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Return to Monkey Island, ou porque não podemos ter coisas legais

Insatisfeitos com o estilo visual do Return to Monkey Island, "fãs" atacam Ron Gilbert e diretor anuncia que fará um voto de silêncio em relação ao jogo

01/07/2022 às 10:35

Nós vivemos um momento especial na indústria de games. Graças a distribuição digital, hoje os jogos são muito mais acessíveis do que antigamente, os estúdios conseguem financiar suas produções com a ajuda do público e o contato com os criadores se tornou bem mais fácil. Porém, essa proximidade também tem aberto espaço para os ataques por parte dos “fãs” e as pessoas ligadas ao desenvolvimento do Return to Monkey Island tem sofrido com isso.

Crédito: Divulgação/Terrible Toybox

Como o próprio nome do jogo desenvolvido por Ron Gilbert deixa claro, ele servirá como um retorno para uma das franquias mais adoradas de todos os tempos. Contudo, aquilo que nasceu como uma improvável realização de um sonho, logo passou a mostrar o quão podres podem ser aqueles que se dizem apaixonados por games.

Embora críticas em relação à direção artística do Return to Monkey Island estejam sendo feitas desde que o jogo foi anunciado, a situação escalou para um nível absurdo recentemente, quando a Devolver Digital divulgou um trailer com um trecho da jogabilidade.

Bastante diferente dos capítulos anteriores, o novo estilo criado por Rex Crowle (LittleBigPlanet, Tearaway, Knights and Bikes) fez com que alguns comparassem o jogo a um livro de histórias infantis ou que ele parecia mais um Guacamelee! do que um verdadeiro Monkey Island. Porém, as críticas não parariam por aí.

Segundo Gilbert, desde que o trailer foi ao ar, diversas pessoas se dirigiram ao seu blog pessoal para reclamar da mudança, com algumas delas inclusive disparando ataques pessoais ao game designer e sua equipe. Como resposta as ofensas que vinha recebendo, ele decidiu fechar os comentários e tomar uma atitude ainda mais enérgica.

“É um jogo fantástico e todos na equipe estão muito orgulhoso dele,” afirmou Ron Gilbert, numa publicação que depois foi tirada do ar. “Jogue-o ou não, mas não o arruíne para os demais. Eu não publicarei mais sobre o jogo. A diversão de compartilhar [sobre o desenvolvimento] foi tirada de mim.”

Return to Monkey Island

Crédito: Divulgação/Terrible Toybox

O descontentamento de Gilbert em relação à maneira como algumas pessoas estavam tratando o trabalho de Crowle já havia sido externado anteriormente. No início de maio ele publicou um texto em que, além de elogiar o companheiro, afirmou desejar que o novo jogo tivesse “uma arte provocativa, chocante e algo que nem todos esperassem.”

Além disso, o criador da franquia foi bastante claro ao dizer que “o Return to Monkey Island pode não ter o estilo artístico que você quer ou estava esperando, mas tem o estilo artístico que eu quero.” Para ele, chega a ser irônico ver que as pessoas que não querem que ele faça o jogo que deseja são justamente aquelas que costumam ser descritas como os fãs hardcore da série.

Se dizendo triste com os comentários que vinha recebendo e sem querer a pressão de ter que fazer o jogo que alguns querem que ele faça, já naquela ocasião Gilbert deu indícios de que poderia interromper o seu diário de desenvolvimento. Para ele, se o público o permitisse divulgar (e criar) coisas que o empolgam, as pessoas adorariam o jogo que a Terrible Toybox está produzindo.

Em defesa da equipe, o dublador do Guybrush Threepwood, Dominic Armato, usou sua conta no Twitter para dizer que jogou um pouco do Return to Monkey Island e adorou o que viu. Ele também fez um comentário interessante (e até um tanto óbvio), dizendo que tentar tornar o trabalho daqueles profissionais algo que não lhes dê prazer inevitavelmente resultará num produto que não agradará ninguém.

Outro que também se solidarizou com Gilbert foi Jonathan Ackley, que liderou o desenvolvimento do The Curse of Monkey Island. Ao ver uma pessoa reclamando dos gráficos para Dave Grossman (cocriador do novo jogo), Ackley disse que, por experiência própria, ser criticado pela mudança no estilo artístico em uma continuação para a franquia “é uma tradição consagrada pelo tempo.”

Crédito: Divulgação/Terrible Toybox

Eu nem entrarei no mérito daqueles que desferem ataques pessoais a um desenvolvedor, seja por qual motivo for, simplesmente por acreditar que esse tipo de atitude nem merece discussão. Quanto aos que se posicionaram de maneira minimamente civilizada, afirmando preferir o estilo dos primeiros jogos, consigo entender o sentimento, mesmo porque há uma forte nostalgia envolvida.

Eu mesmo sou um apaixonado por pixelart e dado p poderio das máquinas atuais, não tenho dúvidas de que o Return to Monkey Island ficaria lindo se feito desta maneira. No entanto, isso não significa que o estilo proposto por Rex Crowle — e aceito por Gilbert — não tenha me agradado. Na verdade, achei tudo muito bonito, mas penso que essa nem seja  a questão.

O que considero mais importante em toda essa história é a maneira como algumas pessoas se julgam no direito de ditar como uma obra de entretenimento deve ou não ser produzida. Essa soberba é algo que tem se repetido cada vez mais, com os ditos fãs se julgando mais importantes do que o próprio autor.

Sim, é óbvio que se não fosse por aqueles se dizem os maiores apaixonados por um jogo, filme ou banda, os artistas talvez nem tivessem como dar vida às suas ideias. Porém, sem o consentimento prévio do autor, isso não lhes dá o direito de apontar para um projeto e definir quais caminhos ele deve seguir.

Tudo bem, as reclamações do público já salvaram algumas obras de resultados que provavelmente seriam catastróficos e o Sonic: O Filme é um exemplo disso. No entanto, ainda defendo que a palavra do diretor deva ser soberana, com ele arcando com as consequências das suas decisões, ou seja, um possível fracasso comercial.

Ao ver situações como pela qual o Return to Monkey Island tem passado, a sensação que tenho é de que em boa parte das vezes as críticas a algo que ainda nem foi lançado se devem apenas a uma ideia de superioridade de algumas pessoas. São ataques desferidos por um pequeno — mas barulhento — grupo que está sempre disposto a dar uma carteirada para garantir seu ilusório status de “sou mais fã do que os outros”.

Fonte: TheGamer

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