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Resenha: Batman - Dark, realista e emo - e funciona!

Nós assistimos Batman, a nova versão do Cavaleiro das Trevas, com Robert Pattinson e direção de Matt Reeves. É bom? Depende do que você espera

15 semanas atrás

Batman é a mais recente versão do cruzado embuçado para o cinema. Como sempre o diretor deu seu toque pessoal, e Matt Reeves conseguiu pela primeira vez captar a essência do personagem nos quadrinhos, o Batman detetive que raramente aparece na telona, que prefere o Batman espetáculo. Infelizmente, cinema é espetáculo.

Olhando assim, não é pra botar fé, mas bote (Crédito: Divulgação / Editoria de Arte)

RESENHA SEM SPOILERS

Esse filme seria a evolução natural do personagem, então interpretado por Ben Affleck, mas as críticas (injustas) fizeram o ator abandonar o personagem. Ben foi um bom Batman e um ótimo Bruce Wayne, mas o roteiro de Batman v Superman foi terrível, e a Liga da Justiça de Joss Whedon também não ajudou.

Batman parecia ter sido escrito por um comitê, todos os clichês do personagem estavam lá, mas Batman parecia fora de sua zona de conforto, enfrentando parademônios e kryptonianos ensandecidos. Mesmo assim, insisto, foi um ótimo Bruce Wayne, a cena em que ele explica como recuperou a fazenda dos Kent é excelente, digna do Batman de Michael Keaton, que compra o restaurante para poder juntar as mesas.

Infelizmente o público não viu assim, e o Batman de Matt Reeves quase desandou, e quando saiu a escolha para o novo Cavaleiro das Trevas, todo mundo torceu o nariz. Robert Pattinson, sério? Aquele vampiro emo purpurinado de Crepúsculo?

Claro, todo mundo esqueceu que reclamaram horrores do mesmo jeito quando anunciaram que o Coringa seria feito pelo caubói homoafetivo daquele filme de vaqueiros esquisitões.

O resultado? Do Heath Ledger não precisa nem falar, já do Pattinson? Quem falou que ao invés de Bruce Wayne ele faria Bruce O Emo, acertou. Ele só tem uma expressão, parece o tempo todo atormentado e sem ter certeza do que faz. E quer saber? Funcionou muito bem!

Batman é um filme do Batman, não é um filme do Bruce Wayne. Ele não é um playboy bilionário, ele é, em suas próprias palavras, um garoto rico com problemas, muitos problemas.

Pattinson faz um Batman iniciante. Ele ainda está em seu segundo ano de combate ao crime. Ele erra nos saltos, apanha de vez em quando, não é um detetive tão bom quanto imagina ser e não tem a confiança da polícia e da população.

Os fãs de Christopher Nolan elogiam seu Batman por ser “pé no chão”, mas o Batman de Matt Reeves consegue ser várias vezes mais “realista”. Esse você não vai ver arrastando um artefato nuclear com o Bat-Plano, dizendo “alguns dias vocês simplesmente não consegue se livrar de uma bomba”.

Batman não tem bat-cóptero, bat-cartão de crédito, bat-mamilos, milhares de bat-gadgets, vilões coloridos e histriônicos. Não tem referências ocultas pro DCEU para deixar os nerds serelepes.

Também não há uma Gotham City gótica, art-deco ou futurista. Gotham é uma versão atemporal do pior de Nova York, incluindo sujeira e corrupção. Batman é um vigilante que persegue bandidos de 5o escalão, meio sem rumo. Ele quer salvar a cidade, mas não sabe como.

Batman — A Trama

No filme um serial killer aparece e começa a matar figuras públicas. Ele se denomina Charada, e tenta atrair o Batman deixando mensagens. Em cada crime. Gradualmente vamos descobrindo que o Charada está matando envolvidos com um crime antigo, e um esquema de corrupção que desviava boa parte dos recursos filantrópicos da Fundação Wayne.

Sem saber Bruce estava financiando o crime na cidade.

Batman tenta antecipar os passos do Charada, mas acaba sempre ficando um passo atrás, o que culmina em um desastre na cidade e a percepção de que o caminho para salvar Gotham talvez não seja a Vingança.

O James Gordon de Jeffrey Wright (Bernard, em Westworld) ficou melhor que o esperado (Crédito: Divulgação)

Em Batman vemos algo muito raro no cinema: o Batman detetive, o Batman que examina pistas, pensa e resolve problemas com o cérebro, não com os músculos. Ele está aprendendo, e com ajuda de Alfred (Andy Serkis) consegue desvendar parte do código do Charada.

Outra boa surpresa: Zoë Kravitz, como Mulher-Gato. Essa eu confesso que tive preconceito, todos os seus personagens foram esquecíveis, mas a primeira imagem como Selina Kyle me convenceu, e ela está ótima no filme.

Claro, o bom e velho moralismo americano fez com que ela fosse uma garçonete, ao contrário da versão dos quadrinhos, onde selina é uma dama que troca favores por dinheiro. Também deixaram BEM vago o status de seu relacionamento com Annika, sua roommate e essa sim uma dama da noite.

Zoë Kravitz matou a pau (crédito: Divulgação)

Ambas trabalham na boate do Pinguim (um irreconhecível Colin Farrell), laranja de Carmine Falcone (um ótimo John Turturro) e o desaparecimento de Annika é que faz Selina cruzar os caminhos com Bruce.

Como já virou tradição ela não é chamada Mulher-Gato em momento algum, apesar dos motivos felinos. Selina é uma ladra profissional, e fará os fãs de quadrinhos apontarem pra tela falando “isso! É isso!”.

