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Doom 4 e Ravenholm: porque jogo cancelado também é história

Graças ao canal Noclip a história de jogos como Doom 4 e Ravenholm estão preservadas — mesmo que tais projetos nunca tenham sido terminados

12/07/2022 às 12:34

É comum as desenvolvedoras de jogos tentarem guardar alguns segredos o máximo possível e entre eles estão os projetos que acabaram engavetados. Porém, tais títulos também fazem parte da história e para tentar preservar um pedaço do passado com o qual poucos tiveram contato, iniciativas tem buscado remover o véu posto sobre alguns jogos abandonados ainda na incubadora.

Doom 4

Crédito: Reprodução/Youtube/Noclip

Dessas, uma das mais louváveis é mantida pelo canal Noclip. Produzindo documentários de extrema qualidade, eles tem abordado a criação de diversos títulos, trazendo informações inéditas e trechos que nunca foram divulgados. Foi num desses vídeos que eles falaram sobre o conturbado desenvolvimento do Doom 4, jogo que poderia ter levado a franquia para uma direção bem diferente.

Revelado ao mundo em 2007, a promessa era de que o novo capítulo teria uma jogabilidade mais próxima do primeiro jogo do que do estilo survival horror do terceiro. Criado com a id Tech 5, o desenvolvimento seguiu a passos lentos, muito devido a id Software estar dividida com a produção do Rage. Porém, os problemas relacionados com aquele projeto eram muito maiores.

Com a equipe só tendo decidido no final de 2012 que o Doom 4 seria um reboot para a franquia, no ano seguinte começaram a circular rumores de que o desenvolvimento estava empacado. A situação se tornou ainda pior quando, durante a QuakeCon 2013, o diretor Tim Willits afirmou que faltava personalidade ao jogo.

Tal opinião era parecida com a do produtor executivo do projeto. “Exploramos uma direção e chegamos a um certo ponto e sentimos que [o jogo] realmente não capturava o que sentíamos que seria um Doom forte e o que os fãs queriam,” disse Marty Stratton.

Com a premissa de trazer os demônios da franquia à Terra, Doom 4 tentaria contar uma história mais “realista” de uma invasão alienígena, algo, segundo o diretor criativo Hugo Martin, seria como o filme Contato, de Robert Zemeckis. Contudo, a similaridade da campanha com a série Call of Duty estava desagradando as pessoas envolvidas no projeto, o que fatalmente o levou a ser cancelado.

Até agora, o pouco que tínhamos visto sobre o jogo foi graças a um documentário publicado pelo pessoal do Noclip em 2016, nos dando um gostinho de como ele estava ficando. Agora, com o intuito de seguir na sua missão de preservar a história dos games, o canal divulgou um vídeo em que podemos ver muito mais da sua jogabilidade, incluindo os testes que a equipe estava fazendo com o conceito de Execuções Gloriosas, que depois seria aproveitado no que ficou conhecido apenas como Doom.

Embora alguns membros da id Software defendam que muitas pessoas gostariam do que eles estavam criando para o Doom 4, vendo esse vídeo acredito que a decisão de seguirem por outro caminho foi acertada. O jogo que o estúdio lançou em 2016 é excelente, remetendo diretamente aos primeiros da série e principalmente, sendo muito diferente do que poderia ter ficado conhecido como um “Call of Doom”.

Também foi por causa dessa mudança de rumo — e do consequente sucesso comercial alcançado pelo Doom — que em 2020 tivemos o lançamento de uma experiência ainda melhor, com o Doom Eternal. Longe de entregar uma campanha requentada como a que nos acostumamos a ver nos FPSs da Activision, alguém pode até não gostar do que a id produziu, mas acusá-lo de falta de personalidade seria uma injustiça.

We Don't Go To Ravenholm

Mas se a qualidade do título que o sucedeu fez com que muitos não lamentassem o cancelamento por qual passou o Doom 4, o mesmo não pode ser dito do . Com o desenvolvimento sob os cuidados do Arkane Studios, o jogo seria um spin-off da série Half-Life, mas que infelizmente nunca viu a luz do dia.

Também fruto de um documentário produzido pelo Noclip, o jogo voltou a ser tema do canal recentemente, quando eles publicaram mais de uma hora da sua jogabilidade. Mostrando o quão avançado o projeto estava, o material divulgado por eles é digno de nos deixar querendo mais, além de nos fazer questionar o motivo para a Valve não ter permitido que o desenvolvimento prosseguisse.

Mesmo preferindo que o passado seja preservado através de versões jogáveis dos games, o trabalho realizado por iniciativas como as do Noclip são importantes para garantir que algumas obras não desapareçam. Como defendido pelo curador do The Strong National Museum of Play, Andrew Bowman, talvez as únicas maneiras de garantirmos a memória para alguns jogos seja através de “gameplay gravado, histórias contadas oralmente e outras formas de capturar os dados.”

O que incomoda nisso tudo é perceber que o trabalho para que a história dos videogames não seja esquecida é raramente realizado pelas editoras e desenvolvedoras. Não seria melhor se a própria id Software tivesse divulgado esses trechos da jogabilidade em um making-of do Doom? Quanto ao Ravenholm, há bastante tempo deixei de esperar algo da Valve, principalmente quando se trata do Half-Life.

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