racer, que se escoravam na cultura de corridas de rua clandestinas e possuíam uma estética bastante peculiar.

Sem toda a complexidade (e perfumaria) dos jogos de corrida que temos atualmente, nele o foco são as provas, que poderão ser disputadas contra a inteligência artificial ou contra outros jogadores. Nós também poderemos realizar as mais variadas modificações nos carros, alterando desde suas aparências até a parte mecânica.

Kanjozoku Game - Doujin

Kanjozoku Game レーサー (Crédito: Divulgação/SGデベロッパー)

Contudo, a simplicidade entregue pelo Kanjozoku Game レーサー poderá desagradar algumas pessoas. Da falta de colisões com outros jogadores à pequena quantidade de pistas e veículos para desbloquearmos, conteúdo definitivamente não é o forte da obra da SGデベロッパー.

Mesmo assim, é preciso levar em consideração o preço que tem sido pedido pelo jogo e como ele tem recebido atualizações constantemente, inclusive adicionando novos carros, pode ser que com o tempo o título se torne muito mais interessante. No mais, chega a ser um tanto surpreendente saber que um lançamento que custa o mesmo que um CD pirata tem suporte a partidas online.

O fato é que o Kanjozoku Game レーサー tem conquistado alguns admiradores nos últimos dias, fazendo com que uma pequena comunidade se forme aos se redor. Com o pico de jogadores simultâneos tendo ultrapassado a marca de 500 no último final de semana, ver mais de 200 pessoas jogando ao mesmo tempo se tornou comum e por mais que isso possa parecer pouco, é um número superior ao registrado pelo Need for Speed, Need for Speed Hot Pursuit Remastered, Need for Speed Rivals e apenas levemente inferior ao do Need for Speed Payback.

A invasão dos jogos Doujin

Caso tenha se interessado pelo Kanjozoku Game レーサー ou está se perguntando como um jogo tão obscuro tem conseguido algum destaque no ocidente, a resposta pode estar em duas palavras: Doujin e Steam.

Normalmente criados como hobby por um grupo de pessoas que estão mais interessadas na diversão do que no lucro, os Doujin (同人ゲーム) seriam o equivalente japonês aos jogos independentes ou feitos por fãs, produções amadoras que eram publicadas pelos próprios criadores — que em grupo são conhecidos como “Círculos”.

Com suas produções tendo iniciado na década de 90, normalmente eles eram distribuídos de maneira bastante amadora, com os títulos sendo gravados em CDs e compartilhados entre a comunidade. Obviamente, ter acesso a essas obras era algo bastante complicado, especialmente fora do Japão, mas com a facilidade de publicação no Steam, este cenário mudou.

Brief Karate Foolish - Doujin

O bizarro Brief Karate Foolish (Crédito: Divulgação/Henteko Doujin)

Com os Doujin sendo vendidos na loja da Valve por valores muito mais acessíveis do que aqueles que antes eram praticados em leilões virtuais, o público interessado por eles cresceu, o que consequentemente chamou a atenção das editoras. Hoje temos várias empresas dedicadas a publicar esses jogos, como a ABA Games, que se especializou em shoot 'em ups; a French Bread, que lança jogos de luta 2D; o Team Shanghai Alice, que ficou conhecido pelos bullet hells da série Touhou Project; ou ainda a Type-Moon, popular entre os apaixonados por  visual novels.

O curioso é que até por se tratar de títulos produzidos por fãs, muitas vezes essas obras usam propriedades intelectuais de outras empresas. Porém, exceto por uma ou outra companhia, normalmente os criadores de Doujin não são incomodados por ameaças de processo, chegando ao ponto de editoras procurarem os Círculos para publicar seus projetos.

“A nossa política é de trabalhar no espírito dos Doujin, mesmo como uma editora,” afirmou Piro, diretor da Henteko Doujin. “Eu não penso muito nas vendas, mas sim em priorizar o lançamento de jogos que sejam novos ao mundo e que mesmo um pequeno número de pessoas aproveite com entusiasmo. Mesmo assim, temos conquistado bons resultados também em termos de vendas.”

Recettear: An Item Shop’s Tale - Doujin

Recettear: An Item Shop’s Tale (Crédito: Divulgação/EasyGameStation)

Mas se tivermos que apontar o título que abriu as portas para os Doujin no ocidente, sem dúvida será o Recettear: An Item Shop’s Tale. Misturando a ação de um dungeon crawler com o gerenciamento de uma loja típica de jogos RPG, ele chamou a atenção de muitas pessoas por entregar algo que podia ser encontrado em outros games. Com a inovação somada a ótima tradução feita pela Carpe Fulgur, o jogo se tornou um sucesso.

Então, ao conseguir fazer com que um público muito maior olhasse para outras criações independentes vindas do Japão, logo outras empresas se interessaram em localizar os Doujin, numa tendência que parece longe de arrefecer.

O algoritmo a nosso favor

E mesmo que lutas entre homens usando fraldas ou chuvas de balas sejam demais para o seu gosto, ainda é possível encontrar muitos jogos interessantes que teimam em permanecer  escondidos no enorme catálogo do Steam, com a matemática podendo nos ajudar nessa missão.

Wuppo: Definitive Edition (Crédito: Divulgação/Knuist & Perzik)

Usando a pontuação fornecida pelo site SteamDB e a popularidade mensurada pelo SteamSpy, um sujeito conhecido como Wok criou um algoritmo cujo objetivo é apontar os melhores títulos desconhecidos da loja da Valve. Assim, o cálculo dá pontuação maior para jogos com uma maior quantidade de avaliações, ao mesmo tempo em que considera como mais escondidos aqueles que aparecem em menos coleções dos usuários.

Após rodar o código, o criador descobriu que dentre todos os jogos disponíveis no Steam, o Wuppo: Definitive Edition pode ser considerado o mais subestimado pelos jogadores. Funcionando como um metroidvania com aparência infantil, ele tem média 78 no Metacritic, com a pontuação dada pelos usuários sendo ainda maior.

Apesar de a lista trazer alguns jogos que nem são tão desconhecidos assim, como STEINS;GATE, TY the Tasmanian Tiger, Blackwell Epiphany ou Escape Goat, há muitos títulos bem interessantes nela. Para quem gosta de conhecer obras que passam longe das grandes produções, vasculhar o porão do Steam pode ser uma experiência e tanto.

Paper Sorcerer (Crédito: Divulgação/Ultra Runaway Games)

Outra boa dica é uma lista criada pelo site Steam250. Nela temos diversos jogos que dificilmente ganharão destaque na primeira página do Steam, mas que contam com um altíssimo nível de aprovação daqueles que os jogaram. Evidentemente há muita coisa estranha ali, mas com um pouco de paciência é possível encontrar alguns games com ideias bem interessantes.

As listas elaboradas por curadores também podem ser uma ótima fonte, como a Hidden Gem Discovery ou a Gaming Hidden Gems. Já para aqueles que quiserem indicações de Doujin, vale seguir a doujinsoft addicts. Elas podem até não ser perfeitas, mas é melhor que apostar na roleta das antigas banquinhas.

Fonte: autoevolution e PCGamer

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