Infelizmente ela não acrescenta nada à história. Todo seu arco poderia ser sumariamente apagado, e não faria a menor falta, até ajudaria a encolher um filme com 3 horas de duração e a sensação de que nada acontece.

Pronto, falei, é isso mesmo. Por ser muito pé no chão, as lutas do Batman são bem menos emocionantes, não há ninjas nem Ra's al Ghul, só noiados e bandidos pés de chinelo. Há UMA grande cena de ação, com o Batmóvel, é a que aparece no trailer. Mesmo assim, o Batmóvel é… um carro.

Um carro (Crédito: Divulgação)

Esqueça o Tumbler do Nolan. Agora Batman anda em um carro que parece saído do Overhaulin'. SUDERJ INFORMA: sai Lucius Fox, entra Chip Foose.

Essa obsessão com o realismo ajuda muito na suspensão de incredulidade, vemos um Batman realista, em um mundo realista, e é meio desesperador pensar que vivemos em um mundo bem-parecido, só que sem um Cavaleiro das Trevas para nos vingar e proteger.

O ritmo do filme, como toda boa história de detetive, é lenda, com espaço para desenvolvimento de personagens, reviravoltas e até a percepção que Batman é a verdadeira identidade, a máscara é Bruce Wayne. Pattinson consegue passar isso, muito bem.

Boa parte do mérito é do roteiro. Muito da história foi baseada em arcos clássicos dos quadrinhos, mais especificamente os excelentes Batman: Ano Um, Batman: Terra Um, A Corte das Corujas e O Longo Dia das Bruxas.

Quatro arcos excelentes (Crédito: DC Comics)

Essas histórias forneceram a espinha dorsal da trama básica e toda a carne que se gruda em volta, e a adaptação foi feita de forma competente, não em Batman vs Superman, quando pegaram cenas soltas do Cavaleiro das Trevas do Frank Miller e acharam que assim teriam um filme, mas prossigamos:

Aqui, chegamos a uma encruzilhada. A internet (oh que surpresa) está dividida. Alguns reclamam que o filme é lento e “realista demais”, outros adoraram a nova abordagem do personagem.

Eu sempre fui fã do Batman Detetive, o sujeito que sempre tem um plano. Ele já derrotou a Liga da Justiça inteira só com seus planos. Em seu primeiro encontro com o Super-Homem, Clark tenta prender Bruce, que avisa que caso o Super-Homem não o ajude, uma bomba explodirá e matará uma pessoa inocente. Clark usa sua superaudição para ouvir o coração de Batman, que está falando a verdade. No final Batman é inocentado, e entrega a Clark a bomba presa em seu cinto. “Eu sabia que eu era inocente, assim não precisei mentir para você”.

O Batman usando a inteligência, interrogando suspeitos, juntando pistas é excelente, e foi uma grata surpresa ver essa versão, mesmo iniciante na tela grande. Só que eu quero mais.

Eu gosto de cinema-pipoca, cinema-espetáculo, cinema com coisas que explodem. Cinema pra mim é Batman de 1989, que na época achávamos ser dark pra caramba, voando com o bat-plano contra a Lua em uma cena totalmente gratuita só para formar o logo do morcego, e depois enfrentando o Coringa.

Batman, de Matt Reeves é de longe o filme mais sombrio do personagem, não só em termos de fotografia — irrita de tão escuro, parece a primeira temporada de The Expanse — mas principalmente em termos de história. O Charada (Paul Dano) é um serial killer cruel, violento e sádico, as mortes não são elaboradas, não há armadilhas complexas estilo Jogos Mortais, não há aquela alegria do Charada do Frank Gorshin, no seriado com Adam West.

É um vilão visceral que quer expor os pecados de Gotham City, e punir os envolvidos. Ele é, no fundo, um lado (mais) sombrio do Batman. E não, ele não faz piadas. Há muito pouco humor no filme. Mesmo Alfred está contido, mas seu sarcasmo continua presente, felizmente.

Apesar de tudo isso, não é um filme depressivo, nem com o Bat-Emo. A angústia de Bruce é perfeitamente compreensível, e vemos aos poucos ele se conciliar com o Batman. Por incrível que pareça, o filme termina com uma nota de esperança no futuro.

Sim, esse Batman também tem mamilos. Eu vi, você vai ter que ver também (Crédito: Divulgação)

Futuro que já está garantido, foi divulgado que Pattinson e Reeves voltarão em Batman II. Os US$ 780 milhões que o filme faturou, até o final de abril de 2022 devem ter ajudado.

Batman - Conclusão

Dependendo do que você espera, Batman pode ser um filme muito chato, muito legal ou muito legal mas fora de lugar. É importante lembrar que essa é uma visão particular do personagem. Existem incontáveis Batmen, é um personagem que já trabalhou com Sherlock Holmes, já teve aventuras com a turma do Scooby-Doo, já enfrentou o Predador e já foi, literalmente, um deus.

Eu falei (Crédito: DC Comics)

Talvez um segundo filme acabe com o estranhamento, e essa versão do detetive se torne a padrão do cinema, ou, talvez, a DC/Warner pare com seus melindres e crie uma série de TV com esse Batman, deixando para o cinema o Batman Espetáculo.

Batman - Trailer:

Onde Assistir:

Batman está passando na HBO Max!

Cotação:

4/5 Burgess Meredith - o único e verdadeiro Pinguim - se você gosta do Batman Detetive,

Ou:

2/5 Burgess Meredith - se você gosta de Batman-espetáculo.

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